Eugénio de Andrade, Solano Trindade e Viriato da Cruz

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Revisitando a fé menina no feminino 1. Quando nos predispusemos a fazer uma visita guiada à fé menina no feminino, estávamos, antes de mais, a olhar para um campo comparativo, em que três poetas dialogam em português pelo oceano atlântico.

Refiro-me a Eugénio de Andrade (1923-2005), Solano Trindade (1908-1974) e Viriato da Cruz (1928-1973), nomeadamente um poeta português, um brasileiro e um angolano.

Para cada um dos autores elegemos um poema que julgamos corresponder aos objetivos do trabalho, nomeadamente "Procuro-te" (Andrade, 1968, p.p 92-93), "Canto à amada" (Trindade, 2008a, p. 101) e "Namoro" (Jacinto, 1976, p.p 140-141).

Portanto, o comparativismo literário não é visitado como simples ato de "comparar", mas por ser o método por excelência. No nosso caso, o comparatismo refletirá uma visão voltada não apenas para o individual, mas para o universal, tendo em apreciação os ambientes culturais que cada um dos autores representa, designadamente Europa, América (do Sul) e África.

A comprovar isso estão os primeiros versos dos poemas selecionados dos autores também selecionados:
"Procuro a ternura súbita," [Eugénio de Andrade] "Eu tenho uns versos bonitos" [Solando Trindade] "Mandei-lhe uma carta em papel perfumado" [Viriato da Cruz]

Na análise aos três poemas, é notório que a recorrência à primeira pessoa do singular, logo a partida, faz do individual um coletivo a partir da leitura que cada leitor universal vier a fazer. O "Eu" individual passa a ser "nós" universal. Ou seja, somos nós que procuramos, os versos bonitos são nossos e a carta em papel perfumado é enviada por nós.

Essa relação vista logo na ponta do iceberg dos poemas, tem a sua razão de ser. Foi, no fundo, o que me animou a fazer a leitura, que a seguir proponho, estando exatamente na relação que os três poemas dos autores referenciados convocam no seu conteúdo. Na relação entre as temáticas desses três poemas, há como que uma cadeia que inicia na procura da mulher ideal, passa pelo encontrar e na dedicação de um canto em sua honra e culmina com um sôfrego pedido de namoro.

No entanto, há aqui uma certeza nessa cadeia: o ser amado, embora identificado, é simbólico e imaginário, e a sua fisionomia é comparada a elementos naturais que servem para visualizar e visionar a grandeza da mulher. Daí a ideia de "fé menina" simbolizar uma inocente crença por um ser eminentemente ideal.

O poema "Procuro-te" abre com um conjunto de versos a estabelecer os contrastes entre o possível e o não possível, segue por uma estrofe mais poética e menos lógica, em que o emocional se destaca, copula com uma outra estrofe mais real e lógica, com a razão muito presente simbolizada pelo mês de Maio, período quente, de calor e ardência no amor.

Numa outra estrofe, o eu-lírico privilegia a sensatez, a busca do equilíbrio, da compreensão e da manifestação de afeto, demonstrando a seguir, no grupo de versos seguintes, a sua incapacidade natural de doar-se totalmente para o amor. Nesse caso, a expressão "Ter só dedos e dentes é muito triste" pode simbolizar a ideia de que os dentes, enquanto guardiães do interior, e os dedos, como indício de responsabilidade natural do ser, estabelecem a relação entre a razão e a emoção, uma alusão a ideia de dias longos.

Finalmente, o "Antes que a morte se aproxime, procuro-te." anuncia o princípio de continuidade da vida para fins confessos "Nas ruas, nos barcos, na cama,/ com amor, com ódio, ao sol, à chuva,/ de noite, de dia, triste, alegre procuro-te.," testemunha a essência da vida conjugal segundo a qual deve-se persistir em busca da costela oferecida para que o homem se torne completo.

Com "Canto à amada", o poeta entoa a voz do real para descrever a visão masculina da mulher amada que está "sempre sempre desdobrada/ em beleza e formosura". Como apaixonado, o eu-lírico demonstra a obstinação ao encontrar em cada rosto ou objeto, a silhueta da amada. Na verdade, vê a amada no meio da imensidão, do universal, e na voz e ouvido de outrem, preenchendo todo o seu-eu, porque "sempre está no meu amor".

Na última quadra do poema, o autor enclausura o conteúdo que, tal como no "Procuro-te", cria a sensação de um campo magnético que chama a si todo o sentido de beleza da mulher amada, criando balizas poeticamente possíveis para descrever a beleza, "sempre sempre desdobrada/ em beleza e formosura".

O poema "Namoro" é bem mais direto na abordagem da temática, embora parecido ao "Procuro-te" na irregularidade da estrutura estrófica e mesmo na métrica. Há uma história de declaração de amor, de conquista, de pedido de namoro, em que o sujeito se socorre de vários "truques" para atingir um fim que nos dois poemas anteriores não foram alcançados, principalmente porque o platonismo do amor estava mais próximo de uma lírica provençal do que da lírica do classicismo.

Sem pretendermos forçar uma analogia com a criação do mundo, a conquista se reparte em sete estrofes ­ para tal contagem excluímos o refrão ­, em que cada uma poderá corresponder a um dia da semana.

Logo no primeiro agrupamento de versos, primeiro dia portanto, há a revelação do romantismo, do galanteio masculino a descrever a beleza feminina "como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas/ espalhando diamantes na fímbria do mar e dando calor ao sumo das mangas."

A estratégia de conquista continua numa investida indireta na segunda estrofe, ganhando o pendor religioso, com um sujeito "pedindo rogando de joelhos no chão/ pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,/ me desse a ventura do seu namoro...", uma investida que se revela infrutífera porque "(...) ela disse que não."

O desespero do sujeito vai aumentando e, na terceira estrofe, o obscuro e a tradição africana são chamados na pele da "avó Chica, quimbanda de fama", esperando que ela fosse capaz de fazer "um feitiço forte e seguro/ que nela nascesse um amor como o meu...". Ainda assim, "(...) o feitiço falhou.".

No quinto dia, ou quinta estrofe, o sujeito inicia a investida direta. Prepara- se para abordar a mulher amada "à porta da fábrica,", procurando conquistá-la através de bens materiais, pelo romantismo, "e ela disse que não."

O sexto dia é o do desespero total; da descrença. O sujeito anda sujo e descalço. O seu caso não passa despercebido na comunidade.
As pessoas envolvem-se, levam-no ao baile, um momento e local de convívio comunitário, isso já no sétimo dia, ou sétima estrofe, a da gloria:
Poder-se-á questionar sobre se realmente não terá sido a pressa a não

Tocaram uma rumba dancei com ela e num passo maluco voamos na sala qual uma estrela riscando o céu! E a malta gritou: "Aí Benjamim!" Olhei-a nos olhos - sorriu para mim pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Permitir que as estratégias utilizadas tivessem sucesso, ou se tudo antes tenha sido um fracasso. Entendido como uma instituição que valoriza o sentimento recíproco entre duas pessoas, o pedido de namoro só acabou correspondido quando houve a envolvência e apoio da comunidade.

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