Escritor Ruy Duarte De Carvalho recordado pelos amigos e estudantes da escola com o seu nome

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"Vou lá visitar pastores": esta é a frase estampada numa das pequenas muradas edificadas junto ao local onde foram colocadas as cinzas que resultaram da cremação dos restos mortais do escritor, poeta, antropólogo e cineasta Ruy Duarte de Carvalho.

Por sinal, "Vou lá visitar pastores" é a frase que dá título de uma das suas obras literárias editadas em Lisboa (Portugal), no ano de 1999, pela Livros Cotovia.

O título do livro descreve o caminho em direção ao município do Virei, terra autóctone do subgrupo étnico "Mucubal ou "Cuvale", o povo genuinamente pastorício que o poeta tanto amava devido os raros costumes, ritos e tradições completamente místicos.
A seu pedido, o sítio onde jazem os seus restos mortais dista a 17 km da sede da província do Namibe, no desvio ao município do

Virei, em pleno deserto.

Para assinalar o segundo aniversário da sua morte (12 de Agosto) os amigos e estudantes da escola do ensino geral com o seu nome prestaram uma homenagem ao escritor.

A mesma aconteceu numa sexta-feira de Agosto do ano corrente, precisamente dia 17, para recordar as obras e a sua figura no contexto literário e cultural.

O sociólogo Gaspar Madeira, um dos amigos do escritor Ruy Duarte de Carvalho que assistiu o acto, foi o principal personagem da cerimónia e, emocionadamente, dirigiu as seguintes palavras aos presentes:
"Ruy Duarte de Carvalho quando chegou pela primeira vez no Namibe, na companhia da família, apaixonou-se pelo deserto.

Apaixonou-se tanto que quis ficar aqui para sempre. No final de uma das homenagens dedicadas a ele, pelo Instituto Camões, em Luanda, Rui Duarte falou para mim e disse que eu é que iria o enterrar, e que e ele sabia onde teria que colocar os seus restos mortais. Efetivamente, ele está enterrado onde ele quis: neste deserto. Simbolicamente, ele está espalhado por todo o deserto do Namibe, junto daquelas pessoas que estudou profundamente.

Era o mais profundo conhecedor dos costumes e hábitos delas. Simbolicamente, hoje também faz anos a mãe dele. Olhamos por aquele monte de pedras, que é o monte simbólico que cobre a urna onde estão as cinzas do Rui.

Estamos aqui com muita emoção, e vocês que são a juventude devem buscar nas obras do Ruy aquilo que ele sempre quis transmitir: as verdades escondidas.

Vou terminar porque o Ruy era antropólogo, era cineasta e, sobretudo, poeta. Dizia muitas das vezes em conversas que tínhamos que sempre defendia a poesia. Ele era um grande poeta.

E vou acabar essa minha intervenção lendo um poema que li no dia em que viemos todos colocar os seus restos mortais ali debaixo daquelas pedras":
"Catando, dizem os velhos, os espíritos vivem e eles mantêm-nos em vida.
Eles não morreram; que num abrotar de terra deles sempre. O sonho não tem fim,
O que se passou, desenrola-se ainda, ainda e ainda".
Depois dessas palavras, o silêncio deu lugar às emoções estampadas no rosto dos presentes, e cada um foi depositar a sua flor diante do monte de pedras no local onde foram depositadas as cinzas.Os presentes falaram do escritor

Bernardete Penguelewa, de 16 anos de idade, que estuda a sétima classe na mesma escola, reconheceu haver pouca divulgação de Ruy Duarte de Carvalho e de outros escritores angolanos, e também realçou que o facto de se atribuir o nome dele à sua escola é um grande reconhecimento por parte do governo e da sociedade.

José Frazão, professor de Historia da referida escola, disse que, como escritor, poeta e antropólogo, Ruy Duarte de Carvalho é uma figura que tem sido, para ele, uma das fontes históricas no estudo da disciplina e no mundo literário em si.

João Tavares, outro amigo do escritor Ruy Duarte de Carvalho, disse que o escritor merece mais do que homenagens. O mesmo acentuou que é preciso fazer das suas obras motivos de reflexão para dar a conhecer à nova geração de estudantes a importância da cultura, hábitos de leitura e de investigação no mundo cultural.

Para evitar construções com fins alheios, muitas opiniões durante a cerimónia convergiram na defesa e conservação do local, responsabilizando o governo da província no sentido de conceder aos parentes e amigos do escritor o direito de superfície do espaço onde estão os restos mortais do escritor.

Outras contribuições à escola Ruy Duarte de Carvalho

O escritor David Capelenguela doou recentemente mais de 300 livros de autoria dos escritores angolanos à escola Ruy Duarte de Carvalho, como forma viva de prestar homenagem.

Sem deixar de enaltecer a figura do poeta, antropólogo e cineasta, disse: "pessoalmente, lhe devo gratidão. Pois foi esta figura que me levou a tomar contacto com os aspetos inerentes à cultura tradicional e à oralidade".

David Capelenguela afirmou que conviveu muitos anos com Ruy Duarte de Carvalho e que este fê-lo conhecer muitas terras do Namibe e seus municípios. O mesmo disse também que vai continuar a homenageá-lo com aquilo que lhe vir da alma.

A diretora da escola Ruy Duarte de Carvalho, Maria Augusto Carvalho, afirmou que a doação dos livros tem grande importância porque vai facilitar o processo de ensino no círculo dos alunos.

De forma a manter vivo o nome do patrono da escola, a diretora da instituição salientou que os professores vão continuar a transmitir a vida e obra do escritor Ruy Duarte de Carvalho.

Na visão da diretora da escola, a doação vai igualmente permitir a criação da biblioteca da escola, cujas obras tiveram o seu início através da comparticipação financeira dos encarregados de educação da referida escola.

Por sua vez, o sociólogo Gaspar Madeira louvou o gesto do escritor David Capelenguela e afirmou que o gesto é uma forma de chamar a atenção às entidades de direito de forma a incentivar a prática de leitura nas crianças e não só, de forma a conhecerem os acontecimentos do passado e darem a conhecer a forma de se expressar e cuidados a terem com a própria língua oficial, que é o português.

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