"Estórias para bem ouvir"

Envie este artigo por email

Fragata de Morais conta

O livro "ESTÓRIAS PARA BEM OUVIR", de Fragata de Morais, sendo uma nova criação, projecta para a contemporaneidade elementos essenciais de culturas matriciais angolanas, aquelas que em larga medida constituem-se como elementos fundamentais que dão corpo e sentido à angolanidade, matérias que são para nós sempre gratificantes de abordar.
Constituindo-se como novos textos, novas criações literárias, partindo das literaturas tradicionais do universo que se expressa nas línguas kimbundo e umbundo, “ESTÓRIAS PARA BEM OUVIR” vem dar corpo à ideia já expressa por Henrique Guerra, quando afirmava em Três Histórias Populares: “A reinvenção da tradição literária dos povos africanos de Angola – ORATURA – é sem dúvida um dos vectores de desenvolvimento da moderna literatura angolense, em busca constante de uma identificação e personalidade cultural. (…)”
Põe-se amiúde a hipótese de a Literatura Tradicional poder ser aproveitada para a criação de uma Literatura Infantil Angolense. (…) . É uma literatura de tipo pragmático, visando incutir nos sus consumidores um estado de predisposição que os leve a encontrar respostas de actuação prática contra as agressões do meio físico e social que as envolve.
Finalidade conseguida sem recorrência a um tom didáctico formal, em jeito de diversão; eis um elemento aproveitável para a literatura infantil, o de ensinar recreando, o de moldar espíritos através da actividade lúdica; e ainda outro aspecto, a superação do real através do mítico, num jogo que a criança entende e aceita.”Porém, acrescentamos nós, tratando-se de textos destinados a um público- auditório indiferenciado, pois qualquer um de nós, nestes textos poderá encontrar respostas para os problemas de que as sociedades contemporâneos, e a nossa em particular padece.

Valor estético
A propósito desta temática, importa dizer que temos para nós que os textos orais possuem frequentemente um elevado valor estético e que por eles se perpetua toda a vida das comunidades em que se desenvolvem; que as verdades que contêm, os comportamentos que condenam e as condutas que propõem, frequentemente possuem um carácter universal e que por eles se procede a toda uma formação intelectual e se desenvolve o raciocínio lógico e o espírito crítico e ainda que apresentando-se privilegiadamente tais textos em espaços colectivos como os jangos, em círculos da vida social e comunitária portanto, constituem-se como elementos importantes da socialização do indivíduo e como factores que favorecem a coesão social. Por outro lado, temos para nós que, apresentando-se a literatura oral nas línguas nacionais ou na língua portuguesa, com as suas naturais interferências, constitui um elemento particular de identidade cultural, de preservação das línguas nacionais e de enriquecimento do universo simbólico e do imaginário da língua portuguesa.
Temos por isso que, numa altura em que, como dizíamos, se busca o resgate dos valores morais e cívicos, a recuperação de textos da literatura oral para a escrita, tal como o Fragata nos propõe através desta obra, seria um caminho a seguir. Aliás, grandes referências da literatura mundial a esse percurso não foram alheios e, a literatura infantil em particular, encontrou na literatura oral a fonte daquelas que são as referências mundiais neste domínio, como é o caso da obra de Hans Cristian Anderson. Aliás, importaria a propósito acrescentar que, tal como disse Arlindo Barbeitos a propósito, “ a realidade é que as formas referidas encerram muitas vezes vários dos géneros que a literatura escrita contém”. Porém, se é justamente esse um dos argumentos de valor aqui trazidos pelo nosso autor à obra, ele, Fragata de Morais, ultrapassa “ a versão oral inicial que o hábito ou o mestre consagraram” dando novo brilho e luz às palavras, ao mesmo tempo que enquanto recupera as mensagens para os dias de hoje, ultrapassa pela prosa-poética estilos e formas anteriores algumas experimentadas nos anos oitenta entre nós.  
Importa dizer que, quanto a nós, esses anos constituem o período áureo da literatura infantil angolana que foi marcado pela recuperação e recriação de textos tradicionais, processo que apresentando nos nosso dias um tendência minguante, é aqui rompido eloquentemente, com leveza e mestria pelo Fragata de Morais que, nesta obra de grafismo e, ou, ilustração matizada por elementos próprios da nossa cultura, e que assim vem dar corpo ao que se expressa na Politica Angolana do Livro e da Leitura, nomeadamente desenvolver linhas editoriais que culturalmente correspondam à nossa cultura e ao nosso imaginário. Como dizia, o autor Fragata de Morais ao recuperar para o livro presente os nossos próprios objectos que proporcionam maravilhas, como o kalubungu, do kimbundu, os nossos próprios seres e entes mitológicos, como o ekixikixi por exemplo, vem romper com a persistência na literatura de coisas que nos são alheios como sejam os elementos comuníssimos no lendário europeu como sejam a varinha de condão, os cavaleiros andantes, as fadas fascinantes e boas e por aí adiante, teimosamente entre nós usadas por alguns autores.  

Fonte de inspiração
Para lá do que foi dito, acrescento que “Estórias para bem Ouvir”, começando pelo título, reitera a necessidade de bem ouvir as normas de conduta consideradas virtudes e as práticas condenadas como defeitos, o que sem dúvida, é um dos “problemas que estamos com eles”, e para cuja solução, se literariamente faladas e melhor ouvidas, poderá este livro ser uma para o trabalho futuro. Quaisquer um dos contos quer integram este livro do Fragata de Morais, “ João Grande e João Pequeno, o Elefante e a Rã, a Menina Preguiçosa, o Pássaro Malvado, o Azar, o Leão e o Lobo” que percorreram o tempo, aqui numa narrativa-poética, simples e bela, perpassados por elementos culturais das comunidades de que emergiram as formas orais iniciais dos textos em que o autor se baseou para a sua hábil escrita, de ensinar sem forçar, numa acessível a todos os ouvidos e a todas as mentes, em nosso entender, ao terem sido escritas como o foram para esta obra, ganharam um lugar garantido na história da Literatura e, em particular, na história da literatura infantil angolana.
Finalmente, devo dizer que mau grado a discussão que a forma de grafar um ou outro termo originário das línguas nacionais usado poderá suscitar,remetendo-nos uma vez mais para a maka do acordo ortográfico, maka com k é claro, matéria em que kotas e kandengues, sem fundamentalismos chegaremos a um entendimento, kota com k, é claro, porque com c, aqui ainda significa apenas “nível de terreno”, não obstante isso, em nada, em absolutamente nada a obra sai prejudicada, porquanto a linguagem coloquial, o percurso que nos leva a percorrer a alma popular de que se alimenta o nosso imaginário, o tempo de ontem e de hoje, num jogo lúdico entre tema-espaço e gente, tendo como recurso uma narrativa-poética das palavras, assim justamente o impõe.

António Fonseca

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos