Etnografia, Antropologia e Literatura Africana

Envie este artigo por email

É comum o reconhecimento da importância da obra de J. Clifford, The Predicament of Culture , no âmbito da discussão de etnografia(s), autoridade textual, modalidades de representação.

Etnografia, Antropologia e Literatura Africana
Etnografia, Antropologia e Literatura Africana

De acordo com este autor, a Cultura sempre exige predicamento e é por isso resistente aos sinais de instabilidade presentes na representação das suas práticas. Aceitando esta premissa, estaremos a aceitar também, como o próprio autor sugere, a impossibilidade de “modernizar” tais práticas culturais e os terrenos de observação em si mesmos. A contingência de modernizar uma hermenêutica da experiência etnográfica estará então, naturalmente, também em discussão.
A Etnografia, como tem sido sugerido em muitas circunstâncias, constituiu até há relativamente pouco tempo um território epistemológico marginal que subitamente se tornou central. Isto tem como consequência que a interpretação e a recepção do trabalho etnográfico ganharam terreno diferenciado e mostram hoje resistência à autoridade absoluta do etnógrafo e, em grande medida, à legitimidade dos textos produzidos em contexto de observação localizada.
No limite, a resistência a tais práticas e o fascínio por revisões discipli¬nares desta natureza, podem ser vistos como novos meios de discutir o papel da ficção enquanto prática de representação cultural. Tal hipótese pode legitimar igualmente a defesa do potencial transdisciplinar da Etnografia, dado que esta área de estudos se encontra bem colocada hoje para ser agente de uma abordagem cultural proteana, pela sua mobilidade funcional e expressiva. Em consequência, teríamos a criação e renovação de um número importante de instrumentos práticos susceptíveis de domesticar os muitos conflitos na produção cultural e sua disseminação.
A Etnografia pode constituir-se por isso ao mesmo tempo como um “fornecedor” e um “receptor” activo da Antropologia e da Literatura. O que Clifford considera “resistência à modernidade” deve de facto ler-se como um excesso de modernidade que gera anti-modernidade e que, por essa via, permite produzir significados novos e dinâmicos, com uma rotação permanente de protagonistas e de relatores das experiências de terreno.
As práticas textuais que derivam deste pressuposto resultam numa diversidade de objectos de escrita que permitem que esta discussão seja tratada no terreno da diversidade ficcional extrema e de trocas culturais complexas porque auto e hetero-subjectivas.
Em Routes, Clifford defende que movimento e modernidade estão irrever¬sivelmente ligados. É fácil aceitar esta afirmação, ainda mais hoje que as migrações e os muitos modos de reformatar as comunidades tal como as conhecemos são assuntos de grande premência política e social. Ele admite que em The Predicament of Culture estava preocupado com a propensão do conceito de cultura “[...] to assert holism and aesthetic form, its tendency to privilege value, hierarchy, and historical continuity in notions of common “life”” Esta procura de uma forma holística de entender a Cultura, e desde logo de lhe reconhecer o potencial de uma modalização histórica da existência comum, teve como recurso privilegiado a representação etnográfica. Tal representação apresentou-se ao autor como um meio de trazer o problema da diversidade cultural para o centro da discussão sobre significado e diferença.
Clifford está de certa maneira a lutar com um problema que é muito difícil de resolver. A Etnografia não é a solução geral que transporta o antídoto para a leitura dinâmica de todos os mundos em contenção, mas pode, ainda assim, fornecer os instrumentos que nos faltam para apropriarmos terrenos negociáveis e para identificarmos sinais activos de mudança social, histórica e cultural. A Etnografia pode ainda apropriar parcialmente a Antropologia e a Literatura porque tem a vantagem de um estatuto empírico. Testa as suas formas operativas em todos os momentos e está aberta a fazer o mesmo com a teoria.
A Etnografia tem também do seu lado o facto de ter ocupado um espaço que outras disciplinas declinaram. É através das práticas etnográficas então que os significados culturais podem ser construídos e reconstituídos, e nesse sentido reportam-se a tudo o que é relevante em termos de mobilidades. Se aceitarmos a correspondência entre esta ideia e a de crise de representações, tão comum na leitura dos mundos contemporâneos, temos a principal justificação para aceitarmos as práticas etnográficas como a única forma de fornecer a identifi¬cação de formas instáveis, bem como de identificar as suas consequências epistemológicas.
Aquele autor lembra a noção de centros culturais como uma forma de redefinir a condição humana depois dos contactos: a cultura será aquilo que resta depois dos contactos e das diferentes formas de territorialização. Termos co-relacionados seriam por isso “centros culturais” e “regiões discretas [discreet regions]”. Relembrando ainda a sua obra The predicament of culture ao referir-se aos Índios Mashpee, Clifford evoca o facto de as ocasiões de mobilidade de um grupo ou daqueles que circulam em volta dele (e que justificam a relação com complexos conjuntos de agentes), estarem profundamente enraizadas na vida tribal e, desde logo, nas suas formas particulares de expressão.
Isto significaria que tal conjunto de caracteres reais seria então seme¬lhante a situações e personagens de ficção, o que sugere até um certo ponto uma leitura da experiência cultural como resultado de múltiplas formas de de-localização. Por outro lado, obriga-nos a evitar uma leitura essencialista da cultura e a aceitar que esta actua sobre a realidade ao mesmo tempo que a lê e impregna de elementos de uma dinâmica de movimento contínuo, tanto individual como colectiva. Se aplicarmos esta possibilidade às culturas e litera¬turas africanas, teremos que considerar uma significativa multiplicidade de resultados.
A matriz de mudanças territoriais e simbólicas – displacement(s) – deve ser encontrada em primeira instância na história de mobilidades forçadas através da guerra ou das perseguições políticas. As culturas que enfrentaram directamente guerras civis e coloniais e, ou, guerras de fronteira, estão mais obviamente expostas a uma fragilização das suas formas de resistência e de afirmação cultural autónoma.
Os exilados são neste contexto um grupo de grande importância. Muitos intelectuais e políticos foram enviados, desde o começo da colonização, de Portugal para diferentes partes de África. Um número significativo de Africanos e de Afro-portugueses foram forçados também para fora das colónias. (A Argélia, nomeadamente, tornou-se um importante destino durante este período de resistência e muitas narrativas foram escritas a partir daí, elegendo o país como lugar privilegiado de transição e espera). Vastas percentagens de população sofreram desenraizamentos profundos durante os vários ciclos de guerra; o impacto destes movimentos forçados ainda se fazem sentir hoje.
Se todas as narrativas tratam, em alguma medida, de problemas de deslocalização cultural, as narrativas pós-coloniais traduzem igualmente expe¬riências baseadas em diferentes formas de nativismo. Pensando em condições macro e micro económicas, rituais sociais ou problemas de natureza ética, podemos compreender as formas de organização na sua instabilidade: “[…] historical routes which both constrain and empower movements across borders and between cultures. It is concerned with diverse practices of crossing, tactics of translation, experiences of double, or multiple attachments.” A multiplicidade da experiência deve então ser vista pela complexa lente de formas em trânsito, impregnadas de história, de transumâncias linguísticas e de rituais em/de viagem.
Isto supõe a definição de culturas como híbridos que então se tornam estratégias para entrar e sair “[…] out of modernity, accounts, and ethno¬graphies of out-of-the-way place and a space on the side of the road”. Laterais, na sua colocação, a toda a definição centralizada de cultura, as novas etnogra¬fias respondem, por via de formas provisórias de «marginalidade», à descrição possível dos mundos contemporâneos.
Embora J. Clifford discuta a prática etnográfica como uma prática de viagem e como uma política de hibridismo, faz contrastar esta asserção com o signo da ambivalência, um termo recuperado de Bhabha, e que este autor retoma no seu texto escrito para A urgência da teoria: “A ansiedade do período contemporâneo, na minha opinião, faz com que ganhemos uma clara consciên¬cia de que a ambivalência é um princípio estruturante da nossa existência afectiva e política, da ambivalência como um “valor” central na experiência pública e privada da vida dos cidadãos.”
Os escritores africanos que se interessaram por contar estórias por dentro da História, sempre escreveram narrativas provisórias e ambivalentes porque sujeitas ao escrutínio de múltipla ressonância nas comunidades de recepção. Por outro lado, sempre aspiraram a escrever em nome de uma voz colectiva e a serem reconhecidos como a voz colectiva.
De facto, a sociedade marxista pós-colonial, ao tornar-se o sistema pós-colonial, embora contraditória em muitas instâncias com o vernáculo, permitiu a inscrição de múltiplas vozes, sob a imagem homogénea de comunidade. Esta hipótese, em nosso entender, facilitou a produção de instrumentos necessários à identificação colectiva com o espaço memorial. Os intelectuais conceberam a sua participação sociopolítica e cultural através dessa aspiração. A mimetização do Outro colectivo foi explorada extensivamente através do seu trabalho.
Que histórias estamos a contar e a ler hoje? Pode o mercado liberal dar testemunho delas? A ansiedade da legitimidade é uma das mais representativas consequências ideológicas em sociedades que passaram por variados graus de ajustamento à pós-colonialidade.
Através de obras como Yaka, de Pepetela, e O Manequim e o Piano, de Manuel Rui, podemos entender os limites destas transições.
Manuel Rui é um dos escritores que pode ser lido como o epítome da transição. Ele lançou o debate acerca do discurso pós-colonial e o reconhe¬cimento público desta evidência veio logo em 1981 com Quem me Dera Ser Onda, desta vez através de um retorno aos espectros da subalternidade, termo que deve ser entendido dentro do quadro proposto por Spivak. Enquanto muitos fizeram do subúrbio o lugar principal para todas as experiências de transição, ele centrou-se numa leitura urbana de todas as contingências identificáveis do sistema.
Outro escritor que mostra uma abordagem semelhante é Arnaldo Santos. A sua obra recente é, em nosso entender, uma mostra interessante da transição para um discurso heteroglóssico. Este autor não parece preocupado em dar a voz ao vernáculo tal como se configurava e interpretava em tempos pré-coloniais. As suas novelas são na verdade a combinação de um conjunto de leituras que permitem a intersecção de múltiplos textos, religiosos, políticos, contemporâneos, arquivísticos. Não estamos a discutir aqui vozes narrativas apenas, mas antes formas de textualização que se apoiam em vocalizações múltiplas. Cada conjunto de vozes produz significados autónomos susceptíveis de interpretação diferenciada:
Acabava mesmo de ser criado o Partido das Grandes Bênçãos. O Partido da União pela Luz e Desenvolvimento perfilava-se junto de outros com a mesma natureza sobrenatural. Não era de bom augúrio o surgimento de tantas vocações nebulosas. Depois das armas, de que de uma ou doutra maneira quase todos tinham sempre feito uso, só lhes restava as da religião. E essas quando mal usadas provocavam desastres apocalípticos.
- O que vale é que sempre podemos nos valer dos nossos quimbandas...! – atalhou Docas.
- O quê? Os nossos quimbandas…?! Kalita ignora se ele fala a sério ou a brincar, e estranha a alusão.
- ...então eles também não pertencem a uma religião...A religião animista bantu...Dá para equilibrar... .
Um importante pormenor acerca de Arnaldo Santos é que o seu trabalho não é uma simples recuperação das chamadas narrativas orais, histórias tradicionais, ou de expressões religiosas ancestrais. É mais uma forma de escrever cultura da perspectiva do viajante nacional. O mesmo acontece em A Boneca de Quilengues , na maior parte das obras de Pepetela e Luandino Vieira, ou em a História de Angola , que são textos reescritos em nome de histórias localizadas que têm algum tipo de ressonância com as muitas fontes da expe¬riência e de testemunhos empíricos, ainda que em boa medida fragmentários.
Na verdade, A casa velha das margens , também de Arnaldo Santos, não é verdadeiramente uma narrativa histórica, mas reclama um extenso número de factos que são recuperados da história colonial e angolana. Trata-se de uma novela que usa sujeitos históricos (vejam-se o rei Ndunduma e Cordeiro da Matta, por exemplo) como objectos de uma mitografia que circula nos interstí¬cios da contemporaneidade angolana.
Destacamos o facto de estas personagens serem todas sombras em movimento, cruzando diferentes níveis de realidade e transformando-os em histórias e estórias que se intersectam.
Esta comunicação plural é de certa forma irónica, ou pelo menos introduz um modo irónico de percepção de contexto, conteúdos e factos. Em grande medida, a realidade angolana ajustou-se à ideia de que os seus escritores escrevem a História e, assim sendo, a leitura do seu passado pode ser lida do lado de um processo negociado de hiper-metaforizações.
A Etnografia, enquanto metáfora de uma epistemologia de-centrada, é sempre ficção, embora a ficção nem sempre seja etnográfica. Esta é precisa¬mente uma das razões por que a Literatura necessita da Etnografia. Onde podemos encontrar a alegação central que valide esta afirmação? Em múltiplos narradores, em autoridades em tensão, em diferenças retóricas, na “explosão” de personagens. Estamos assim a falar de narrativas que afloram os muitos lados de diferentes personae e da sua construção. Estas narrativas estão de facto a substituir o mundo, tal como o conhecemos, sem comprometerem os muitos fios e redes de voz e a manipulação criativa que nos são familiares.
De que forma pode cada cultura ser lida antes e depois de cada novo gesto etnográfico? Talvez a ficção seja de facto sobretudo um gesto com consequências e fontes heteroglóssicas e proteanas. O que é importante é, talvez, não redefinir a relação entre Literatura e Antropologia através da perspectiva exclusiva da ficção, mas antes vê-la numa dimensão mais ampla. Não chega dizer que a Antropologia nas suas configurações no terreno e na sua regulação das práticas de leitura faz o mesmo que a Literatura, mas antes ver de que forma ambos os campos supõem preocupações semelhantes do ponto de vista da autoria (leia-se autoridade) e da recepção.
O pluralismo suposto em todas as práticas poiéticas está ligado à natureza de um processo descontínuo de identificação cultural. O reconhecimento da individualidade e da personhood é de certa forma difícil de diferenciar nessa abordagem.
A obra de Suleiman Cassamo, por exemplo, permite uma leitura aproxi¬mada desta hipótese. Este escritor moçambicano trouxe para a literatura africana uma perspectiva que pode ser ligada ao que alguns escritores angolanos estavam a escrever desde os anos 40, através da localização linguística da narrativa em português. Assim como Uanhenga Xitu escreve numa forma bilingue, Cassamo escreve multiculturalmente. (Temos consciência dos perigos de uso deste termo, mas queremos aqui acentuar que a sua escrita reflecte formas de culturalismo que acabam por ser etnografias de proximi¬dade). Os casos de personagens como Ngilina e Laurinda, ou da mãe, no conto “O Regresso do Morto”, são bons exemplos de uma narração através de múltiplos focos na leitura simultânea de exclusão social e afirmação individual.
Estão as diferentes formas de interpretar a auto-identidade ligadas à cultura e suas práticas? Clifford aceita a ideia de que de certo modo somos sempre inautênticos, se presos entre culturas implicadas em e com outros.
Os difererentes ajustamentos aqui pressupostos levam a particularidades de sistemas combinados que reagem uns aos outros e que definem cada um nessa medida. Para Clifford parece claro aceitar que todos nós, etnógrafos, escritores, informantes, e os textos resultantes da nossa actividade, constitui¬mos e constituem produtos activos de cultura. Poderíamos dizer que todos somos sujeitos culturais e objectos culturais. As opções que fazemos neste sentido particular determinam estratégias de diferenciação no terreno e implicam modalizações particulares de práticas de troca.
As modalidades literárias nos relatos etnográficos necessitam ser lidas do lado da produção e também sob as múltiplas condições que apoiam uma com¬plexa rede de corpos textuais.
Tem-se discutido a dimensão da autoridade do etnógrafo e o escopo do retrato do outro observado, mas este questionamento parece menos importante do que o impacto retórico e a agenda que é posta em movimento e que ajuda a monitorizar os novos significados criados a partir dos lugares de observação. Isto é apenas válido na medida em que tais práticas tendem a ser vistas como transformacionais dos dois lados.
É importante referir que, ao olharmos para a literatura pós-colonial em África, aquilo que vemos são na verdade autores que transportam diferentes graus de exposição pública sob o regime colonial e que se relacionam com o novo sistema de acordo com formas de identificação, também de exposição em tudo diferenciada. Ainda assim, necessitam ser entendidos sob um paradigma que muda apenas na medida em que permite ao sistema sobreviver e ficar activamente envolvido nas políticas colectivas.
Há sempre um território comum que enquadra o trabalho individual ou, pelo menos, as suas representações. A exposição a uma herança de signos tran¬sumantes e de grupos em trânsito, é em verdade recurso central para todos eles.
Aquilo que os torna distintivos é também a natureza específica de tal herança: tal como Ruy Duarte, cuja opção é sobretudo viajar com os seus informantes, visitá-los. Ele constrói desta forma a mais inventiva metáfora das mobilidades pós-coloniais: a procura de um locus de observação que não é invasivo e que se relaciona de forma dinâmica com os círculos de documentação e de recepção. Ele pede a todos os que o lêem o que aplica a si próprio: discrição e conectividade. Estes são meios de comunicar com os outros; de partir de contactos individuais para modos de aplicação da sabedoria dessa forma (re)criada:
Finalmente o Hamuhapwa chegou, e com ele numerosa comitiva de homens adultos, mulheres novas e velhas e crianças manifestamente em trânsito, pela bagagem que transportavam. Sentámo-nos a uma sombra e fui-lhe dizendo, secundado pelo Kakriolo, que ali estava para me instalar a seu lado, como tinha ficado combinado. Antes que o Hamuhapwa me respondesse elevou-se a surdina de uma conversa entre os seus acompanhantes que o meu interlocutor deixou correr até as falas assumirem o tom de uma conclusão e então fez-me lembrar que essa combina tinha sido feita em Abril, no fim das chuvas, quando estava tudo verde, e que agora era Dezembro, com tudo seco e muita fome, era um tempo de andar só a mudar os animais para ver se evitavam que morressem, de forma alguma era altura para acolher um Branco, [...] Contra-argumentei que só queria era ficar ao pé, acompanhá-lo nessas suas andanças e mudanças mas sem interferir. [...] Mas nem ele nem a assembleia estavam a perceber o que é que de facto eu queria (estaria eu?) [...].
Esta passagem combina a negociação de experiências de fronteira, de rituais de tradução, e a justificação da presença do observador. Mostra como as relações de poder podem ser expostas através de diferentes leituras da auto¬ridade e das práticas críticas inclusivas.
Nada disto, poderíamos dizer, é uma sobreposição específica de tradições. É algo que de facto existiu em todas as épocas. Os créditos para mostrar tal amplitude de interacções humanas podem ser atribuídos à Antropologia na sua forma escolar moderna, tanto quanto à Etnografia que, através da combinação das suas naturezas arquivística e performativa, origina complexas formas de conceptualização enquanto se envolve na mediação activa de diferentes entida¬des autorais e seus produtos.
Falamos aqui de práticas baseadas em recolecções conjuntas de informa¬ção ligadas a rituais que envolvem uma grande quantidade de pessoas em simultâneo. Isto pode levar a uma Voz polifónica por parte do etnógrafo, e a um Ouvido polifónico do lado do observado. De forma semelhante ao que Clifford fez ao observar ao longo do tempo os Índios Mashpee em tribunal, na sua defesa do direito à terra, Ruy Duarte propõe um exercício de continuidade e múltiplas revisitações ao território Kuvale e os seus livros mostram de facto a opção por um trabalho intratextual. De certo modo as suas obras são todas uma só (vejam-se por exemplo as referências transtextuais em Vou lá visitar pastores, Os Papéis do Inglês e as paisagens propícias ), o que também traz para o centro o papel do seu compagnon de route, Paulino. Paulino era um mediador que suportava uma estratégia pré-negociada de proximidade e que favorecia a familiaridade e os laços entre todos os obser¬vados.
Enquanto a descontinuidade é uma abordagem muito comum na repre¬sentação etnográfica colonial, a narrativa pós-colonial tenta escrever de uma perspectiva polifónica (ou talvez pretenda ser ouvida dessa perspectiva). Estamos a lidar aqui com algum tipo de ansiedade que expõe a dificuldade de representação do observado de uma forma pluralizada e que resulta em muitas modalidades diferentes de ligação ao grupo. O problema da leitura deve também ser considerado: a reinterpretação de histórias contestadas está no centro da sua obra como está no centro da de Clifford.
Tal como no caso Mashpee, as culturas africanas estiveram por muito tempo expostas à presença europeia, através da língua, de mudanças nos rituais e nas práticas socio-culturais; as respectivas comunidades mudaram dramati¬camente e têm agora novas fronteiras, os significados em circulação também foram, na mesma medida, transformados.
Na sua edição Antropologia e Literatura, Benson faz uma leitura destas questões, nomeadamente da importância do auto-exame no trabalho etnográ¬fico, que ele considera ter sido sujeito a demasiada teorização nos anos 80. Defende que não existem relatos objectivos e os domínios pessoal e literário estão imersos em todos os recontos e narrativas. Não queremos discutir aqui os muitos significados de relatos realistas ou objectivos tal como ele os refere, mas certamente concordamos com a ideia de que o observador é tão influenciado pelo mundo de que fala quanto o observado. Muitas destas interpretações não estão sob o controle do cientista e isso enfraquece a sua posição de outsider. Pode facilitar de facto a transmissão de asserções e idealizações equívocas.
Para Benson, independentemente do que acontece no decorrer de múlti¬plos contactos, todos os envolvidos estão expostos a essas interacções e todos participam na escrita e leitura dos textos produzidos sob tais condições.
Tal como ele diz: “Whatever we learn about field methodology pales by comparison with the knowledge they have acquired by experience with anthro¬pologists.” . O Nós e o Eles destacam-se no seu texto como importantes metá¬foras para a distância que ele coloca em tais práticas representacionais. Signi¬ficados distantes e sujeitos distantes juntam-se para sublinhar a incompletude inevitável de tais conexões e a sua impossibilidade holística.
Por outro lado, em Tales of the field – on writing ethnography , J. Van Maannen chama a nossa atenção para um assunto que reputamos muito importante: que os fieldworkers tendem a representar-se a si mesmos como “marginal natives” (este termo é recuperado de Freilich, 1970).
Ele sugere que em termos performativos esta hipótese coloca o etnógrafo muito próximo de um estatuto de exilado. “Since it often arrives at the place of study without much of an introduction and knowing few people, if any.”
Embora isto tenha sido profusamente referido como um meio muito espe¬cífico de o etnógrafo se relacionar no terreno de observação, tem também o potencial de um cliché. Poderíamos dizer que todos os que actuam no terreno estão comprometidos com a antecipação de resultados e constroem um horizon¬te de expectativas que não é necessariamente do interesse da comunidade observada, ao mesmo tempo que não garante ao etnógrafo resultados de efecti¬va validação.
Ainda assim, no seu papel de relator/escritor, o etnógrafo manipula as escolhas estilísticas, a planificação narrativa e o agenciamento autoral, colocan¬do em movimento uma semântica e uma retórica de signos privados. Estes constituem a forma por que o escritor acaba sendo aquele que dá conta da actividade do outro e que tem a última palavra acerca da localização final de textos culturais observados e anotados.
Diferentes estilos e géneros são regulados pelo praticante individual, mas sempre geram escrutínio colectivo, regional e nacional. São, neste aspecto, corpos textuais que retornam. Tal como as instituições puxam tais relatos para dentro ou fora do cânone, a representação da nação está obviamente exposta.
J. Van Maannen diz: “Ethnographies sit between two worlds or systems of meaning: the world of the ethnographer and the world of cultural members. Ethnographies are documents that pose questions at the margins between two cultures.” Poderíamos acrescentar que, de facto, as etnografias se posicionam entre mais do que dois sistemas. As realidades africanas, por exemplo, estão implicadas numa complexa rede de sistemas que operam fora de relações binárias. Se observarmos a comunidade Kikongo, por exemplo, será necessário considerar não apenas os seus micro-padrões observáveis mas também a macroestrutura que está relacionada com a História do Congo e com as suas muitas transfigurações nas histórias colonial e pós-colonial, tal como as narra¬tivas que cruzam manifestações linguísticas, religiosas, simbólicas, sociais.
Neste sentido, as fronteiras são da maior importância, dado que se rela¬cionam com modos de mobilidade que estão ligados de perto a representações localizadas.
Clifford Geertz diz que há três tipos fundamentais de estórias que podem ajudar a considerar o assunto da representação ficcional; realist tales (com um foco em descrições da cultura estudada), confessional tales (centram-se no etnógrafo), impressionist tales (vistas como “personalized accounts of fleeting moments of fieldwork cast in dramatic form” , modalidades dramatizadas da expressão de contactos culturais). Considera também outros tipos de estórias etnográficas: critical, formal, literary and jointly-told, que vê como “residual categories”, quase etnografias.
Quando Geertz usa o termo tales acentua, intencionalmente ou não, a dimensão ficcional da escrita inspirada no trabalho de terreno. Embora negando que isto vem com a assunção imediata de que a Etnografia é ficção, Geertz acaba propondo um modelo que suporta quadros narrativos literários típicos. De facto, declara uma hiperbolização de tal possibilidade, usando o termo tales, que vemos como uma forma derrogatória da ciência implicada potencialmente nestas narrativas.
Descrevendo a posição de Becker acerca do mesmo problema, mas acentuando o aparato semiótico que é colocado em acção quando o investigador individual enfrenta as diferentes comunidades e as práticas institucionalizadas, Geertz diz em Local Knowledge :
Becker sees four main orders of semiotic connection in a social text for his new philologist to investigate: the relation of its parts to one another; the relation of it to others culturally or historically associated with it; the relation of it to those who in some sense construct it; and the relation of it to realities conceived as lying outside of it. Certainly there are others – its relation to its material, for one; and, more certainly yet, even these raise profound methodological issues so far only hesitantly addressed. “Coherence”, inter-textuality”, “intention”, and “reference”– which are what Becker’s four relations more or less come down to- all become most elusive notions when one leaves the paragraph or page for the act or institution. […] How far this sort of analysis can go beyond such specifically expressive matters as puppetry, and what adjustments it will have to make in doing so, is, of course, quite unclear.
Coerência, intertextualidade, intenção e referência são apontadas neste caso como as modalidades necessárias à configuração semiótica de «textos sociais», e à sua resistência à imitação.
Muito apropriadamente, Krupat pergunta-se em Ethnocriticism : “which epistemological activity does a better job at telling the truth?” Todas e nenhu¬ma, poderia ser a resposta. Decidimo-nos por uma resposta provisória a um problema que se baseia na interpretação de territorialidades móveis e na sua validação contingente.

Ana Maria  Martinho Gale
FCSH/CHAAM - Universidade Nova de Lisboa


Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos