Espaços e (des) identidades em sobre asas e fios de rosa ( poemas), de António Gonçalves

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A obra começa com uma dedicatória, remetendo- nos para dois pólos: a natureza, simbologia da candura humana, e o telúrico, espectro da sociedade angolana. Aliás, como dizia o poeta- maior, citado por Jorge Macedo: a cultura angolana é africana, é sobretudo angolana… Desenvolver a cultura não significa submetê-la a outras.

Espaço e (des) identidades em sobre asas e fios de rosa ( poemas), de António Gonçalves
Fotografia: Paulino Damião

Talvez, por isso, de seguida, a epígrafe de Teilhard de Chardin cujo conteúdo nos lança para a necessidade de uma introspecção, pois a experiência humana é que nos remete para uma realidade espiritual, sendo a espiritualidade, no contexto bantu ,do qual fazemos parte, uma matriz cultural.

SOBRE ASAS E FIOS DE ROSA (poemas) contém duas partes: antes do cerco-11 poemas, e, depois do cerco - 11 poemas.

Ambas as partes pressupõem uma coesão textual decorrente da coesão comportamental dos sujeitos poéticos, uma vez que, ao longo da obra, os quadros enunciativos dialogam, quer com a nobreza da arte, quer com a efemeridade da vida, quer com os princípios que devem reger a actividade humana, verificada em Escrita nupcial, Cão Engordado a dedo e na epígrafe, que dá inicio à segunda parte da obra.
O paratexto da obra, que dá título igualmente a um dos poema, funciona como uma vera-efígie do social angolano, já que evidencia os diferentes gráficos de vicissitudes a que se submetem os cenários privilegiados pelo autor constituídos pelo Rangel e pelo Zango, dez anos depois da paz efectiva.
Tal como dizia Senghor – pai ideológico do movimento sociocultural negritude – a arte africana é uma manifestação colectiva, a poesia é feito por todos. Demonstra tal manifestação, o cultor de Sobre Asas e Fios de Rosa (Poemas), quando enuncia o seu Rangel
como espaço inspirador pelas vivências de longas datas – bairro onde viveu largos anos – o Zango, por sua vez, apresenta- se como um novo cenário mais problemático, pois traz questões como a falta de urbanização, a chuva brava, que resvalam para um problema psicológico: a Extensão da solidão com nuances tropolizada com várias indumentárias.
Outro quadro social que nos chama à atenção está no poema Os cães nesta mesa dormem. Desperta a recorrência à estrutura sintáctica Os cães nesta mesa ao longo do poema. Tal recorrência, provavelmente, queira aludir ao egoísmo a que nos submetemos hoje, numa sociedade tão leprosa que nos leva ao esquecimento da condição do próximo.
Esse quadro social torna-se mais elucidativo no poema O inferno perto de nós, onde o poeta constrói uma alegoria imagética cujo cenário é um hospital de Angola:

Uma cama dois doentes,
Por favor uma cama dois doentes…

O poeta não se esquece das suas influências. Com efeito, intertextualiza Agostinho Neto, no poema Vem, poeta, vem, por sinal dedicado ao poeta- maior.
Portanto, este intertexto nos remete ao invocacionismo de figuras históricas, como Madica, no poema X, da segunda parte. Esse desiderato ocorre em Verbo à Angolana, da obra Adobe Vermelho da Terra, em que enuncia Jack Rumba, Luís Cafrique, Assis Jr. Paixao Franco, Viriato da Cruz, dentre outros, o que pressupõe a relação mística – eu-tu – representatividade dos antepassados, da comunidade, das forças sobrenaturais.
Em Os AUSENTES, para além de nos recordar a comunidade vital, constituída pelos vivos e mortos, na cultura tradicional bantu, o poeta dá-nos uma lição de vida, uma vez que, ao referenciar os ausentes, o faz pondo em antagonismo com a realidade social dos presentes: os ausentes continuam a alimentar-se muito melhor que os presentes – diz o poeta. Continuando, os ausentes ainda governam e insistimos em chamar-lhes Mortos. Este apelo caracteriza os ensinamentos absorvidos dos seus ancestrais, já que o bantu – como o é António Gonçalves – tem consciência da relação íntima e de dependência dos antepassados, o que demonstra uma linha identitária e respeito pela ancestralidade, pois, a morte não passa de um ritual de passagem.
Na verdade, o poeta encontrou, em Sobre Asas e Fios de Rosa, novas imagens e metáforas voltadas para o interior humano, numa procura de politização de sentimentos e de amizade, como diria a estudiosa brasileira Carmen Lúcia Tindó Seco em A Kinda e A Misanga. Assim, o poeta faz dos seus poemas lugares de novas memórias, pelas quais repensa o quotidiano da sociedade, reflectindo sobre a persistência das tradições, a timidez das mudanças sociais e as novas formas pecaminosas das relações amicais dos nossos dias – parafraseando a estudiosa Seco. A poesia de António Gonçalves põe em cena, a grosso modo e de forma alegórica, o universo doloroso existente no mosaico doentio do actual contexto angolano: Quando amanheceu a chuva fugiu mas os destroços estavam lá! A chuva fugiu quando amanheceu mas os destroços estavam lá!
A poética de António Gonçalves representa o compromisso com a palavra, sendo um exercício metapoético, uma das tendências da actualidade poética angolana também presente, por exemplo, na poética do célebre Ruy Duarte de Carvalho.
Ao perpassar pelos versos desta obra, o leitor encontrará, sem dúvidas, os trilhos cartográficos da sociedade angolana, recriadas em laivos memoriais com os quais se lê o atrofiado quotidiano angolano mimetizado em Sobre Asas e Fios de Rosa.
Em consequência, o poeta dá-nos uma dupla lição cultural: recorda-nos a figura do griot, hoje circunscrita no Beiral e, ao mesmo tempo, demonstra-nos a sua sabedoria acumulada pelo meio século de experiências diegéticas, contanto que, na construção do texto literário, a convivência constitui uma das balizas fundamentais para a recriação do real em construção – como diria Aristóteles na sua Poética.

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