Entrevista a Lopito Feijó Um poeta que se pretende doutrinário

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Poeta, ensaísta e crítico literário, Lopito Feijó está empenhado em projectar internacionalmente a sua obra. São às dezenas os convites que recebe, anualmente, para participar em conferências, colóquios, feiras e outros eventos literários internacionais. Muito recentemente foi empossado como membro da Academia de Artes, Letras e Ciências do Rio Grande do Sul, Brasil. Mas o escritor diz que está triste: todo o seu esforço individual em prol do país não é reconhecido pelas autoridades angolanas. Este e outros tópicos foram tema da entrevista que concedeu ao jornal Cultura e que abaixo se transcreve.

Entrevista a Lopito Feijó Um poeta que se pretende doutrinário
Entrevista a Lopito Feijó Um poeta que se pretende doutrinário

Jornal Cultura – Tem se desdobrado ao longo deste ano em viagens ao exterior do país. Pode detalhar para os nossos leitores aonde esteve e o que fez?
Lopito Feijó – A experiência que acumulámos ao longo de mais de 35 anos de exercício da literatura fez com que despertássemos para uma prática mais profissional, pois pensamos que a vida literária comporta a publicação de livros mas também o contacto com outros autores e com os leitores e estar no ambiente artístico-literário como um todo.

JC- Defende então que a actividade do escritor não deve consistir apenas em escrever livros…
LP – Sim, principalmente quando queremos assumir a condição de formadores de consciência, devemos fazer intervenção social, tanto dentro como além fronteiras. Em razão do profissionalismo que assumimos e dos anos em que estamos na tarimba, temos sido convidados, a título pessoal, a participar nalguns eventos. Hoje a maior dificuldade para as nossas deslocações são os bilhetes de passagem e o alojamento. Ali onde as instituições que nos convidam garantem ao menos o transporte e o alojamento nós nos manifestamos disponíveis, porque levamos a literatura muito a sério e não podemos deixar de dar o ar da nossa graça e dizer algo que no âmbito da nossa literatura nos torna sujeitos e objectos do mesmo processo.

JC–Actualmente o Lopito Feijó é um escritor profissional?

LP – Posso dizer que sim. A minha prática literária é diária e regrada. Trabalhar em literatura significa pensar, fazer e sentir literatura todos os dias. O que não quer dizer que tenho de escrever poesia, ensaio ou crítica todos os dias. Há momentos em que tenho que ler (e tenho muita coisa em atraso para ler ou reler). Toda esta prática implica o meu profissionalismo. Aliás, tive a sorte de me ter reformado na Assembleia Nacional, depois de 16 anos, antes do 50 anos de idade, o que me dá tempo e possibilidade para viajar e trabalhar, pensar, sentir e fazer literatura diariamente, com uma jornada de trabalho em razão de uma certa disciplina que eu próprio me impus.

JC – Voltemos então para a sua jornada de participação em eventos no estrangeiro.
LP – Ao longo do ano recebo mais de dez solicitações para participação em eventos no estrangeiro. A gente vai aí onde há mais interesse. No final do ano passado participamos na Universidade do Minho, em Braga, numa conferência sobre as interfaces da Lusofonia, com professores e estudiosos dos mais distintos países de língua portuguesa, e não só.Tivemos acesso a participação nesse fórum por intermédio do professor José Carlos Venâncio, da Universidade da Beira Interior. Foi interessante porque às vezes quando se fala da lusofonia esquece-se que alguns países lusófonos africanos, principalmente Angola e Moçambique, têm línguas nacionais que nada têm a ver com a lusofonia mas com uma suposta bantufonia. E hoje já não se pode falar sobre a lusofonia, no domínio da arte, principalmente da música e da escrita literária, olvidando a perspectiva dos países que ainda têm a interferência de outras faces linguísticas próprias das nossas realidades etnolinguísticas. Isto foi muito útil para nós, enquanto escritores, que trabalhamos muitas vezes sob uma perspectiva de interpenetração idiomática. Ou seja, muitos de nós infiltramos algumas palavras das nossas línguas nacionais na língua portuguesa, o que acaba por dar inovação e acréscimos à língua portuguesa. Os novos dicionários da língua portuguesa hoje já contam com alguns vocábulos oriundos das línguas nacionais, locais ou nativas, se quisermos, de alguns dos nossos países inseridos no grande bloco da lusofonia. A nossa participação consistiu na apresentação de uma comunicação sobre a interpenetração idiomática na obra de vários autores angolanos, por exemplo o Luandino Vieira, que se fez presente, e o Boaventura Cardoso.

JC–Fale-nos do evento de lançamento do livro póstumo de João Maria Vilanova, “Os Contos de UkambaKimba”.
LP - Por via da editora Nóssomos e da Universidade de Coimbra, tivemos a oportunidade de fazer a apresentação, com Luandino Vieira e intervenção especial de Pires Laranjeira (que é muito ligado à família do autor), do livro do João Maria Vilanova, intitulado “Os Contos de UkambaKimba”. Como sabemos, Vilanova, até determinada altura foi um enigma, mas afinal era um juiz que trabalhou em Ndalatando e era grande amigo do escritor Jorge Macedo. Numa Mesa Redonda tivemos a oportunidade de dizer, para espanto da família, que a obra de Vilanova era conhecida e querida em Angola, e era reivindicada e consumida pela minha geração, a começar pelo livro “Cadernos do Guerrilheiro”. A viúva revelou que toda a família sofria pela condição de anonimato do marido, e que era ela que assinava as cartas dele, enquanto escritor.Quanto ao livro, devo dizer que é um conjunto de contos altamente telúricos, profundamente enraizados na realidade africana e angolana.

JC- É pena que este livro não esteja imediatamente ao alcance da maioria dos leitores angolanos.
LP - Sei que o editor está preocupado com isso e nos próximos dias o livro vai chegar a Luanda. Tivemos a felicidade de receber um outro convite para participar, em S. Paulo, Brasil, no décimo quinto congresso brasileiro de língua portuguesa, que aconteceu simultaneamente com o sexto congresso internacional da lusofonia. Fomos convidados para falar, enquanto autores, da nossa prática literária, na Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo, mais especificamente na Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes, onde apresentamos a nossa visão comparada da literatura de Angola e de Moçambique, já que temos informação e reflexões suficientes do que aconteceu nos anos 80, e depois, em ambos os países. Por um lado nós tínhamos a revista Aspiração no âmbito das brigadas e eles lá tinham a revista Charrua, não no âmbito de um movimento similar às brigadas mas de um processo organizativo directamente ligado à associação dos escritores em Moçambique. Angola e Moçambique são dois casos em que a actualidade literária é visivelmente marcada com a intervenção dos autores dos anos 80, fundamentalmente. E no caso de Angola a melhor literatura que se produz hoje é feita por alguns autores dos anos 70 e 80. Os escritores Manuel Rui e Boaventura Cardoso são da geração de 70 e dos que produzem, hoje, a melhor literatura angolana, a par de alguns autores da geração de 80, cujos nomes todos nós conhecemos e não convém citar. É fundamental dizer isso: a grande literatura que se produz hoje em Angola e em Moçambique é feita por autoresdos anos 70 e dos anos 80, havendo casos muito raros de autoresdos anos 90.

JC – Essa tese, polémica, não estará eivada de preconceito relativamente às emergentes gerações de autores?
LP–Esses autores, que você diz de gerações emergentes, dos anos 90 e 2000, ainda devem dar provas da sua afirmação e depois da sua confirmação. Um exemplo de afirmação e confirmação, dos anos 90, é um RoderickNehone.

JC – O que é isto, concretamente, de afirmação e confirmação?
LP–O exercício da prática literária e a formação de um escritor levam tempo. O Martinho da Vila dizia, e muito bem, que quem canta um canto ainda não é um cantor. Quem pinta um quadro ainda não é um pintor e quem escreve um livro ainda não é um escritor, é um autor. Há autores que publicam um livro e que depois não se confirmam ou cuja revelação deixa dúvidas.

JC – Mas há exemplos, na história da literatura universal, de grandes escritores cuja obra completa se resume a um único livro…
LP – Estou a reportar-me às nossas literaturas. Como sabe, as gerações literárias angolanas sempre foram classificadas de forma periodológica, perdoa-me o pleonasmo, em períodos de dez anos. Hoje tenho algum receio em afirmar quem são os integrantes das gerações de 90 e da primeira década do século 21. A verdade é que não há grandes revelações de práticas confirmadas do exercício da escrita literária. É possível que haja casos de escritas engavetadas, como sempre houve na literatura angolana.

JC – Não se porá a questão de que a crítica, se é que ela existe entre nós, ainda não terá feito uma leitura exaustiva de tudo quanto se vem publicando no país?
LP–Não tem sido feita, essa leitura não é uma prática habitual. Devo dizer que cada geração merece os críticos literários que temou não tem. A obra literária é que atrai os estudos e os críticos. É doloroso sentir que muitas obras têm sido publicadas, sobretudo agora que basta um patrocínio para o fazer, e sobre as quais não se escreve uma única linha nas publicações periódicas; depois do acto de lançamento mais ninguém fala desses livros. Isso acontece porque tais obras não trazem o “sumo” necessário para o consumo dos leitores, não têm a capacidade e a densidade literárias e a artisticidade necessárias e suficientes para atrair a crítica e os leitores.

JC – A sua resposta faz-me colocar a seguinte questão: não haverá um problema na mediação da comunicação social, que não lê o que se vai publicando?
LP–Sabemos qual é a qualidade do jornalismo cultural no país. Se já temos dificuldade de encontrar jornalistas culturais de qualidade e especializados… Nos anos oitenta havia jornalistas especializados, de grande monta e de grande qualidade. Deixa-me falar do Américo Gonçalves, que nós consideramos sempre o general do jornalismo cultural angolano; havia também o Manuel Dionísio e o próprio David Mestre, que já vinha dos anos 70; e o Amável Fernandes, que dava opiniões sobre cultura nos jornais. Hoje esse leque de jornalistas dedicados à cultura reduziu-se, até por causa das debilidades da formação no nosso tempo. E isso tem implicações na crítica, já que a crítica quotidiana é feita nas publicações periódicas. O cenário é este, em que temos poucas publicações periódicas com espaços especialmente dedicados à cultura e, por outro lado, temos muito poucos profissionais que exercitem o jornalismo cultural e muito menos a crítica literária. Isso dificulta na hora de fazermos o balanço dos autores e das obras dos novos autores. Dos autores pós-anos 80 hoje podemos falar de RoderickNehone, David Capelenguela, Nok Nogueira e pouco mais. Costumo também citar o Sapyruka, que é um grande autor surgido nos anos 90 mas cuja escrita é pouco visível. O Abreu Paxe é um autor de reconhecido valor mas acredito que ele vai se afirmar não como autor de prática literária mas como um grande crítico e estudioso de literatura angolana.

JC – Voltemos às suas viagens recentes.
LP – Estivemos como convidados, a título individual, privado, na Feira do Livro da Língua Portuguesa, em São Tomé e Príncipe, onde se fizeram presentes autores e editores dos países da CPLP e, infelizmente, de Angola estava apenas eu e os meus livros. Sei que a informação oficial sobre a feira chegou ao Ministério da Cultura. A nível da União dos Escritores Angolanos muito se propalou sobre a internacionalização da literatura angolana, vejo agora que apenas sob um ponto de vista eleitoralista. Aliás, nunca existiu na UEA um programa de internacionalização da literatura angolana.

JC – Há uma percepção geral de que a internacionalização da literatura angolana consistiria sobretudo em pôr os escritores a viajar ao estrangeiro e não propriamente na tradução e edição dos livros no exterior. Qual é a sua percepção sobre esse assunto?
LP – A internacionalização implica investimentos e a criação de lobbies. A UEA tem dificuldade em promover, divulgar e distribuir as obras que edita, aqui no país. Os nossos livros não chegam ao Bengo, ao Kwanza Sul, ao Cunene, ao Uíge ou a Cabinda, excepto se um determinado autor, a título pessoal e assumindo os custos, leva para lá os seus livros. Não há um plano concreto de promoção e distribuição dos livros a nível nacional. Se a UEA tem dificuldade em distribuir os livros dos seus membros em Luanda e nas outras províncias, como é que vamos falar em internacionalização? Mas podemos pensar em fazer as duas coisas simultaneamente.

JC – Ainda no Brasil, o Lopito foi entronizado como membroda Academia de Artes, Letrase Ciências do Rio Grande do Sul. Fale-nos sobre esse facto.
LP–Fomos empossados e ocupamos a cadeira número um dos académicos estrangeiros. Tivemos a oportunidade de fazer uma oração de sapiência em que falamos de literatura angolana. Ao patrono da minha cadeira, Mário Quintana, adicionei António Jacinto. Quem conhece a história de Mário Quintana está a ver António Jacinto: ambos estão unidos pelo desapego à vida material e pelo humor fino no exercício poético. Recebi centenas de mensagens de felicitações de pessoas e autoridades de vários países, do Estado angolano não recebi nenhuma comunicação.É importante ainda dizer que este mês de Junho estaremos, em Paris, no “Marché de la poesieafricaine”, um encontro de quinze poetas da África Negra, fundamentalmente dos países adjacentes à bacia do rio Congo.

JC – Sente-se magoado por isso?
LP–Não diria magoado mas triste. O Estado tem que fomentar e apoiar autores que levam a nossa bandeira. Quando tomei posse na Academia falei de Angola, do Governo, dos autores angolanos, a bandeira de Angola foi projectada numa tela de 1,90 m por 2 m, e todas as mesas tinham bandeirinhas de Angola.Nós que não somoseurodescendentes(algumas pessoas fingem não saber o que representa esse termo), nós que não temos tios nem avôs em Inglaterra, França, Alemanha, Rússia e noutros países, só temos a qualidade artístico-literária dos nossos textos para nos projectar lá fora. O Estado pode muito bem dar apoio a alguns autores, a título individual, e às instituições que deveriam velar, e não velam, pela internacionalização da literatura angolana.

JC–O que tem a dizer da sua actividade editorial mais recente no exterior?
LP - As minhas “Cartas de Amor” foram reeditadas em Portugal, pela Nóssomos, e, felizmente, estão esgotadas.“Marcas da Guerra – Percepção Íntima e Outros Fonemas Doutrinários” também está esgotado em Portugal. O livro “Andarilho e Doutrinário”, que celebra os meus 50 anos de idade e reúne notas, recensões críticas, ensaios e opiniões dos mais distintos professores universitários sobre a minha obra, está no mercado. Este livro, ao ser lançado em S. Tomé e Príncipe, com apresentação do escritor cabo-verdiano Daniel Spínola e da escritora são-tomense Maria Conceição Lima, resultou numa grande homenagem que me foi feita. No próximo mês de Setembro vou publicar em Portugal “Desejos de Aminata”, um livro de poesia com uma grande agressividade erótica, profundamente íntima e até mesmo malcriada.É uma homenagem à minha esposa e a mulher africana, no geral. Está quase pronto, estando a ser ultimadas as ilustrações, o livro de poesia “A Doutrina dos Pitós”, destinado a crianças. Logo que surja a oportunidade esses livros serão editados no país.

JC – É recorrente nos títulos dos seus livros a palavra “Doutrina” e suas derivações. Estará implícita nessa prática a intenção de criar uma “filosofia” poética ou do fazer poético?
LP–Eu quero fazer uma literatura única e com sequência. A marca Lopito Feijó distingue-se pela característica doutrinária, no sentido de estarmos a fazer doutrina poética. Queremos que o nosso pensamento poético fique e marque filosoficamente todo um processo literário e a história da literatura angolana. Ao leitor, depois de ler essa poesia, vão lhe sobrar alguns princípios éticos e estéticos que lhe permitirão encaminhar a sua vida de forma mais esplendorosa, florescente e fluoroscente.

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