Faces da prosa narrativa angolana

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Antes de tudo, é importante lembrar que a literatura escrita em Angola remonta a 1849, com a publicação, em Luanda, do primeiro livro impresso na África subsariana, intitulado Espontaneidades da Minha Alma.

Faces da prosa narrativa angolana
Faces da prosa narrativa angolana

Às Senhoras Africanas, poemas do angolano José da Silva Maia Ferreira.
Concernente à Prosa Narrativa literária, a primeira foi uma novela de Alfredo Troni, de 1882, intitulada Nga Mutúri, em que o autor narra a odisseia
duma viúva, um pretexto para relativizar a coabitação de duas culturas díspares, a europeia e a africana, sem o estabelecimento de hierarquias.
Entretanto, alguns críticos preferem referir que o primeiro romance tipicamente angolano é O Segredo da Morta (romance de costumes angolenses),
de António de Assis Júnior, publicado em folhetins em 1929, no jornal A vanguarda de Luanda. Trata-se de história de uma mulher que, mesmo estando morta, ressurge para se vingar.
Para se perceber a razão de se indicar O segredo da morta como iniciador da literatura tipicamente angolana, devemos tavlez citar Maria Santilli ao referir que a obra surge num período de vazio literário e a sua “aparição no cenário literário angolano acaba também por estabelecer uma ponte entre duas gerações de escritores preocupados com a revitalização da literatura angolana, cada uma delas devidamente representadas por Cordeiro da Mata e, posteriormente, Castro Soromenho.
Não é demais sublinhar que o surgimento da imprensa em Angola, a 13 de Setembro de 1845, criada sob responsabilidade do então Governador-Geral Pedro Alexandrino da Cunha, que, logo após assumir o cargo, ordenou a criação de um boletim ligado à administração portuguesa, é um marco importantíssimo para aquilo que viria a ser o desenvolvimento da literatura angolana.
Na época (século XIX), Angola chegou a ter cerca de 60 jornais, sendo que muitos desses privilegiavam a denúncia de injustiças sociais existentes no continente africano, fudamentalmente as ligadas às discriminações raciais.
Por outro lado, a imprensa livre também serviu de promotor e divulgador da produção literária, tanto em prosa quanto em versos. Nesse cenário, surge pouco depois Castro Soromenho com Nhári. O drama da gente negra (1938) e Terra Morta (1949), autor da “Trilogia de Camaxilo”, composta pelos romances Terra Morta (1949), Viragem (1957) e A Chaga (1970).

A vida do angolense
Em comum nas três histórias, designadamente a de Alfredo Troni, a de António de Assis Júnior e a de Castro Soromenho, cujos referentes retratam o período colonial, os personagens mostram o folclore e um mundo exótico, mas indicam uma forma de olhar a cultura dos povos indígenas contrariando a visão do colonizador/leitor pertencentes à universalidade abstracta (público concreto que o escritor procura captar), sendo que o negro, ou negra, passa de personagem secundária a protagonista principal do enredo. Portanto, todos esses autores terão bebido da oralidade e privilegiado o folclore, por meio de contos, lendas, mitos, ritos e mesmo das cosmogonias dos povos de Angola. Aliás, como o próprio António de Assis Júnior refere em O segredo da morta, “este livro é para ser lido por todos aqueles (…) que mais decididamente se interessam pelo conhecimento das coisas da terra. – A vida do angolense que a civilização totalmente não obliterou”.
Essa tendência não é, entrentanto, nova pois já Joaquim Dias Cordeiro da Matta (1857-1894), o chamado “pai da literatura angolana”, fazia recorrência à literatura e filosofia oral para marcar a sua posição literária em prol duma literatura pátria. Foi assim com Philosophia Popular em Provérbios Angolenses, publicado em 1891. Também José de Fontes Pereira (1823-1891), um dos precursores e fonte inspiracional das gerações de fins do século XIX e da primeira metade do século XX, lidera um processo de autonomia da literatura angolana, ao ser um prosador defensor dos bons costumes e da cultura, aproveitando a imprensa para denunciar, nos seus textos, o tráfico negreiro de angolanos enviados para as plantações em São Tomé e Príncipe, ou ainda a discriminação racial.
Os escritores do início da segunda metade do século XX se revelam mais profícuos e começa em pleno uma Prosa Narrativa angolana, fundamentalmente devido à influência estéticoideológica do movimento «Vamos descobrir Angola!» (1948), do «Movimento dos Novos Intelectuais de Angola » (1951-1952 e 1957-1961), da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa (1948-1954) e outras publicações, designadamente no interior de Angola, nos territórios das hoje províncias da Huíla, Huambo e Benguela.
Nesse período surgem nomes que se destacam, como o de Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Henrique Abranches, Mário António, Arnaldo Santos, José Luandino Vieira, Timóteo Ulika, Manuel dos Santos Lima, Ruy Duarte de Carvalho, Manuel Rui, Fragata de Morais, Pepetela, Jacques Arlindo dos Santos, Boaventura Cardoso, José Mena Abrantes, Domingos Van-Dúnem e Uanhenga Xitu.
Para se internar na técnica e modelo literário dessa geração, é também necessário olhar-se as convulsões da época, nomeadamente: a) o modernismo brasileiro, que proclamava a brasilidade, a partir fundamentalmente da Semana da Arte Moderna, em 1922; b) os reflexos culturais e literários da Negritude, de René Maran, Aimé Césaire e Léopold Sédar Senhhor, que exaltavam a raça negra e o reconhecimento das raízes africanas nos finais da primeira metade do século XX; c) e o neorrealismo português, que promulgava o advento de uma consciência contra a ideologia do poder dominante, optando por temáticas sociais e políticas do contexto da época. Todos esses três momentos recuperam alguns elementos comuns, como a contestação e a recusa dos modelos anteriores e a busca de maior liberdade temática, técnica ou de linguagem com o intuito de provocar a desalienação do leitor.

“Vamos Descobrir Angola”
Portanto, a contestação de temáticas, técnicas e modelos ortodoxos também é assumida pelo movimento Vamos Descobrir Angola, na década de 40 do século XX, em que nomes como o de Viriato da Cruz, Mário António, António Jacinto, Augusto dos Santos Abranches e Agostinho Neto se sobrepõem na ideia generalizada de fazer uma literatura muito ao modo de ser e de estar do colonizado.
Esses intelectuais angolanos chegaram a questionar os modelos literários utilizados pelo colonizador, privilegiando novos modelos assentes nas vivências do angolano, pois tinham como maior propósito contribuir para a criação de uma literatura que falasse
de Angola e dos angolanos.
O compromisso da Geração desses “descobridores” de “angolanizar” a literatura, levou os escritores a resgatar formas e valores da oralidade, nos quais descobrem um modo de lutar contra o discurso do opressor, afirmando a descolonização literária. Entretanto, essa ideia de angolanizar Angola passava pela necessidade de se projectar, na literatura, temáticas ligadas ao angolano, às gentes que culturalmente simbolizavam Angola. Por isso é que em muitos aspectos, o movimento Vamos Descobrir Angola se assemelha ao da Semanada de Arte Moderna, que aconteceu em São Paulo, Brasil, em Fevereiro de 1922.

Se no Brasil os intelectuais procuravam a renovação de linguagem, a busca de experimentação, a liberdade criadora da ruptura com o passado, em Angola os jovens não fizeram diferente ao definirem a necessidade de se desviarem da estrutura formal da literatura colonial, procurando uma produção literária dirigida ao povo através do senso estético, inteligência e razão africanas.

Intranacionalismo literário

Na verdade, tanto o movimento Vamos Descobrir Angola quanto a Semana de Arte Moderna defenderam o nascimento de novas ideias de fazer literatura assentes na busca de uma identidade própria e de uma maneira mais livre de expressão, aquilo que aqui designamos por intranacionalismo literário. Por exemplo, Agostinho Neto, no seu conto Náusea, opta por introduzir o mar como símbolo de desgraça, sofrimento, morte, uma clara alusão ao ponto de entrada do colonizador e de saída dos navios negreiros para um
fim sem retorno.
Henrique Abranches, em A Konkhava de Feti, socorre-se de materiais das tradições orais dos povos do sudoeste de Angola.
Luandino Vieira, com A cidade e a Infância, torna-se cúmplice da transgressão linguística, como recurso à denúncia das contradições sociais e raciais na sociedade colonial, em que o areal e o asfalto simbolizam exactamente o estatuto do negro de um lado e o do branco, do outro.
O recentemente falecido Uanhenga Xitu, com a obra Manana, promove a incorporação de elementos da tradição oral e sinais claros da oralidade no foco que procura dar no choque do conceito prático de constituição da família entre o tradicional e o moderno – ocidental.
A confirmar essa tendência esta uma afirmação feita por Costa Andrade “Ndunduma”, um escritor muito importante nesse processo de busca do eu intranacional.
Conforme Ndunduma: “A construção da identidade nacional passa pela dessacralização da língua portuguesa.
Meta perseguida também pelos angolanos que operacionalizam essa dessacralização, “maculando” a língua da metrópole, fundindo-a com o Kimbundu, desarticulando a sua sintaxe, introduzindo neologismos, no mesmo caminho portanto do “como falamos”,
“como somos”, proposto por Oswaldo de Andrade.”
Permitam-me referir que Costa Andrade, ou Ndunduma We Lépi, viveu algum tempo na Itália na década de 60 do século XX. E sobre essa vivência, diz Costa Andrade numa entrevista conduzida por Michel Laban:

“O período italiano foi muito importante.
Na Itália tive a oportunidade de ler mais, de conhecer mais, de estudar mais literatura, pintura, arte, etc., de contactar e conviver com gente que foi profundamente solidária – não só comigo, pessoalmente, mas com a luta de libertação de Angola. Havia estudantes, intelectuais, artistas, escultores, pintores… E, através deles, os homens do porto de Génova. Tive também a oportunidade de ir aos encontros de poesia de Pádua, onde conheci desde Umberto Saba, Eugénio Montale, Giusepe Ungareti, Morandi, Ziveri, Luigi Nono, o escritor e advogado Emílio Lona, de Torino. Entrei em contacto com os Quaderni Piacentini através do Gofredo Foffi. Vivi em casa de Ada Gobetti, em Torino, combatente heróica da Resistência Italiana e, através dela, conheci pessoalmente o ministro que mais tarde veio a ser Presidente da República, Giuseppe Saragat.”
Talvez daí tenha vindo o livro de poemas Tempo angolano em Itália, um importante instrumento de estudo dessa relação entre povos, da presença de eminentes figuras italianas no processo de luta de libertação de Angola e a sua contribuição ou influências na literatura angolana.

Responsabilidades do Intelectual Negro
No seguimento do sentido revolucionário, ou se quisermos de inovação estético-ideológica, realça-se nesses movimentos a tendência do envolvimento do intelectual na denúncia das injustiças sociais e da discriminação racial.
Já patente nos seus ensaios e poemas, o toque do movimento negritudinista é notável em Viriato da Cruz, um dos mais influentes e incentivadores do movimento cultural angolano.
Incentivado por Frantz Fanon, ao dissertar sobre Racismo e cultura, no 2º Congresso de Escritores e Artistas Negros, realizado em Roma entre 26 de Março e 1 de Abril de 1959, Viriato da Cruz falou sobre Responsabilidades do Intelectual Negro, destacando a necessidade de haver um maior envolvimento dos intelectuais na salvaguarda dos direitos dos negros, ciente de que o trabalho literário aproximaria ainda mais os intelectuais em prol da circulação dos seus textos literários, inclusive os de cunho político-ideológico.
Na transição geracional e de contextos, as mudanças são evidentes. E isso pode ser observado em Pepetela, autor de transição entre os dois períodos históricos de Angola, nomeadamente o antes e o depois da independência.
No livro As aventuras de Ngunga apresenta uma inquietação com a construção de identidades colectivas em prol duma nação independente. Já em Geração da Utopia, reconfigura a desilusão de uma geração de nacionalistas (a sua?) perante o rumo do país recentemente independente.
Ou seja, nos prosadores se observa a preocupação com o modo de vida do angolano que, por algum tempo, se temporizou entre duas realidades, a sociedade colonial europeia e a sociedade africana; os seus escritos são, por isso, os resultados dessa tensão existente entre os dois mundos, um com escritos na nascente da realidade dialética, o outro com traços de ruptura.
E, nesse plano, há a destacar a Prosa Narrativa de E. Bonavena, João Melo, Paula Tavares, José Luís Mendonça, Eduardo Bettencourt Pinto, João Tala, Luís Kandjimbo, António Fonseca, José Eduardo Agualusa, Luís Fernando, Carmo Neto, João Miranda, Ismael Mateus, Marta Santos, Roderick Nehone, Isaquiel Cori, Albino Carlos, Ondjaki, Gociante Patissa, Zetho Cunha Gonçalves, Jacinto de Lemos, Sousa Jamba, Tazuari Keita e Frederico Ningi.
Quase todos eles vanguardistas ou conservadores de um realismo muito comprometido com as questões existenciais e sociais das esperanças e deseperanças do período pós-independência.
A tendência de revolução está mais no campo estético e na vida da sociedade rural e suburbana na inovação do modelo de vida urbana, sendo que o inverso também é verdadeiro.
É o caso de Carmo Neto, com o livro Degravata. O conto que dá título à obra é uma revisita da adolescência (período colonial) e emerge um recuo melancólico onde os nossos heróis, de carne e osso, gingavam aos nossos olhos com eloquência e paixão, escrevendo sem querer uma história perpendicular à nossa própria história.
No caso de O último recuo, de Isaquiel Cori, somos conduzidos ao récem-terminado conflito armado. O autor cria a amargura no coração do leitor, mas oferece um projecto que poderá trazer mudanças. Portanto, os factos sociais narrados demonstram que a consciência colectiva anula a consciência individual e se contrapõe à consciência de classe.
Com Nambuangongo e Hebo, João Miranda revitaliza a presença da história recente de Angola, embora neles não haja implicitamente a pretensão de se fazer ou narrar história. O próprio autor procura manipular os lugares e nomes para fugir do rumo que a narração presa à história de Angola iria obrigatoriamente conduzir.
Luís Fernando, com Clandestinos do Paraíso, marca o quotidiano mais recente e, com humor, acciona as emoções assentes num dia-a-dia corrompido pela ausência da moral e pelos desafios do querer sobreviver, contra o viver.
Roderick Nehone, com Uma bóia na tormenta, traz para a prosa narrativa a tragédia e a comédia do quotidiano e o seu lado absurdo e caricato.

CONCLUSÃO
Claro que essas descrições e classificações nunca poderão ser concensuais, muito menos finais, nem sequer obedeceram a uma hierarquia piramidal.
Há muitas temáticas, estilos ou modelos de outros autores que poderiam ser aqui referidos que, por esquecimento meu, pela sua pouca produção, por ter os textos ainda em gaveta, por o tempo nunca ser suficiente ou outras razões que a razão desconhece, não os citei aqui.
Entretanto, é recorrente na prosa narrativa angolana presenciar-se experiências e imagens de tradição e modernidade, dor e amor, a denúncia de clivagens e variações no funcionamento da língua portuguesa em Angola a coabitarem com frequência.
Se nos iniciadores da literatura houve uma preocupação colectiva de contestar e recusar modelos com o DNA do colonizador, além da busca de maior liberdade temática, técnica ou de linguagem com o intuito de provocar a desalienação do leitor, nesses prosadores duma geração que fez a travessia entre a crença no pós-independência e as desilusões agudizadas pelo longo conflito armado que dilacerou o país; da literatura militante à desregulação sócio-estética do hoje, há neles a predomináncia de cinco referentes de eleição, nomeadamente:
• Guerra e seu impacto na consciência colectiva;
• Amores e ódios nos seus mais amplos sentidos, entre seres humanos, entre casais, entre amigos;
• Caricaturização da ficcionada sociedade angolana, fundamentalmente a ruralização do mundo urbano e a urbanização cultural das sociedades rurais;
• Valorização e/ou recuperação de ritos, mitos, em prol da tradição e memória culturais dos povos de Angola;
• E diversidade de recursos estilísticos, destacando-se a linguagem à angolana, em que os registos procuram adequar-se ao espaço físico e social das personagens.
Finalmente, o exercício de introspecção do prosador angolano, na sua essência revestido de engajamento social, se revela como uma incessante busca do eu intranacional.
Consciente ou inconsciente, ele espera contribuir para a formação do eu Nacional.

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