Escrever é um terreno tortuoso

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O exercício artístico, e o literário em particular, não é como um balaio de adivinhas, onde são jogados os búzios e depois tem-se a ideia do que virá a ser a seguir. É uma atividade de altíssimo risco.”

O exercício artístico, e o literário em particular, não é como um balaio de adivinhas, onde são jogados os búzios e depois tem-se a ideia do que virá a ser a seguir. É uma atividade de altíssimo risco.”

Quem o diz, sem papas na língua, é Nok Nogueira, uma voz da novíssima geração de poetas, em entrevista concedida nas vésperas do lançamento do seu novo livro “Jardim de Estações”.

Lula Ahrens – Recebeu o Prémio Literário “António Jacinto” em 2004, pela obra "Sinais de Sílabas’. Considera ser este o seu melhor trabalho? O que acha que é a força de “Sinais de Sílabas”?
Nok Nogueira – Se assim o considerasse e se tal acontecesse, seria uma fatalidade literária. Penso que estas questões de natureza valorativa cabem sempre ao leitor ou aos estudiosos, e nunca ao autor. Embora reconheça que não é sua intenção levar-me a esse exercício de autoanálise da minha própria obra sob o ponto de vista valorativo.

E se assim fosse, seria um exercício nada saudável para o ego e de uma tremenda injustiça para quem nos lê. Deve existir naturalmente um sentimento especial por esta ou aquela obra, mas ser esta ou aquela a melhor, na voz do autor, é realmente uma fatalidade literária, tratando-se do livro de estreia.

Mas se tal acontecesse provavelmente a esta hora não lhe estava a dar esta entrevista. “Sinais de Sílabas” terá sido, sim, o jogar de uma qualquer semente em terreno tortuoso, que precisava e precisa ainda permanentemente de ser lavrado. O exercício artístico, e o literário em particular, não é como um balaio de adivinhas, onde são jogados os búzios e depois tem-se a ideia do que virá a ser a seguir.

É feito tiro no escuro. O melhor arranque nem sempre caracteriza o que de melhor possamos produzir. A única leitura possível a esse propósito é que se tratou de um livro que me terá despertado logo no início de carreira para as inúmeras vicissitudes que encontraria pela sempre.

Aliás, no ato de entrega do prémio e lançamento do livro, o escritor Boaventura Cardoso, nas vestes de ministro da Cultura, chamou-me atenção para esta odisseia que viria a ser a atividade literária. E olha que não se enganou. É uma atividade de altíssimo risco.

LA – Considera-se antes de tudo um jornalista, um poeta ou ambos?
NN – Considero existir uma coexistência pacífica entre as duas figuras, na medida em que o jornalismo na sua essência sempre esteve ligado à literatura, razão pela qual ainda hoje é-lhe chamado a “literatura do real”.

O meu caso não terá sido diferente dos de muitos outros, e até bem sucedidos, que se iniciaram primeiro no jornalismo e que depois ganharam fôlego para experimentar uma atividade literária de maior consistência.

Há, no entanto, um breve relato em relação a isso a acrescer: comecei a escrever quando estava a frequentar o curso de jornalismo no Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL) e foi só aplicar as ferramentas do jornalismo ao exercício literário e pôr as coisas a funcionarem conforme a natureza formal de uma e de outra realidade.

Claro está que fi-lo também um pouco em subversão a todo um conjunto de princípios normativos, pois não me limitei a observar simplesmente as regras de uma área e respeitar os limites de outra. Sempre poderia ir mais além e penso que marquei o passo certo, quando tive tempo de o fazer.

LA – Jornalismo e poesia formam uma boa combinação?
NN – Formam sobretudo um caminho com boas doses de tentações. Eu explico-me: o jornalismo requer, acima de todos os requisitos, dois fatores fundamentais: objetividade e coerência no discurso, ao passo que estes mesmos dois fatores – que estão explicitamente identificados no exercício jornalístico como elementos basilares e estruturantes – ganham outros nomes e formas no âmbito da abordagem estética e/ou semântica do discurso poético.

O que é coerente e objetivo em jornalismo em estética pode não significar nada, pode ser irrelevante. A estética funciona muitas vezes como uma espécie de subversão à norma, por não permitir que o discurso se encerre em si. Há que dar largas à voz e à extensão das palavras. Transpor a sua condição natural ou linear.

Aqui reside a fronteira entre o literário e o jornalístico. Ou seja, a poesia permite que haja esta vasta extensão e acima de tudo uma irreprimível voz que em seu auxílio faça ouvir o que por meio de outros instrumentos (muitos dos quais legais) não chega a ser ruído sequer.

Logo, é uma combinação que mais nos expõe a alguns riscos dignos de experimentar do que uma simples combinação alegórica. E um bom exemplo para isso – claro está que com o devido exagero e imodéstia que esta afirmação possa sugerir –, é o tipo de versos que construo.

Faço uma poesia em prosa e tenho o vício de me explicar detalhada e demasiadamente, às vezes, extrapolando. O jornalismo não se permite a isso, mas permite outras façanhas narrativas. Terá sido esse o motivo para trabalhar com base numa poesia narrativa? Provavelmente! A literatura é todo um processo, ao passo que o jornalismo é um relato breve.

LA – Pode descrever os seus temas mais importantes?
NN – Coma objetividade e clareza com que me coloca a questão, é difícil de respondê-la, pois o caminho é longo e as abordagens também, e nunca lineares. Aliás, é a grande artimanha que nos possibilita a poesia, ao permitir que nos coloquemos diante do precipício e nos joguemos de um edifício abaixo sem darmos por isso.

O meu trabalho poético, se calhar por não se tratar de um discurso que se encerre em si (e aqui refiro-me concretamente aos dois títulos mais recentes, nomeadamente “Jardim de Estações”, já editado pela nós Somos, em Portugal, e “As Mãos do Tempo”, por editar com a mesma chancela), permite-me proceder a um levantamento expansivo dos vários temas que eventualmente andem à volta de uma mesma situação.

Não se trata de experimentalismos ou de uma outra questão que a ela se associe. Nem é um facto novo, literariamente extraordinário. Trata-se apenas de descortinar o que vai coma névoa dogmática de que têm sido vítimas as sociedades modernas, todas elas sem exceção.

Umas com maior brutalidade e outras com alguma subtileza ainda muito mal disfarçada. Agora, há toda uma condição do “meio envolvente”, que neste caso é Angola, que nos vai permitindo que a desarrumemos e olhemos para o mais fundo do poço que existe nela, para que a percebamos em tons mais claros e menos orquestrados.

Tematicamente, o olhar poético é vasto e às vezes perde-se na imensidão do caminho. Mas é Angola e as suas desarrumações sociais, políticas e culturais que fazem o postal do meu discurso poético.

LA – Pode dizer-me algo sobre o seu mais recente trabalho?
NN – O “Jardim de Estações”, escrito inteiramente em 2007 na África do Sul, reflete precisamente um quadro de renovação emotiva. O virar de uma página que se vai impondo na vida de cada um nós, enquanto parte integrante de todo um processo sociopolítico aberto ao cultivo de formas distintas e cúmplices, mas coerentes e saudáveis, de se fazer o presente do amanhã.

Nesse ano de 2007, foi a primeiríssima vez que estava a viver as quatro estações ininterruptamente e longe do espaço terra-mãe e pátria geradora.

Este mudar de estações, que acaba por se traduzir sempre num elemento novo, fez-me lembrar a minha mãe, que acreditava que quando chegássemos (eu e os meus irmãos) à idade militar já a guerra teria terminado. Enganou-se redondamente.

O “Jardim de Estações” não se limita a debruçar-se sobre uma Angola pós-guerra civil de modo alegórico, nem é um relato entusiasta. Mas propõe-se a levantar algumas questões resultantes deste virar da página, pois é comum as pessoas, após um longo período de guerra, trazerem ao de cimo algumas questões não menos importantes sobre o que terão sido todos esses anos e o que virá a ser o dia seguinte de toda essa saga de guerra.

Mesmo sabendo que esta reflexão em nada poderá alterar o que de facto terá lugar, uma vez que a esfera de decisão é outra. Portanto, é um livro comprometido com alguns acontecimentos que decorreram ao longo da história recente de um país que hoje está voltado para um vasto horizonte.

Não é entretanto um livro de alusões e nem tão pouco está dotado de um discurso apologista, típico dos ditames que nos habituaram, sendo estes politicamente corretos. É um canto livre como as estações.

LA – De que forma tema sua juventude influenciado o seu trabalho?
NN– Pergunta difícil de responder, embora fácil de a desmontar. É preciso aqui não atribuirmos aptidões especiais à fase da juventude, pois por ela passaram milhares de escritores e todos estes tiveram de tomar o máximo de aproveitamento dela para se afirmarem e atingirem depois a maturidade enquanto escritores e outros como intelectuais.

Alguns foram bem sucedidos, os que mais trabalharam para tal, claro está. Mas ainda assim não foi aí que tiveram o auge da carreira. Foi sempre na idade adulta que chegaram à maturidade literária, no sentido do polimento. Nesse sentido, encaro-a como um estágio que me vai permitindo olhar a vida através de um certo ponto de observação, mas que não é suficientemente capaz de me dar o talento que se precisa para se ser um bom escritor em tão curto espaço de tempo.

Gostava vivamente de me tornar um dia num bom escritor e tenho trabalhado para que tal aconteça. Enquanto isso, aproveito a minha juventude para me dedicar à pesquisa e sobretudo ao trabalho aturado que se exige de um exercício criativo. E, claro, também para sonhar com alguma intensidade exacerbada, coisa que com maior idade se não aconselha a ninguém. Podemos ser um bom sonhador na juventude, mas nunca um escritor suficientemente maduro.

LA – Quem são os seus escritores angolanos e poetas favoritos?
NN – Olha, eu pertenço a uma geração de jovens poetas angolanos que ainda teve um mestre e o meu foi e é o poeta, dramaturgo e Milantropo Trajanno Nankhova Trajanno. Eu considero-me fruto da escola deste enorme poeta angolano.

Quando o conheci, já trilhava os caminhos da literatura e até já escrevia, mas foram os contactos permanentes, as pequenas tertúlias a dois que fazíamos no escritório dele, na Sociedade Espírita Allan Kardec (SEAKA), no Makulusu, que me permitiram descobrir a verdadeira dimensão estética da palavra poética.

Claro está que ele não me pegou na mão, com uma caneta, e ensinou-me a escrever um verso ou mesmo um poema. Mas foram as conversas à volta do fenómeno literário e dos grandes temas da atualidade que me permitiram depois definir um caminho e tomá-lo como opção certa e seguir em frente.

Lembro-me de num desses dias ele me ter dito o seguinte: «Nok, escreva sobre tudo que quiseres sem medo». Acho que nessa altura ele terá percebido que eu estava pouco à vontade após o lançamento de “Sinais de Sílabas”. Sem esquecer que foi ele, Nankhova, quem me baptizou com o nome de Nok. Eu assinava Carry Casy. O Nogueira já o tinha como certo um dia, mas o Nok foi obra do Trajanno Nankhova Trajanno. E depois há outros nomes, naturalmente, mas penso ter sido já muito extensivo.

LA – Quem - de acordo consigo - representa a nova geração dos poetas e escritores angolanos?
NN – Curiosamente, nos últimos meses muitas foram as conversas à volta desta questão da nova geração de poetas angolanos. Eu, apesar de estar a acompanhar de perto através das redes sociais e publicações impressas, procurei e procuro manter-me à parte de todas essas questões, algumas das quais falsas, absurdas e de um despropósito que não é recomendável a ninguém.

No entanto, penso que quem o fez no sentido de deitar abaixo uma série de novos autores não terá sido suficientemente coerente com o que se assiste desde finais do século passado e o início do século XXI. Há coisas más e outras menos más e há também coisas muito boas de autores nascidos da primeira década de 2000. Nomes? Existem alguns, mas prefiro mantê-los guardados sob pena de me esquecer ou omitir o nome de um ou de outro. Mas que há uma nova geração de poetas há, e tudo resto o tempo vai ajudar-nos a descortinar depois.

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