Formação académica para o desenvolvimento de Angola

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O sistema de ensino-aprendizagem é uma premissa incontornável para a formação do cidadão actuante no desenvolvimento do seu país.
Entre nós, este sistema tem revelado uma fraca preparação de uma enorme franja de estudantes que frequenta os primeiros anos do ensino universitário. Esta impreparação é notória em vários domínios, com realce para a dificuldade no entendimento dos conteúdos programáticos ministrados, face ao ritmo de explanação do professor;na revelação tanto da falta de hábito e método de estudo como de interesse pelas matérias ministradas; é verificável ainda na ausência de perspectivas de futuro profissional.
Todavia, as fraquezas reveladas por estudantes do pré e universitário serão, apenas, “a ponta de um iceberg” cuja natureza convém contextualizar.

Formação académica para o desenvolvimento de Angola
Alunos com meios modernos

Efectivamente, a constatação é generalizada: devido à inexistência de concurso público há sensivelmente três anos, verifica-se uma “gritante” escassez de docentes na maioria das províncias nacionais.
Os directores de Educação do Cuando-Cubango e do Moxico confirmam o “grande esforço” que o Governo está a empreender para a criação de infra-estruturas escolares; porém, esta dinâmica de construção não está a ser acompanhada da correspondente contratação de professores, ou seja, as crianças são trazidas para o sistema de ensino – uma das finalidades da reforma educativa -, mas encontram nas escolas insuficiência de docentes.
Esta situação tem obrigado a que muitos agentes da educação da província do Moxico – directores, professores e pessoal administrativo – sejam nomeados para o ensino.
Também no Cuando Cubango, a impreparação dos estudantes pré-universitários é expectável se prestarmos atenção ao contexto social em que muitas crianças, adolescentes e jovens vivem, conforme se pode deduzir do apontamento de Nicolau Vasco, a partir da aldeia de Olupale:

«Abandono escolar em alta
O director da única escola, Fausto Sacundino, disse que a falta de água é uma das causas de abandono escolar. As crianças deixam de estudar para ajudarem os pais na transumância do gado para Savate, junto às margens do rio Cubango, onde chegam a permanecer cerca de cinco meses.
O professor disse que o alto grau de absentismo também é provocado pelas longas distâncias entre a escola e os diferentes aglomerados populacionais, que estão muito afastados uns dos outros, um problema que o Governo tem de resolver com as autoridades tradicionais, no sentido de se definir um novo padrão de vidas destas comunidades.
No presente ano lectivo, foram matriculados 517 alunos do ensino primário e no primeiro ciclo. Mais de metade já abandonou as aulas por falta de condições para prosseguirem os estudos.
Lineke Ndumani, 13 anos, mantém-se na escola. Vive a 15 quilómetros e participa com regularidade nas aulas. A adolescente vem todos os dias à escola na companhia dos dois irmãos. Utilizam o burro oferecido pelo pai como meio de transporte. Tal como Lineke, muitos outros petizes utilizam este animal como meio de transporte e só persistem na escola aqueles que têm grande vontade de aprender e espírito de sacrifício. O facto de cada família constituir o principal sobado contribui para o atraso escolar. Alguns dos habitantes nem sequer falam português.»
Nas províncias da Lunda-Sul e do Namibe, a falta de formadores está a ser atenuada pela solidariedade de cidadãos letrados e de estudantes do Magistério e da Escola de Formação de Quadros, que trabalham voluntaria e gratuitamente.
No Bié, à carência de professores acrescentam-se outras duas preocupações: a falta de formação pedagógica de docentes e o reduzido número de escolas, o que origina que 60.000 crianças permaneçam fora do sistema de ensino e acima de 200.000 estudem em condições desadequadas: «Há meninos a estudar ao ar livre, em salas improvisadas de chapas, em varandas de casas emprestadas, em baixo de árvores e, como chove durante nove meses ao ano, tantas outras estudam debaixo da chuva.»
A estatística provisória da Direcção de Educação de Benguela revela que o panorama é semelhante: acima de sessenta mil crianças sem estabelecimentos de ensino. Neste município e no do Lobito constata-se a existência de mais de um milhar de turmas a funcionarem debaixo de árvores, e de discentes que frequentam o ensino em salas provisórias, como infantários, igrejas, etc.
Na Lunda-Norte, são verificáveis dificuldades análogas: «Para não aumentar o número de crianças fora do sistema, não só são colocadas em capelas, mas também em quartéis das Forças Armadas Angolanas.»
Os directores de Educação do Bengo e do Cunene acreditam que os autênticos “calvários” experienciam-no nas suas províncias. Além do insuficiente número de professores, constituem sua preocupação as causas seguintes:
- A maioria dos docentes que aqui lecciona apenas possui a 6ª classe de escolaridade, uma vez que não «não tiveram a possibilidade de sair (das zonas rurais) para continuar a formação»;
- A contingência de muitas famílias terem a sua base de sustentação em carvoeiras e na agricultura, condu-las ao nomadismo: «Quando isso acontece, levam consigo as famílias e as crianças em idade escolar, que são forçadas a abandonar a escola.»
No Cunene, especificamente, a Direcção de Educação pondera a formação de turmas itinerantes, visto que, para além da itinerância dos agregados familiares, muitos coabitam nos grupos étnicos khoisan e vatwa, afastados uns dos outros, dificultando a arregimentação das crianças para o sistema de ensino secular.
Na nossa província de nascimento – Uíge -, além da dificuldade desse recrutamento, vive-se o drama do desajustamento nas categorias salariais dos professores e do retardamento da liquidação do subsídio aos alfabetizadores.
A província capital do país alberga cerca de 2.000.000 de alunos, distribuídos por 749 estabelecimentos de ensino públicos, seiscentos e dez colégios e 1.252 escolas comparticipadas. Conta com a colaboração de trinta e cinco mil funcionários, dos quais 29.000 são docentes. Apesar destes números, considera-se que o quantitativo de agentes da educação não é suficiente, havendo a necessidade de se recrutarem 5.000 formadores.
Diante do panorama educacional acabado de descrever, há um desabafo que não se consegue conter:
- Como é que os nossos alunos não hão-de chegar ao ensino universitário mal preparados?
Deste estado, resultam as consequências seguintes:
- Os docentes confrontam-se com a imprescindibilidade de rever requisitos científicos que era suposto serem dominados pelos candidatos ao ensino superior, o que provoca o atraso na implementação do programa a ministrar.
- Impedimento, por parte das Faculdades, de gizarem – para os primeiros anos - um plano curricular com conteúdos programáticos mais ambiciosos, como seria o estudo comparado de literaturas africanas de expressão portuguesa nos cursos de Direito e de Relações Internacionais, em que leccionamos.
- Muitos alunos inscrevem-se em cursos que não correspondem à sua vocação natural, mas, estrategicamente, para fugirem a outros para os quais reconhecem não estarem preparados, com se verifica com as matrículas em Relações Internacionais, para fugirem aos cursos cuja disciplina nuclear é a Matemática!
Esta verdade vem provocando, na sala, a seguinte situação caricata: nos momentos em que estamos a sensibilizar os alunos para a necessidade de aprimorarem as competências da escrita e da oralidade, uma vez que, após a licenciatura,irão trabalhar nas áreas da Diplomacia ou de Relações Públicas, sentimos que estamos a pregar no deserto, pois uma grande fatia dos discentes presentes na aula não faz a mínima intenção de seguir essas vertentes profissionais!
- Neste tipo de disciplinas, em que o formador deve contribuir para o desenvolvimento da proficiência oral dos formandos, os docentes experienciam o seguinte dilema tétrico:num período de tempo tão reduzido, como melhorar o desempenho oral de quem não domina a competência da escrita?¬¬
- Nos primeiros anos universitários, vem sendo comum verificar alunos saltarem de curso em curso à procura de assentarem em algum onde se sintam confortáveis, de acordo com o grau de impreparação que acarretam do seu passado estudantil.
Quanto custará aos seus progenitores, de forma directa, e ao erário, de modo indirecto, esse atraso?
São inúmeras as causas da fraca preparação de muitos dos nossos alunos. Sem pretendermos generalizar, elencamos as seguintes:
- O ensino de base tem estado refém do passado recente do nosso país em que a guerra civil provocou a migração de populações, a deterioração do parque escolar e afugentou os quadros de ensino de qualidade.
Estes motivos redundaram, respectivamente, na desestruturação do tecido familiar, deixando os encarregados de educação sem disponibilidade para assegurar (ou acompanhar) a formação escolar dos educandos; na ausência, por exemplo, de bibliotecas em algumas escolas; no parco nível de conhecimentos de alguns professores, o que vai aligeirando a transição de classe escolar de muitos dos nossos adolescentes.
- Menor empenho da classe estudantil, viciada na fruição das potencialidades de entretenimento disponibilizadas pela Tecnologias de Informação e Comunicação, através de equipamentos top de gama e da internet. Acrescente-se a propensão da juventude para a pretensão do gozo rápidoe facilitado dos prazeres da vida, como vem sucedendo com a frequência da vida nocturna e ingestão de bebidas alcoólicas precoces.
- Professores que leccionam sem vocação, fazendo do ensino a actividade profissional de recurso, enquanto não conseguem o emprego desejado na área para a qual se habilitaram, o que provocao seu absentismo às aulas.
- Falta de sensibilidade de muitos docentes para o acompanhamento personalizado dos alunos e para a adaptação de estratégias de ensino ao ritmo diferenciado de aprendizagem dos mesmos, a fim de incentivá-los ao estudo.
Como consequência imediata, os jovens chegam ao ensino superior com lacunas de vária ordem, como as seguintes:
- Na componente da escrita, inépcia na produção de textos com coerência e coesão: escrituração com abundantes erros de ortografia, de sintaxe e de semântica, por exiguidade de léxico.
- Na vertente da interpretação textual, muitas dificuldades de compreensão de textos para análise e dasquestões constantes das provas escritas.
- Na competência da oralidade, muitas debilidades na exposição de ideias próprias de forma clara e concisa, revelando falta de adestramento em cálculo mental e de vocabulário condizente com o nível superior de ensino em que já se encontram.
Mário  Araújo
(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

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