Formação académica: Premissa fundamental para o desenvolvimento de Angola

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3. O COMBOIO DO ENSINO SUPERIOR
Neste esteira, assemelhemos as instituições de ensino superior a um comboio dos Caminhos de Ferro de Luanda cujas carruagens são assim dispostas: a viagem na primeira, de maior conforto, custa 500 akz; um bilhete para as carruagens intermédias, de conforto inferior, 200 akz; viajar nas últimas carruagens, de qualidade reduzida, custa 30 akz. Os cidadãos fazem o percurso ferroviário na carruagem condizente com a sua capacidade financeira.

Formação académica
Feira de estudantes

Com a caminhada universitária verifica-se o mesmo; cedo os caloiros vão revelando a sua postura académica: a maioria apresenta-se refém da sua incapacidade cognitiva, sem nada fazerem para ultrapassá-la, preferindo passear os livros (quando os adquirem!), as roupas de marca, os aparelhos de comunicação sofisticados e... os penteados!, encetando, por isso, o percurso académico nas carruagens de qualidade reduzida; deste grupo, afasta-se um número considerável de alunos que, dando conta das suas debilidades científicas, esforça-se por debelá-las quer por meio da assiduidade às aulas, quer através de grupos de estudo, viajando, assim, nas carruagens do meio da locomotiva; por fim, um número reduzido de estudantes demonstra estar na instituição para aprender mesmo e não apenas para passar!, evidenciando concomitantemente estrutura familiar sólida, iniciando a carreira académica na carruagem de maior conforto, com todo o mérito.
Reparemos que a impreparação científica da maioria dos nossos jovens sendo grave, não tem de, necessariamente, ser fatal! O que importa é que o aluno tome consciência das suas dificuldades e realize um percurso académico sério para as colmatar, transitando – como resultado do trabalho concertado – para as carruagens do meio do comboio e terminando a viagem universitária na carruagem de maior qualidade!
No que concerne ao fim do percurso académico, concluamos que os alunos que terminam o último ano do curso nas carruagens de 30 akz chumbam; os que finalizam a licenciatura nas carruagens de 200 akz pertencem ao leque de recém-licenciados que enfrentam dificuldades na obtenção do primeiro emprego e, finalmente, os que concluem o itinerário universitário na carruagem de 500 akz são aqueles que vão para o estrangeiro fazer especializações, trazendo de lá óptimas classificações!
Quanto ao número exíguo deste tipo de recém-licenciados, congratula-nos observar que, na nossa sociedade, vários são os sectores em que estes excelentes alunos brilham profissionalmente. A título de exemplo, registamos as áreas do Ensino e da Justiça em que perfilam, respectivamente, bons recém-docentes, procuradores e juízes.
Aumentar o número de estudantes que concluem a peregrinação ferroviária na primeira carruagem é o desafio – aliciante! – que a comunidade educativa urge vencer, para devolvermos à sociedade os jovens que ela nos confia - ainda imberbes! - e que evoluem para bons executantes profissionais, nos mais diversificados sectores sociais!
Evidentemente, o aluno não empreende a viagem universitária sózinho, mas ancorado na instituição que escolheu. Então, o grau de conhecimentos que for amealhando, principalmente o que ostentar no fim da jornada universitária, dependerá também da qualidade de ensino disponibilizada por esse estabelecimento de ensino.
Neste pressuposto, as 62 instituições de ensino superior (universidades e institutos públicos e privados) a operar no nosso país têm de afinar os seus programas curriculares e laboratoriais pelo diapasão da excelência. A médio prazo, os candidatos ao ensino superior escolherão – e muitos dos actuais 230.000 estudantes universitários trocarão a escola que frequentam por - universidades que, comprovadamente, oferecem essa qualidade de ensino, pois a concorrência no mercado de trabalho é cada vez mais feroz! Nesta linha de raciocínio, estamos convencidos de que as instituições de ensino superior que não derem o salto qualitativo imprescindível encerrarão as portas!
Mas vamos recebendo ressonâncias de esperança de que, num futuro próximo, o nível de formação académica dos nossos jovens se elevará, como é dedutível dos acontecimentos a seguir narrados.
Comecemos por reconhecer que Angola tem investido no sistema educativo mais do que a média das nações da África Subsaariana! Efectivamente, o Executivo vem investindo não apenas na elevação de conhecimentos da juventude, mas também na exponenciação de saberes das comunidades populares donde ela é oriunda.
Para dar corpo a esse projecto, a Secretaria de Estado das Tecnologias de Informação levou a efeito o Curso de Bibliotecários que decorreu, durante 14 semanas (terminou em Março último), na Unidade Técnica de Gestão da Rede de Mediatecas de Angola, ministrado pelo Instituto de Formação Científica e Tecnológica de Cuba, no qual obtiveram aproveitamento 30 jovens que passaram a integrar a rede nacional de bibliotecários, prestando serviço na Mediateca do Município do Cazenga.
No âmbito desta rede, já foram criadas mediatecas em vários municípios do país com o objectivo de potenciar a formação nas comunidades, o que tem favorecido a procura de saber por parte do público e dos estudantes, em particular, uma vez que estes pólos vêm substituindo as tradicionais bibliotecas, sendo providos de novas tecnologias de comunicação, de armazenamento e de consulta de dados.
É de salientar que qualquer projecto para incremento dos conhecimentos dos cidadãos só tem êxito se os mesmos tiverem motivação para a aprendizagem. Ora, esta variável é ainda mais acertada na camada estudantil. Nesta medida, deve ser injectada na população universitária estratégias motivacionais que a entusiasme para um percurso académico de qualidade.
Neste domínio, afiguram-se-nos motivantes programas do género do Intercâmbio Profissional e Educativo, que decorreu entre 7 a 28 de Março, nos Estados Unidos da América, do qual participaram jovens africanos; dentre estes, 15 angolanos de diversas províncias, através da Embaixada daquele país, em Luanda.
Anualmente, os EUA promovem este certame internacional com a finalidade de os jovens partilharem, durante três semanas, experiências nas diversas áreas do conhecimento e encetarem parcerias com académicos e profissionais americanos.
Daqui se infere o senso comum de que a função de administrar a sociedade cabe ao Governo e que esta não evolui sem educação. Acontece, porém, que, para essa administração, o Executivo tem em conta quer as linhas orientadoras dos organismos internacionais que integra, quer as iniciativas privadas da sociedade civil.
É neste domínio que se enquadra o Plano Estratégico de Cooperação Multilateral 2015/2020, aprovado na Reunião Extraordinária dos Ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que decorreu em Dili, no dia 17Abr15. Este documento comunitário baseia-se em oito parâmetros, donde se destacam a elaboração de um Portal da Educação e do Sistema Integrado de Estatísticas, o aperfeiçoamento da eficácia dos sistemas educativos e o acesso à educação e instrução.
Sumariamente, o Plano tem os objectivos seguintes: a massificação do ensino primário; o aumento do número de adolescentes com acesso ao ensino secundário; a promoção do ensino técnico profissional; o fortalecimento da dialéctica entre educação, formação e emprego e, finalmente, o recrudescimento da aprendizagem ao longo da vida.
A esperança de que estes objectivos serão alcançados deduz-se do relatório denominado “Exame Nacional 2015 da Educação Para Todos: Angola” que o Ministério da Educação apresentou, em Maio, no Fórum Mundial sobre a Educação, na Coreia do Sul, onde realça que os programas de educação se enquadram no Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), tendente à valorização dos recursos humanos nacionais.
Deste documento depreende-se que a valorização do capital humano baseia-se na alfabetização e escolarização das populações, fundamentais para o progresso sustentável do país.
Repare-se que, entre os vestígios do actual sucesso educativo, sobressaem a massiva expansão de estudantes no ensino pré-universitário, o incremento da taxa bruta de escolarização, o aumento de salas de aulas, do número de adolescentes matriculados e de docentes, bem como o aumento percentual das bolsas de estudo internas e externas.
Para a prossecução do êxito educacional também têm contribuído os acordos rubricados entre o Ministério do Ensino Superior e os governos provinciais para a extensão do ensino universitário às províncias do interior, assegurando-se igualmente a pluralidade de cursos.
Notemos bem que a formação integra do indivíduo não é tarefa exclusiva do Executivo. Pelo contrário, todos nós, cidadãos pró-activos, temos o dever de colaborar civicamente para a promoção do homem novo, capaz de assegurar os desígnios da nação.
Nesta senda, sublinhamos o esforço desenvolvido pelo Sindicato Nacional dos Professores e Trabalhadores do Ensino Não Universitário que visa não só inventariar as dificuldades apresentadas pelos docentes, enviando-as para o Ministério da Educação, como também sensibilizá-los para o conhecimento da legislação pela qual são avaliados, tendo em vista a melhoria do desempenho, em ordem à sua promoção e renovação contratual.
A educação entendida, assim, como uma missão colectiva, leva-nos a recuperar a máxima do ex-estadista norte-americano, John F. Kennedy: «Não pergunte o que o seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país.»
Por isso, todo o cidadão, no meio social em que está inserido, deve dar uma ajudinha ao esforço que o Executivo Angolano tem empreendido para inverter a realidade da fraca formação dos jovens – como são disso exemplos o incentivo à qualidade dos professores, por meio de acções de formação; o reforço na alfabetização de jovens e adultos e a erradicação do trabalho infantil, através da extensão da rede escolar.
Neste contexto, os cidadãos devem acompanhar atenta e assiduamente a actividade escolar dos filhos: uma pergunta diária pode fazer a diferença!; integrar associações civis que realizem acções de formação gratuitas para a população e/ou doar os livros escolares que os educandos já não usam às igrejas e bibliotecas públicas, e os estudantes devem caminhar conjuntamente, reforçando o estudo em grupo intra ou extra-muros escolares – para citar apenas alguns exemplos de participação cívica.
Só cumprindo este dever cívico contribuiremos para que Angola seja conhecida não somente pelos recursos naturais de que é fértil, mas sobretudo pela qualidade formativa dos seus cidadãos como, de resto, já se vão destacando alguns, internacionalmente.
Mário  Araújo*

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