Entrevista Pepetela "Eu talvez pudesse dizer que há só uma espécie de sinopse mental"

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Por altura da Conferência Literária “Itália Encontra Pepetela”.

Fotografia: "Eu talvez pudesse dizer que há só uma espécie de sinopse mental"

Como nascem as suas obras literárias, Pepetela?


Pepetela - Quanto à criação das obras literárias, eu acho que cada escritor dirá da sua forma. Porque, de facto, eu acho que não há um controlo total sobre isso. Na cultura anglo-saxónica isso é comum. Eles fazem primeiro uma síntese em espécie de sinopse que é apresentada ao editor. Connosco não é nada disso.

Eu talvez pudesse dizer que há só uma espécie de sinopse mental (e apenas isso) quando se trata de temas ligados à história. Aí sim, eu sei mais ou menos como é que a acção vai decorrer e como é que vai terminar, nos livros em que tenho a preocupação em não fugir muito a aquilo que se sabe sobre o que se passou, ou o que se supõe saber.

Agora, nos outros livros, nascem muitas vezes nas primeiras frases, que é fundamental por marcar o ritmo do livro. Se conseguir manter isso, tudo bem. Mas, se não conseguir, o melhor é deitar fora. Comigo as ideias acontecem muitas vezes em viagens de avião, talvez por causa da altitude o cérebro fique mais liberto e sai sempre qualquer coisa. Se surge a primeira frase e eu saber que é boa, aí há alguma hipótese.

"Jaime Bunda, agente secreto": eu queria escrever um livro anti-policial
Pepetela - No caso do Jaime Bunda, por exemplo, a ideia nasce de duas maneiras. O personagem nasceu num jogo de basquetebol. Foi no primeiro jogo internacional da Selecção Angolana de Basquetebol. Eu estava perto onde estavam as pessoas da federação e comecei a notar um senhor que gritava muito porque o treinador não punha o filho dele a jogar. Angola perdia, ele protestava e o filho não entrava. As tantas, finalmente o filho ia entrar. Para espanto, ele era redondo e com uma bunda daquelas, daquelas que no avião não dava para entrar na classe económica.

O senhor (porque já não se podia dizer que fosse jovem) entrou e ao fim de meio minuto saiu, porque ele não conseguia saltar para apanhar a bola.

E eu disse: "bunda... bunda. Bunda. Isso é um personagem, bunda..." E fiquei com essa ideia do bunda personagem. Também tinha a ideia de escrever um livro policial, até porque o primeiro livro que eu tentei escrever, tinha eu catorze anos, era um policial. Mas não acabei. No entanto, tinha sempre a ideia que mais cedo ou mais tarde ia escrever um livro policial. E, as tantas, disse que era o momento de escrever um livro policial. Mas, é evidente que eu não queria escrever um livro policial, eu queria escrever um livro anti-policial e, portanto, lembrei-me do tal personagem bunda. Daí bunda. Bunda policial? Bond? James Bond? Então pus Jaime Bunda, que até não é a tradução de James Bond, mas é foneticamente o mais próximo que nós temos e o livro nasce assim nesta cor.

Porquê digo anti-pocial

Pepetela - Eu digo anti-policial porque é feito contra todas as regras de um livro policial. Eu suponho que um escritor quando escreve um livro policial sabe como é que ele termina. Há um caminho forçosamente, ou vários crimes, muitos crimes, e ultimamente quantos mais crimes melhor. Ele tem que saber como é que tudo termina, e a partir daí constrói todo o resto. Eu penso que é assim, pelo menos em clássicos como Agatha Cristie e outros, certamente.

Eu fiz exactamente o contrário porque eu não sabia como é que aquilo iria acabar. Eu comecei com o crime da catorzinha na ilha e depois introduzo o personagem principal, e o meu gozo era brincar com o personagem principal que é o Jaime Bunda.

Não era propriamente estar muito preocupado com o tal crime. E, a meio do livro, eu disse para minha mulher: "eu ainda não descobri um crime a sério, porque este não dá para fazer alguma coisa".

Já tinha os personagens todos e já estava tudo montado e não tinha crime a sério. Aí pensei que, no crime a sério, o mais fácil que há é moeda falsa. Contrabando de moeda. Acabou. Não era preciso inventar mais nada. Quase até ao fim eu não sabia como é que este livro iria terminar.

Eu ia mais ou menos empurrado pelos personagens, porque aí também é uma maneira. Como eu disse, nos romances mais históricos há uma trama, pelo menos o fio condutor, que é o fio da história, embora possa adulterar a história, possa meter muita ficção no meio, mas este é o fio condutor. Portanto sei mais ou menos como é que aquilo deve terminar. Não sei exactamente como termina, mas mais ou menos. É o próprio livro que, as tantas, diz "estou cansado. Estou farto de dar cabo de mim". Normalmente é assim.

Mayombe: "é um livro que nasce dum comunicado de guerra"

Pepetela - Mayombe nasceu dum comunicado de guerra. Estava a escrever um comunicado sobre um combate, um comunicado para ser passado na imprensa. E quando terminei o comunicado disse: "nesta operação aconteceu tanta coisa no meio desta floresta fabulosa e eu faço isto em dez linhas, não tem piada nenhuma". Aí continuei a escrever mais ou menos o que tinha passado, com personagens ficcionais.

O grupo até é parecido com o grupo real que realiza a acção, mas as pessoas não correspondem de maneira nenhuma às personagens. Até hoje há discussão entre os que ainda estão vivos (já não são muitos, infelizmente) a dizerem quem e que é a tal personagem. Eu digo sempre que não é ninguém, mas eles não acreditam. No fundo, eles acham que são eles (até certo ponto são).

Contudo, é um livro que nasce dum comunicado de guerra e os personagens conforme vão aparecendo conduzem mais ou menos à acção.

Parábola do Cágado Velho: "foi o livro mais difícil que eu escrevi"


Pepetela - Parábola do Cágado Velho foi o livro mais difícil que eu escrevi. Foi o que demorou mais tempo e o mais difícil. Demorou seis anos a escrever. E é um livro pequeno. Foi interrompido vinte ou trinta vezes. Eu escrevia um bocadinho e parava. Via que não era capaz porque estava bloqueado, completamente bloqueado. Parava e escrevia um outro livro.

Voltava àquele e bloqueava. Escrevi outros três ou quatro no meio. Só fui capaz de reunir os bocados que tinha para fazer daquelas partes um livro quando pela primeira vez na minha vida sofri uma guerra sem nela participar; era isto que estava a faltar. E aí compreendi.

Porque eu queria escrever sobre os que sofrem a guerra e que não têm parte nela. Não a controlam. Aí percebi como é que a guerra se abate sobre a cabeça de uma pessoa como um deus do mal, se pode dizer... qualquer coisa como uma força que vem, de repente um raio, e a pessoa não sabe o que fazer e só sente aquilo a cair de cima da cabeça, que é, no fundo, o drama dos camponeses de "Parábola do Cágado Velho"; dos camponeses que andam a fugir de um lado para outro fugindo a guerra, a confundir os exércitos.

A minha preocupação era tentar mostrar a coragem que também se pode ter ao estar a fugir da guerra. Porque normalmente todas as honras vão para os guerreiros, que são os heróis. Muitas vezes as vítimas é que são os heróis. Era um pouco isso que eu queria mostrar.

Lueji: "Porque me parece que a matriz cultural, e talvez até ideológica, está na Lunda"


Pepetela - Normalmente fala-se pouco do Lueji. E o Lueji tem tido problemas na tradução porque é muito grande, e depois dele nunca mais escrevi um livro assim. Eu reduzo. Porque já para a sua edição tive problemas por ser grande demais, e demorou tempo demais a sair.

Mas eu não fui capaz de fazer mais pequeno. Eu acho até que podia continuar mais, porque eu dizia pára, pára, pára, e eu parei. E é um livro que a mim também toca-me particularmente. Eu acho que nós ainda não conhecemos suficientemente a Lunda. Deveríamos conhecer melhor, e ainda mais agora que há lá a Universidade Lueji que vai começar a trabalhar mais sobre a região.

Porque me parece que a matriz cultural, e talvez até ideológica, está na Lunda. Pelo menos foi a porta de entrada para este território.

Por aí passaram todas as culturas que se estabeleceram no território angolano. Talvez com excepção de Cabinda e uma partezinha do reino do Kongo, mas a parte mais a sul também tem influência da Lunda, basta ver a influência que exerce na nossa arte pictórica; é constantemente a cor, os motivos e etc.

Nós conhecemos ainda mal, tal como conhecemos mal a nossa história conhecemos mal a própria Lunda. Não só a história como a própria realidade. E esse livro teve o mérito por chamar a atenção para esta figura que é Lueji. E foi a partir do livro que se começou a olhar. Hoje já há um nome de rua aqui em Luanda, já há uma universidade, e fico muito feliz porque o nome da minha filha está a se espalhar.

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