Gabriel Garcia Márquez (1927-2014) A morte de um grande demiurgo

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Gabriel Garcia Márquez – 06/03/1927-17/04/2014 – fechou-se o ciclo da vida biológica daquele que foi um dos escritores mais representativos do século XX. Para lá da sua existência material, o escritor colombiano, Prémio Nobel de Literatura em 1982, continuará vivo através dos livros, dos personagens e dos universos ficcionais que criou. Dono de uma obra em que pontifica “Cem anos de solidão” mas também brilham “Crónica de uma morte anunciada”, “O amor nos tempos de cólera”, “Ninguém escreve ao coronel”, “O general no seu labirinto”, “Memória de minhas putas tristes”, “Os funerais da Mamã Grande”, e outras, quase todas disponíveis para leitura na Internet, GGM era muito lido também em Angola. Alguns escritores angolanos, gentilmente, responderam ao questionário do jornal Cultura: 1) Como valoriza a obra de Gabriel Garcia Márquez?  2) O que é que nela mais o fascina?   3) A obra de GGM, de algum modo, influenciou a sua?

Gabriel Garcia Márquez (1927-2014) A morte de um grande demiurgo Fotografia: Gabriel Garcia Márquez (1927-2014) A morte de um grande demiurgo

Luís Fernando
1 – Gabriel García Márquez será lembrado sempre como um dos criadores literários da América Latina com mais aceitação universal, porque escreveu com uma genialidade que não cabe limitar em campos ou balizas; ele escreveu para ser lido pela Humanidade inteira. O seu mérito maior e absoluta excepcionalidade reside nisso, pelo que andou sempre muito acima do peso e prestígio que um Nobel encerra.
O escritor colombiano que acaba de deixar-nos foi único na sua capacidade de mostrar-nos mundos inverosímeis e improváveis mas que, se couberam na sua imaginação prodigiosa, podem muito bem existir algures ou virem a existir um dia nesta marcha misteriosa e imparável do Cosmos.  
Gabo ensinou aos que fazemos da palavra, da fabulação, da ficção, um caminho para dar a conhecer o mundo em todas as suas dimensões, tangíveis e não tangíveis, que há sempre espaço para mais. Foi um criador que nenhuma obviedade manietou, nenhum conhecimento existente impediu de dar-lhe asas para fundar as suas próprias verdades. O seu génio, essencialmente, singularizou-se por aí: o ter-nos levado a mundos onde nenhum outro ser humano havia chegado antes dele!
2 - A incrível capacidade de mostrar a improbabilidade como parte do tangível. Ou seja, a maneira como a sua escrita produz mundos surreais que todos acreditamos (ou, no mínimo, suspeitamos) que possam realmente existir. O modo natural como combina o mundo conhecido por todos com o mundo que apenas acontece ao nível do imaginário é o legado supremo de Gabo, se quisermos, o lado mais fascinante de tudo o que criou como escritor.
3 -  Como nenhuma outra! Sou pupilo do Realismo Mágico (basta que leiam A SAÚDE DO MORTO) mas sou, essencialmente, emanação de Gabriel García Márquez, seu 'filho' literário. Como se, por uma qualquer fórmula mágica das muitas que ele inventou, me tivessem chegado doses ínfimas dos seus genes latino-americanos, o que me permite, na recriação artística do mundo rural angolano, transfigurar-me nele, salvas, obviamente, as devidas e insuperáveis distâncias. Ele foi e será sempre o mestre que mais segui e sigo!

Fragata de Morais
1- Gabriel Garcia Marques é indubitavelmente um dos ícones da literatura mundial. Será o pai do realismo mágico, um género que teve sua proveniência da América Latina e suas obras reflectiam a preocupação com os problemas sociais e políticos desse continente.
2- A maneira como combina a fantasia ao real ou vice-versa.
3- Acho que para todos os escritores africanos ele tem uma influência quer propositada ou não, pois há enormes confluências nas realidades dos dois continentes. Por esse lado, creio que sim, teve e terá uma influência.

Albino Carlos
1 - Gabriel Garcia Marquez é uma raridade na Grande Literatura: atingiu a imortalidade ainda vivo.  A obra dele transcende o campo das artes: a voz dos sem voz, Gabo foi o derradeiro intelectual do século XX, fazendo da sua narrativa uma forma de mostrar ao mundo a riqueza da beleza da  alma latino-americana e africana.
2 - Descobri Gabriel Garcia Marquez aos vinte anos, por intermédio da saudosa professora Gabriela Antunes. Devorei toda obra de Gabo de fio a pavio, sem pestanejar, como quem come pitangas, de tal sorte que quando cheguei à última página da derradeira narrativa me dei conta que estava há mais de trezentos dias sem dormir, mas estava tão extasiado e enriquecido que me esqueci das noites em claro.
3 – Críticos há que vislumbram marcas de realismo mágico nas minhas tímidas aventuras literárias. Quanto mais leio Gabriel Garcia Marquez, mais me convenço que o homem era um Deus; o mundo está mais pobre com a sua partida.

José Carlos Venâncio
Gabriel Garcia Márquez foi provavelmente um dos maiores romancistas dos séculos XX/XXI. “Cem anos de solidão” é o romance que mais contribuiu para um repensar do mundo latino-americano no contexto mundial. É um romance fundacionista do realismo fantástico. Para mim, como sociólogo, este romance deve ser visto como uma resposta àquilo que é a ocidentalização do mundo, é um corte com o que era a concepção monocrónica do tempo, que se instituiu no pensamento ocidental nos séculos XVIII/XIX, com a ideia de progresso, em que a vida das pessoas passa a ser condicionada pelos minutos (“time is money”, dizem os ingleses). GGM vem dizer que há um tempo que não é monocrónico mas é cíclico, recorrente e que há possibilidade de vida e felicidade noutras circunstâncias, que têm de ser olhadas da mesma forma, com atenção e consideração como são olhadas aquelas em que as pessoas são escravas do tempo.
Outro livro muito importante de Gabo é “Crónica de uma morte anunciada”, que li pela primeira vez em alemão. Tecnicamente é deslumbrante, começa com o quotidiano de alguém que vai ser morto e depois traz à tona todos os síndromas da honra e da vergonha ligados ao adultério e à família do mundo mediterrânico, que foram transpostos para o mundo da América Latina.
A influência de GGM é mais evidente nalguns autores moçambicanos do que em angolanos. Mia Couto, [Marcelo] Panguana, Ungulani Ba Ka Khosa… Na nossa literatura não é tão evidente mas está presente no Pepetela, que é muito preso à História embora também trabalhe com vários tempos e tenha uma atenção muito especial àquilo que poderia acontecer, ao devir; no Uanhenga Xitu, no Manuel Rui, em “Rioseco”, e no Henrique Abranches, em “A Konkhava de Feti”.  

Gociante Patissa
A grandeza de um escritor é sempre algo relativo, tendo em conta o poder do lobby «editoras-imprensa-academia» e a tendência das elites em impor modelos. Ou seguimos a onda dos «cânones», ou nos arriscamos ao politicamente incorrecto, ainda mais em alturas melindrosas como o pós-morte.
Felizmente, há algo de tangível a apontar do ponto de vista da experiência na primeira pessoa. Num dos convívios na  União dos Escritores Angolanos, um confrade (julgo ter sido João Tala) que tinha lido o meu livro "A Última Ouvinte" (UEA, 2010), disse-me em saudável tom de mais-velho ter achado alguma influência latina na minha obra. Daí ter questionado quais os autores latino-americano que eu tinha lido ou em cuja obra me revia. Não sei descrever a minha emoção no momento, mas adianto que positiva não foi, pois eu me identifico como recolector de tradição oral africana, um Bantu com vivência rural na infância, portanto mais inclinado para um José Samwila Kakweji, Roderick Nehone, Uanhênga Xitu, Manuel Rui Monteiro, José Luandino Vieira (que muito li já com fim de pesquisas para o apuramento estético do manuscrito antes de o submeter ao confrade Adriano Botelho de Vasconcelos, meu editor). De Portugal, tinha gostado de crónicas de António Lobo Antunes. Mais conversa, menos conversa, repeti-lhe a convicção de ser um ecléctico, portanto alguém que lê tudo de todos, não tenho como tal ídolos. Veio dali a sugestão de ler “Memórias de Minhas Putas Tristes”, o qual li com imenso agrado na versão electrónica PDF. A isso, seguiu-se a leitura de umas tantas recensões e resumos.
Confesso que, como linguista e poliglota, é sempre com certa apreensão que leio obras traduzidas, porquanto "alguma poesia é perdida na tradução". Mas acabou sendo uma experiência memorável. Gabriel Garcia Marquez, pelo menos neste único livro que li dele, consegue usar a trilogia do jornalismo: claro, correcto e conciso. É das coisas que mais aprecio, a capacidade de ser profundo sem se exceder no floreado e naqueles quilométricos fios narrativos. Gostei da história, da frontalidade, sentido de observação, e da elaboração estética. Lido o livro, e quando rebusco a interpretação do confrade que julgava haver nos meus textos (de autodidacta) uma influência latina, prevalece um... Ainda bem!

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