Escritores Mediáticos na proa da fama efémera de uma geração sem nome

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A leitura literária é obrigatória para quem é escritor.

Escritores Mediáticos na proa da fama  efémera de uma geração sem nome
Olha a paracuca Fotografia: Maria Ferreira

A produção literária que se faz hoje já não é com certeza a mesma que se fazia na Geração da Mensagem e, muito menos, na Geração das Incertezas. Angola mudou, e os contextos socioeconómico, político e cultural sofreram de igual modo metamorfoses visíveis. Mas apesar das dificuldades financeiras e económicas dos últimos dois anos, temos presenciado um crescimento exponencial de publicações de títulos de ficção poética e narrativa.
Essa produção profícua de livros tem dado de certa forma mais opções e oportunidades de leitura aos amantes da literatura angolana. Porém, também denuncia mais quantidade do que qualidade. É neste estado de coisas que emergem os jovens “escritores” mediáticos que vão cortando atalhos à margem do real caminho a percorrer para se ser um excelente poeta ou prosador. A leitura faz parte dele. Só se torna um excelente escritor quem é um leitor apaixonado, guloso e crítico. Não há outra fórmula mágica. Devemos ler de tudo, desde os clássicos universais aos poetas e prosadores contemporâneos. A leitura literária é obrigatória para quem é escritor ou pretende sê-lo. Mas, com alguma nostalgia na alma, a par da necessidade imperativa de se ler mais e melhor, vemos que a leitura de obras literárias há muito deixou de ser imperiosa e, até mesmo, aprazível aos olhos dos jovens que se auto-intitulam escritores. E, com muita pena, o livro deixou de ser o verdadeiro canal dialógico entre as gerações de escritores. Poucos são os jovens escritores que conversam com J. D. Cordeiro da Matta por meio do Delírios. Os novos escritores quase não lêem e demonstram uma falta de cultura abismal, quase vergonhosa. Porventura, a cultura literária, a competência linguística e a qualidade dos textos que escrevem não lhes parecem ser assim tão importantes. Possivelmente, para eles, escritor é aquele que aparece vezes várias na TV.
Facto é que nos média fala-se mais desses “escritores” do que dos seus escritos. O que evoca, a priori, a pobreza e a iliteracia literária dessas obras. Penso que a obra deve falar sempre mais do que o nome do escritor. Quem faz o Nobel da Literatura é a qualidade e o conjunto da sua obra e não o contrário, como se faz crer aqui em Angola.
Percebe-se que “ser escritor” tornou-se a febre do momento. E alguns escritores medíocres, sedentos de exposição mediática, sentaram-se na proa de um navio descartável e navegam sobre as ondas de um mar sensível repleto de predadores marinhos impiedosos. Assim, volta e meia, deparamo-nos com um cardume de “escritores” que desconhecem a semântica de um poema bem conseguido ou as categorias da narrativa. Escritores estes que, na verdade, são autores, cujos chips da vergonha e da honestidade intelectual não funcionam mais, vão vendendo os seus best sellers com conteúdos sobre etiqueta, português e pensamentos mal plagiados. De forma implícita e explícita “os seus pensamentos soltos” a que teimosamente chamam de literatura demonstram uma pobreza estética e estrutural muito grande. São autênticos erros de concepção filosófica e sentimental, pensamental, gráfico e estético.
Caros concidadãos e jovens da banda, para se ser escritor não basta apenas ter cifrão para editar aqui ou na diáspora e depois, com um bom plano de marketing, tornar a obra um recorde de vendas e, consequentemente, um best seller. A qualidade do livro e do escritor não se mede pela exposição nos média e pelo número de vendas. Como disse Jorge Macedo, “O melhor livro literário nem sempre é o best-seller... O Valor literário do livro não depende da simpatia dos fãs, mas das regras estilísticas que podem ou não ser marginalizadas pelo autor”.
Músicos e jornalistas vão assinalando os primeiros passos no mundo da publicação de títulos literários. O que é de facto um contributo digno de aplausos. Afinal, um país faz-se com educação e formação do homem novo. E neste diapasão a produção e leitura de livros são indispensáveis. Porém, o problema que se impõe em alguns desses nossos novos Gabriel Garcia Márquez consiste na necessidade exacerbada de APARECER mesmo quando o “SER escritor” não tem identidade e desconhece categoricamente o género literário daquilo que diz ser fruto de suas imaginações. É inadmissível que alguém que se diz escritor não saiba o género do livro que escreveu e está a publicar. Muitos dos tais escritores não sabem o que é prosa ou poesia e nem a diferença entre ambas. Alguns desconhecem a diferença entre textos literários e não-literários, o que é inaceitável. Outros, ainda, sendo autores e não escritores, depois de publicarem livros com teor motivacional, sob o calor de alguma emoção, afirmam ser colegas de Pepetela. O que constitui uma autêntica asneira e, quiçá mesmo, heresia. E tal como afirmou José Luís Mendonça, “O dilema do aprendiz de escritor arranca da dialéctica do SER e do APARECER. Quando existe essa contradição entre estes dois estados, emerge uma angústia existencial na pessoa do aprendiz de escritor, quando alguém com sabedoria e que é um verdadeiro escritor lhe aponta categoricamente as falhas patentes na obra e lhe aponta o difícil da vida de escriba”.
É imperioso que se diga aqui que não estamos a pedir que os jovens escritores ou aprendizes de escritor tenham a licenciatura em Estudos Literários ou dominem todas as teorias da literatura. Advogamos, parafraseando Ana Luiza Figueiredo, que “...o escritor deve ter o domínio do seu ofício: como construir o enredo, como imprimir o ritmo à narrativa, como desenvolver os personagens, organizar o processo criativo. Sem falar dos quesitos mais básicos, entre eles coesão textual, ortografia e estilo do autor. Acontece que a melhor maneira de se familiarizar com estes aspectos tão caros à escrita é justamente ler”.
Jovens da banda, dando voz ao poema “Nem tudo é poesia”, da autoria de David Mestre, queremos afirmar de forma análoga e extensiva que nem tudo o que esses “escritores” têm feito é literatura. Boa parte dos “escritores” mediáticos afectos a vários movimentos literários juvenis e não só escrevem tudo menos uma literatura criativa engajada e com o rigor e a qualidade estética digna de algum reconhecimento. Prezados jovens “escritores”, viajantes acomodados na proa da fama efémera, com um sentido patriótico e por amor a vocês, antes de terminar esse simples artigo, gostava de reiterar o que Ana Luiza, os editores sérios e os escritores com tarimba vos têm dito: antes de ser escritor, é preciso, sobretudo, ser leitor.
O escritor por excelência, antes de tudo, é um monge espiritulmente evoluído e aberto à aprendizagem que medita o real e o surreal da existência humana na sua mais sublime metamorfose, a fim de criar e recriar o homem no seu mundo envolvente, por meio da palavra escrita forjada com a sensibilidade e o rigor estético nunca antes vistos. O escritor é solitário, é um griot que fala de si e para si mesmo. A mediatização e publicação de um livro não é uma necessidade primária e sim uma extensão do diálogo que faz consigo mesmo e suscita o interesse dos seres externos a si. O escritor não é um kudurista, não precisa de alarmismos. A escrita é um sacerdócio que requer silêncio e devoção.

LOURENÇO MUSSANGO
Iluustraçao de: MARIA FERREIRA (OLHA  A  PARACUCA)

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