Ensino da língua Cokwe no topo das prioridades defendidas em Saurimo

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O pano-saia, da indumentária ostentada por alguns funcionários desperta a curiosidade de dezenas de convidados acomodados numa sala de conferências do hotel Kawuissa.

O pano-saia, da indumentária ostentada por alguns funcionários desperta a curiosidade de dezenas de convidados acomodados numa sala de conferências do hotel Kawuissa, centro da cidade de Saurimo, decorada onde as armas de fogo de fabrico artesanal, imagens esculpidas de troncos de árvores, instrumentos musicais e artefactos de uso doméstico assinalam o convívio harmonioso entre o moderno e o tradicional.
A valorização da língua Cokwe considerada pilar importante na identificação da cultura sobressaiu dos debates, com um número assustador de inscrições, para contribuir no resgate de valores sufocados pelas circunstâncias e por esta via perpetuar um legado que permita as novas gerações manterem na diferença os traços de identidade.
O Workshop, colheu subsídios importantes. O desgaste despontado nas intervenções conferiram mérito à iniciativa reputada como passo importante para executar uma empreitada desafiante que deve entre outros locais começar com o ensino aos jovens, a partir de jangos, sob a orientação dos mais velhos com competência reconhecida afim de transmitirem a experiência necessária.
Réplicas e tréplicas acaloraram as acusações e argumentos de defesa entre os intervenientes, motivados pelos detalhes nas prelecções apresentadas, sobretudo quando os adultos acusaram os jovens de pautarem pela insubordinação, imediatismo e falta de urbanidade na via pública e no meio onde vivem, em relação aos temas, " A importância da divulgação do Cokwe, Influência das novas tecnologia na preservação da língua, nomes e adágios, e a importância dos ditos na cultura Lunda-Cokwe".
Atenta a governadora em exercício Madalena Uqueve Xili, defendeu urgência por parte das estruturas competentes a multiplicação de iniciativas que estimulem o ensino e debates sobre aspectos relevantes do manancial da cultura Cokwe, herança social de hábitos e costumes, colocando o homem no centro das atenções. Ao Reconhecer que " nenhuma cultura é superior à outra", nota que a cultura Cokwe " é das mais ricas" no país e alertou sobre o perigo de "aculturação, na destruição de traços de identidade". Ofélia, subscreveu a proposta de edificação de jangos, para transmitir "bons hábitos e costumes" aos jovens numa perspectiva de prepará-los como líderes com bagagem suficiente para garantir estabilidade nas comunidades.

Origem e liderança
Discorrendo sobre o passado o historiador João Baptista Manassa ressaltou que os povos Cokwe são produto de migrações, em diferentes épocas, a partir de África Central Bantu, iniciadas na região de Culango, na imediações de Tanganica.
Tradicionalmente, acrescentou, os Mbungu ou Tumbungu, assim designados os grupos que habitaram o território Lunda, preocupados a dispersão de grupos, elegeram um líder que entre outros desafios tinha a missão de aglutinar as tribos da região, destacando o nome de Yala Muako no século VII depois de Cristo d.C, segundo dados subscritos por antropólogos e cientistas.
Para garantir a execução dos programas de governação que entre outros fins visaram a manutenção da unidade, solidariedade e gestão do património do reino este último integrado por " territórios, respectivos rios, florestas, entre outros recursos" o rei contava com um pelouro de gestores distribuídos para as áreas afins. A consanguinidade determinou a integração na linhagem (Munhachi).
Uma pulseira exclusiva conhecida por Lucano, no braço direito, usado de forma obrigatória sobretudo nas aparições em público, simboliza o poder do líder. O seu uso no braço esquerdo do líder, e um chapéu (Txipamgela) confeccionado com adornos especiais, é um detalhe curioso na cultura Cokwe. Via de regra o pátio da casa do líder é delimitado por uma cerca de estacas espetados no chão.

Conflitos migrações
A prelecção esboçou os conflitos no reino que geraram facções responsáveis pelas migrações a partir da sua capital Mussumba, no Congo Democrático. O prelector assinalou a margem esquerda do rio Cassai como itinerário importante do fenómeno migratório e o desabamento de uma torre a sua construção, projectada por um grupo de renomados artífices, à semelhança de Babel, afim de tocar o céu. Sublinhou que parte dos escombros do empreendimento jazem numa localidade que confina os municípios de Dala e Cacolo.
Descreveu a complexa genealogia até à entronização do soberano Cokwe Mwatshissengue Watembo, e nota que as circunstâncias vividas em distintos momentos alteraram de hábitos e costumes. Perante o perigo eminente de extinção de valores, os "Tuchokwe", assim conhecidos no passado são chamados a preservarem a cultura Cokwe, a começar pela língua .
As tecnologias na visão do prelector António José Augusto é um suporte ao importante para a divulgação de factos no domínio da cultura, longe de carregar o rótulo de "inimigo que adultera e delapida os sinais de identidade . Criado pelo homem para aproximar as pessoas "não deve criar repulsa ou rejeição sob o velho subterfúgio de " ser obra do branco".
António Augusto que é chefe de departamento da cultura na província do Moxico narrou parte da realidade constatada no decurso de incursões para pesquisa pelo interior, em busca de provas autênticas sobre o passado afim de actualizar e publicar conteúdos que de forma pedagógica despertem o interesse e agreguem valores às novas gerações, apegadas às redes sociais onde as mensagens espelham realidades alheias à cultura da região.
Referiu que o preço para alterar o quadro vigente implica coragem, inteligência e sentido de compromisso para enfrentar deboches e outras formas de desdém diante de iniciativas singulares ou colectivas como a do "Hano Hene". O projecto em curso carece de um grupo de intensidade para resgatar dos mais velhos o legado guardado. Para a sua divulgação os protagonistas do Hano-Hene optam pelo teatro com grupos baseados em zonas alvos de pesquisas, e a compilação de dados em arquivo digital para garantir subsídios no processo da actualização da história .
Das constatações o interlocutor destacou a passagem pela travessia do Kawewe, sobre uma rocha, no Cassai, localidade situada no território de Muconda, usada por uma comitiva de lideres e respectivos súbditos tradicionais, que peregrinaram pela baixa de Cassanje, Marimba em direcção a Mukulo ua ngola. Incentiva à realização de pesquisas às origens, citando a região de Tanganica.

Homens no Mungonge
e mulhers no Txiwila
O valor das instituições tradicionais de ensino, Mungonge e Txiwila para as mulheres. Mitos e crenças sustentavam a simbologia de Deus através da água, e ânsia de chegada à terra prometida. A palavra Calunga na perspectiva das instituições traduzem a ideia de mar, com um sentido interpretativo múltiplo, dai o valor sagrado da água usado para o banho e outros fins.
As prelecções convergiram em relação à necessidade de descoberta da verdade mediante um regresso ao século IV. A chegada tardia do colonialista no antigo distrito da Lunda-Cokwe levanta séria dúvidas sobre a autenticidade da história escrita da região, à semelhança da existência da tribo Lunda, pelo facto do termo Tumbungu, atribuído aos antigos habitantes da Lunda, designar povos fixos da região.
Ressaltaram o impacto da circuncisão (Mucanda), prova de fogo que culmina com a capacitação do jovem para os desafios na vida em comunidade. A iniciação feminina na puberdade para corresponder às exigências no lar, variantes na escrita da palavra Cokwe por vezes alterado para Txokwe, ou Tchokwe e quíocos nas versões da escultura Samanhonga, com as mãos sobre a cabeça ou apoiando as bochechas, geraram inquietações entre os participantes que recomendaram estudos e análises para dissipar dúvidas.

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