Gorki e Luandino Vieira

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Máximo Gorki desempenhou um papel fundamental na literatura russa por ser o responsável pelo realismo socialista.

Gorki e Luandino Vieira
Luandino Vieira

A repercussão do trabalho ficcional atingiu muitos países e acabou por motivar autores preocupados em representar as camadas mais pobres da sociedade. Entre os angolanos, Luandino Vieira tem em toda a sua obra uma preocupação com os aspectos sociais. Suas narrativas têm como personagens fundamentais representantes da camada popular, pessoas famélicas, vítimas da violência do colonizador. A escrita de Luandino, a sua temática, aproxima-se bastante da escrita gorkiana, que também privilegiava o povo sofrido e faminto da Rússia czarista. O presente trabalho pretende demonstrar que existe um encontro entre as duas literaturas, com a análise dos contos “Vovô Arkhip e Lionka”, de Máximo Gorki e “Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos”, de Luandino Vieira.

Introdução

Poder-se-ia mesmo dar um outro título a este trabalho: “Encontros periféricos: Gorki e Luandino Vieira”. Porquê “encontros periféricos”? Se atentarmos para o adjectivo, logo perceberemos que “periféricos” aponta directamente para a Rússia e para os países africanos,que em determinado período histórico, permaneceram à margem do mundo dito “civilizado”. A Rússia durante um longo tempo foi um país desconhecido pelospróprios europeus. Era vista como um país exótico, habitada por um povo misterioso. O país dos czares era totalmente estranho aos ocidentais. A literatura russa foi recebida nos centros culturais da Europa como uma grande novidade, causando estranheza, falava-se até de uma vaga “alma russa”. Gogol, Puchkin, Dostoievski, Tolstoi atingiram milhares de leitores e a crítica ocidental recepcionou os autores e as obras russas com entusiasmo e muita surpresa. Com o advento do socialismo e a criação da URSS, não houve mudanças, parece até que aumentou o sentimento de mistério envolvendo o povo e a cultura soviética. Gorki e Tchekhov – autores já conhecidos pelos europeus – ganham destaque no período soviético por suas obras de cunho essencialmente realista. Claro que o desconhecimento veio, de certa maneira, acompanhado por uma admiração e respeito pelos autores russos.
O mesmo ocorre em relação aos países africanos, aliás, com muito maior intensidade. A colonização europeia acabou por impedir que nativos praticassem sua cultura e desenvolvessem relações com outros povos. Ficaram aprisionados dentro de suas terras, submetendo-se a terríveis sofrimentos.Os negros africanos eram considerados seres inferiores, “alimárias”, no dizer do poeta angolano Viriato da Cruz. A África sempre foi vista como um local selvagem, onde negros e animais se misturavam numa perversa promiscuidade. Também conhecida como um continente exótico, onde se praticava feitiçaria e rituais de magia negra. A cultura dos povos africanos, a sua literatura em especial, não existia para uma imensa maioria de europeus. Demorou muito para que o mundo conhecesse os autores africanos, contudo, quando vieram os primeiros romances, os leitores se espantaram com a qualidade das obras. As literaturas africanas de língua portuguesa são o grande exemplo disso: Agostinho Neto, Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Pepetela (Angola); Jose Craveirinha, Noémia de Souza e Mia Couto (Moçambique);Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Germano Almeida (Cabo Verde) e seus escritos repercutiram em todo o mundo. Hoje, Mia Couto é uma referência muito importante nas literaturas africanas de língua portuguesa, suas obras foram traduzidas para várias línguas. Ainda paira sobre a produção literária dos países africanos certa perplexidade, isto em virtude do desconhecimento, ainda grande, da cultura dos povos africanos.
Esse é o motivo pelo qual chamamos de “encontros periféricos”. Rússia e Angola, cada país a seu tempo e resguardadas as devidas proporções, foram (e talvez ainda sejam) periféricos e suas produções literárias também o foram. Mas não foi só por isso; há também o fato de que os dois países mantiveram estreitas relações durante um bom período do século XX. Na década de 60, a então colónia portuguesa lutava pela sua independência. A liderança do movimento de libertação era composta por intelectuais, poetas, escritores que pregavam uma Angola socialista. Divulgavam sua luta pelo mundo afora e conseguiram a simpatia de governos, organizações sociais, sindicatos de classe e intelectuais de muitas nações. Cidadãos portugueses, resistentes à ditadura salazarista, eram contrários à permanência de Portugal na África.
O auxílio que os angolanos solicitavam ia desde pronunciamentos públicos a favor da independência até o envio de armas, munições, alimentos e estrategistas para reforçar os combatentes. A União Soviética - num primeiro momento - e Cuba, logo após a revolução de Fidel Castro, auxiliaram directamente as forças angolanas. Angola recebeu ajuda material e um suporte político muito consistente dos dois países. Alguns líderes africanos passaram pela URSS, com destaque para o líder do MPLA Agostinho Neto, que viria a ser em 1975, o primeiro presidente de Angola. Aliás, muitos outros angolanos foram a Moscovo, pode-se destacar também a presença de Pepetela, um dos comandantes do MPLA. Não é por coincidência que Agostinho e Pepetela (poeta e romancista, respectivamente) sejam líderes revolucionários, na África, os maiores líderes da independência de seus países eram artistas: no Senegal, Leopold Senghor; em Moçambique Samora Machel e Eduardo Mondlane, na Guiné-Bissau e em Cabo Verde Amílcar Cabral.
A estadia de líderes dos movimentos revolucionários em Moscovo propiciou, além do contacto político, um contacto muito forte com a cultura soviética, a ponto de Eugénia Neto (mulher de Agostinho Neto, também escritora) ter afirmado que o encontro com as obras de Gorki foi o momento mais importante de suas presenças na URSS e este encontro serviu para que seu trabalho literário tomasse novos rumos. Não somente Gorki, mas Tolstoi, Dostoievski, Turguêniev, Maiakovski, entre outros, tiveram uma recepção calorosa em Angola e nos demais países africanos de língua portuguesa. A presente comunicação pretende tratar do “encontro” entre angolanos e russos no campo literário e para isso a escolha recaiu sobre Luandino Vieira (“Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos) e Máximo Gorki (“Vovô Arkhip e Lionka”).
A obra de Gorki, mesmo aquelas obras do Gorki jovem, ganhou destaque entre os autores angolanos. Além do depoimento de Eugénia Neto, há também muitas referências a Gorki nos periódicos angolanos. A revista Lavra & Oficina, de Maio de 1979, publicou o artigo “Máximo Gorki na fábrica Sacma”, em que o articulista faz uma explanação sobre as actividades doescritor russo a favor do povo. Nessa mesma edição aparece com destaque o poema de Maiakovski “A todos/ que caminhais pelas ruas/ e parais as máquinas e fábricas”,Angola vivia um momento de euforia por causa de sua independência e os escritores engajados – em especial os russos – eram lembrados como exemplos,pelo papel desempenhado em defesa dos povos colonizados.O próprio Luandino Vieira, considerado o grande mestre dos escritores e poetas angolanos da nova geração, afirma sua simpatia pelo autor de Minhas Universidades. Aliás, a produção literária de Luandino Vieira dialoga de forma incisiva com escritos de Máximo Gorki, como veremos a seguir.

O encontro literário entre Gorki e Luandino Vieira
Os contos escolhidos para nossa reflexão apresentam certas particularidades importantes. Ao mesmo tempo em que são melancólicos, que abordam situações vividas por personagens marginais, são poéticos. Retirados dos livros Antologia de contos de Maksim Gorki (1961) e de Luuanda (2010), os contos trazem os aspectos apontados acima.Há pontos comuns como a presença do mais velho (Arkhip e Xixi) e do mais novo (Lionka e Zeca Santos) e também a miséria como tema. Os mais velhos (avô/avó) são personagens respeitadas em ambas as culturas: o mais velho tem a experiência da vida e pode servir como modelo para os mais novos. Admiração e respeito são condições essenciais para a convivência entre avós e netos. Todos os dois escritores têm como protagonistas personagens oriundos das camadas populares, alijados do convívio social, mas que possuem humanidade, uma humanidade que brota no interior destes seres, que carregam uma aflitiva esperança por melhores dias. Entretanto, os pontos temáticos comuns parecem distanciar um pouco na construção das personagens e na sua ambientação no espaço. Luandino constrói a Vavó Xixi e o neto no espaço do musseque; já Gorki coloca seus heróis atravessando terras, mesmo que as ações ocorram numa aldeia, os personagens vieram de muito longe.
Arkhip e Lionka estão fora da Rússia, viviam mendigando pela estepe, de aldeia em aldeia. A narrativa gorkiana vai explorar estes aspectos, combinando com a descrição de uma paisagem extremamente hostil. De início, a descrição física do velho Arkhip “o rosto ossudo e comprido de vovô Arkhip” e de Lionka “pequeno, frágil, e, em seus andrajos, parecia um galho torcido”. Sobre os dois: “arrancado do avô, velha e seca árvore, trazida e atirada sobre aquela areia pelas ondas do rio” (p.5). Enfim, a descrição das personagens vai compor com a descrição do espaço exterior um quadro desolador
“...o avô olhou para a margem contrária, banhada de sol e toscamente orlada de várias touceiras de vimeiro, das quais surgia o bordo negro da balsa. Tudo ali era vazio e enfadonho. A faixa cinzenta da estrada partia da margem e afundava-se na estepe; era implacavelmente reta, seca e inspirava desalento.” (p. 35)
A descrição se harmoniza bem com a situação dos dois personagens: um velho doente e um menino franzino, famintos, em busca de algo para comer e de um canto para dormir. Todavia, Arkhip tinha outra preocupação: o que seria do neto se ele morresse? Ás vezes, os dois chegavam a brigar por causa disso. Mas a descrição da paisagem vai ser peça importante na narrativa porque é nesse momento que se encontra o poético no conto gorkiano. Korolenko, o homem que lançou Gorki, disse que o conto estava bom, mas que Gorki parecia querer fazer versos. Vê-se que o autor russoprivilegia, em diversaspartes da narrativa, o espaço exterior, e o leitor deve ficar atento para isso. Há, sem dúvida, uma naturalização do ser humano, quando o narrador afirma que o menino fora “arrancado do avô, velha e seca árvore”, como há também uma humanização da natureza, no momento em que o narrador personifica os elementos naturais.
A dura vida do velho Arkhip e de Lionka parecia não ter fim, embora em certos momentos o velho pensasse em voltar para a Rússia e dar ao neto uma vida mais tranquila.O perambular de aldeia em aldeia, as humilhações que sofriam, poucas eram as pessoas solidárias, normalmente eles eram tratados como animais. Lionka sonhava em chegar num lugar onde tudo fosse diferente “...Imaginava lá grandes, maravilhosas cidades , povoadas de gente boa, que jamais vira, e a quem não seria preciso pedir pão, pois haveria de dá-lo sozinha.” (p. 50) As dificuldades sofridas fez de Arkhip um ser amoral, para ele subtrair algum objeto era normal; se o pegassem em flagrante, choraria, pediria perdão e, se apenas desconfiassem de que furtara algo, jurava inocência. Lionka, pelo contrário, não aceitava que o avô praticasse furtos, pois já haviam sido expulsos de diversas vilas por causa disso. Depois de espancados, corriam com eles, e o pequeno Lionka sofria muito. Brigava com o avô que dizia fazer aquilo para garantir o futuro do neto. O mesmo aconteceu na aldeia em que estavam: os dois foram levados para uma assembleia dos moradores, logo Lionka preocupou-se porque o avô poderia ter furtado alguma coisa. No caminho, o velho, furtivamente, passou às mãos do neto um pano enrolado e pediu que o jogasse no mato e marcasse bem o lugar para depois pegarem-no. Na assembleia foram revistados, humilhados, tão espancados que Lionka chegou a desmaiar;todavia nada encontraram com eles e foram soltos. Arkhip e Lionka saíram, o velho tossindo, cabisbaixo, porém,quando estavam distantes do paço, o velho quis saber onde estava o objeto que Lionka jogou.O menino notou que era um lenço, ele sabia que pertencia a uma menina que, pouco antes, encontrara no caminho, chorando pela perda do presente que ganhara do pai. A conversa entre Lionka e a menina é de uma enorme poeticidade. Ao ver a garota chorando, o menino condoeu-se
- Não chore. Você já é grande, uma vergonha!...- Por que todo esse choro?
- Si-im! – arrastou ela. Se fosse com você...- e, de súbito, deixou-se cair sobre a poeira da estrada, escondendo o rosto nas mãos e lamentando-se em desespero.
- Ora!...- Mulher!...Isso mesmo: mulher! Ora, você!... (p.45)
Mas isso de nada adiantou. Vendo jorrar as lágrimas entre os dedos finos e róseos da menina, Lionka sentiu-se triste também e teve vontade de chorar. Inclinou-se sobre ela e, erguendo cautelosamente a mão, tocou-lhe de leve o cabelo; mas, assustado com sua própria audácia, retirou a mão no mesmo instante. Ela continuava chorando e nada dizia.
- Escute! – começou Lionka, depois de um silêncio, sentindo uma necessidade insistente de auxiliá-la. – Por que isso? Bateram em você, não?...Isso passa!...Ou é alguma outra coisa? Diga me então! Menina – eh? (p.45)
Sem tirar a mão do rosto, a menina balançou com tristeza a cabeça e, por fim, respondeu em meio aos soluços, lentamente, com um mover de ombros:
- O lenço...perdi!... Papai trouxe da feira...azul claro, com florzinhas, e eu pus na cabeça e perdi. – E chorou novamente, mais alto e com mais força, soluçando e exclamando com voz gemente, de modo estranho: - o-o-o! Lionka sentiu-se impotente para ajudá-la e, recuando com timidez, olhou triste e pensativo, o céu que escurecia. Sentia-se mal e tinha muita pena da menina. (p. 45)
Esta cena mostra a bondade de Lionka, o seu sentimento de piedade pelo choro da menina. E, ao ver que o lenço estava em poder do avô, ficou mais revoltado ainda. Mas não era só o lenço que o velho Arkhip pegara: sob a axila, Arkhip escondera um punhal de prata. Lionka ficou apavorado e o velho tentava acalmá-lo, tudo era para o futuro dele. E dizia “se juntasse cem rublos, morreria em paz”. Aí, Lionka destemperou
“...Fique quieto! Eu morria, eu morria...E nunca chega a morrer, aí é que está...Fica roubando! – exclamou com voz esganiçada, e de súbito, pôs-se de pé, tremendo com todo o corpo - Velho ladrão que você é!...U-u! e, comprimindo o punho miúdo e seco, sacudiu-o ante o nariz do avô que silenciara...- Roubou de uma criança...Ah, que bom!...Velho, mas não deixa se fazer das suas... Isso não será perdoado a você no outro mundo!...” (p. 53)
A seguir, a narrativa ganha tons chocantes: vem uma tempestade, o velho Arkhip a lamentar a fala do neto, enfim há o prenúncio de uma tragédia que se aproxima. Lionka pedia perdão ao avô e implorava para voltarem para a aldeia, o velho insistia em ficar ali, encostado a uma árvore. Lionka, apavorado, dele se desgarrou. No dia seguinte, crianças encontraram o velho que ainda respirava.Falecendo à noite, foi enterrado ao lado da árvore. Três dias depois foi encontrado o corpo de Lionka, enterrado junto ao avô.
Escrito no final do século XIX, o conto apresenta características do realismo gorkiano, embora haja aquele leve tom poético, que fez com que Korolenko censurasse Gorki, por ter dado à prosa um enfeite, “algo que parece verso”. Porém, em nossa opinião, o que Gorki fez foi abrandar um pouco a narrativa que, no final, apresentou momentos de grande tensão. Os diálogos entre avô e neto, a tempestade que caiu e a morte dos personagens deram o tom final.
O conto de Luandino “Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos” compõe o livro de contos Luuanda(escrito em 1963, publicado em 1964) quando preso pela PIDE, o escritor cumpria pena num presídio de Luanda. O livro foi traduzido em várias línguas e o conto tem uma tradução russa de 1968. A primeira edição do livro foi em 1964, em Luanda. Trata-se de uma obra muito importante para a literatura angolana, porque o autor foi o mestre da nova geração de escritores e um grande incentivador da arte literária em seu país. “Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos” possui muitos elementos da escrita realista socialista. Tal como Gorki, Luandino constrói uma narrativacom personagens populares, marginalizadas, pois não pertenciam nem à camada colonizadora, nem à elite angolana, cooptada pelos portugueses.Vavó Xixi vivia no musseque com seu neto Zeca (o pai de Zeca foi preso pela polícia colonial). Sozinha, a velha Cecília necessitava da ajuda do neto para sobreviver, porém o neto adolescente, quando tinha dinheiro só pensava em comprar roupas para se exibir. A velha Xixi é que procurava uma maneira de conseguir alimento para os dois. Insistia para o neto procurar emprego, até mesmo já tinha falado com o padre, porém Zeca queria escolher o seu trabalho. Apesar de Zeca não procurar com afinco algo para fazer, havia um outro problema: o seu pai era de uma região (Catete) em que os portugueses tinham dificuldades. Muitos angolanos da região do Catete estavam presos e eram considerados terroristas. O pai de Zeca era um deles. Daí, era difícil encontrar trabalho, o preconceito era enorme, Zeca chegou a ser espancado por um patrão que alegou ter sido roubado por ele.
Na cubata não havia nada de comer, Xixi esquentava as panelas sem nada dentro, os dois passavam fome e nada podiam fazer. Como Gorki, Luandino explora bastante o espaço exterior. Há como que uma sintonia entre o mundo exterior e o mundo vivido pelas personagens. A natureza também é personalizada (aliás, na cultura africana os elementos naturais fazem parte da vida das pessoas, por exemplo, sempre há uma árvore que representa os antepassados, ou mesmo aqueles que vivem ali bem próximo).
“Mas vavó não sente esse barulho da vida à volta dela. Tem o soprar do vento, o bater dos zincos; nalguns sítios, o cantar da água a correr ainda, e, em cima de tudo, misturando com todos os ruídos, o zumbir das vozes das pessoas do musseque, falando, rindo, essa música boa dos barulhos dos pássaros e dos paus, das águas, parece sem esse viver da gente o resto não podia se ouvir mesmo, não era nada.”
A fome, a miséria são os elementos predominantes no conto de Luandino, convergentes, portanto, com o conto de Gorki. As panelas vazias no fogo, a coleta de frutas apodrecidas nas lixeiras da Baixa. Vavó Xixi chegou a trazer “umas mandiocas pequenas, encarnadas” que queria cozer “para espantar a fome”. Zeca disse que eram dálias, mas mesmo assim ela cozinhou e comeu. Depois, passou a sentir-se muito mal, pensou até que ia morrer. Zeca sentia vergonha da avó e, às vezes, mentia aos amigos que havia almoçado, quando nem mesmo tinha comido o maquezo da manhã. Xixi se resignava, mas a fome alterou-lhe a fisionomia “A cara dela, amachucada e magra, toda cheia de riscos, ria, enrugando ainda mais a pele, quase as pessoas não podiam saber o que é nariz, o que é beiços...”(p.41)
Zeca sentia muito mais a falta de alimento, sempre que chegava a casa, perguntava o que havia para comer e a resposta de Xixi sempre era a mesma: “você trouxe dinheiro?” Sem comer, sem trabalho a sua vida realmente se tornara um suplício
“... Na barriga, o bicho da fome, raivoso, começou roer, falta de comida, dois dias já, de manhã só mesmo uma caneca de café, parecia era água, mais nada. Vavó quase a chorar lhe sacudia da esteira com a vassoura para ele ir embora procurar serviço na Baixa...(p.14)
Lamentando, dizia “Nem maquezo nem nada! Aiuê, minha vida! Esta vida está podre!...” O final não é tão trágico como no conto de Gorki, mas também parece não haver solução para avó e neto. Mesmo com a mudança de atitudes de Zeca, que se esforçava para arrumar trabalho, a situação continua a mesma: avó e neto sem nenhuma perspectiva de melhora. A narrativa termina com os dois abraçados, chorando.
Apesar de distantes no tempo e no espaço, as duas narrativas dialogam entre si. Gorki e Luandino sentiam a necessidade de abordar em suas obras situações retiradas da vida prática, tendo como protagonistas personagens oriundas das camadas mais humildes, com a finalidade de denunciar as condições sub-humanas que viviam. Os mais velhos (Arkhip e Xixi) lutavam como podiam contra a fome. Lionka e Zeca Santos tinham o apoio dos avós. Com uma diferença importante: vavó Xixi era muito crítica em relação a Zeca, um adolescente que só pensava em namorar; a insistência de Xixi para que ele arrumasse emprego, se quisesse comer todos os dias. Xixi lamentava-se
Contou então, com as lamentações dela, sempre a falar também ele não tinha mais juízo, senão nada disso que ia suceder, é assim, uma pessoa fica velha e pronto! os mais-novos pensam é trapo de deitar fora, pessoa tem fome, come mesmo o que aparece e depois, no sono, lhe atacam essas dores na barriga...(p.39).
O velho Arkhip, pelo contrário, é que sofria as críticas do neto por praticar furtos, apesar de sempre dizer que pensava no futuro do neto, o que seria de Lionka, após sua morte?
Você ainda é tolinho, não pode compreender a sua própria vida. Quantosanos tem você? Fez dez apenas. É fraco, não serve para o trabalho. Para onde poderá ir? Pensa que a gente boa vai ajudar você? Se você tivesse dinheiro, eles ajudavam a gastar, é assim que acontece... (p. 38)
Os lamentos do avô Arkhip contrastam com os lamentos de vavó, mas ambos apontam para a questão da fome e da miséria. O sofrimento de Vavó que, após cair na miséria, passa a “viver” do lixo e das sobras jogadas nas ruas, não é diferente de Arkhip, que vive a pedir esmolas pela Rússia afora. Arkhip tinha plena consciência de que pedir esmola “não é agradável, mesmo para mimque sou velho. É preciso inclinar-se diante de cada um, pedir a todos. E as pessoas xingam a gente, às vezes chegam a bater, enxotam para longe...Pensa que consideram o mendigo como gente? Ninguém! (p. 39)
Zeca Santos, mesmo procurando emprego era alvo do ódio das pessoas, também era espancado, explorado por quem tinha uma posição um pouco melhor. Pode-se dizer que as narrativas de Gorki e de Luandino, apesar das diferenças, apresentam pontos convergentes, tanto na temática central (fome), como nas condições das personagens, marginalizadas, sofridas e maltratadas por uma sociedade desumana e individualista.
Mas os dois iam além da denúncia: ambos mostraram que, no meio de tanta miséria e sofrimento, havia naqueles seres humanos um forte sentimento de amor e esperança. Arkhip sonhava com o futuro do neto e Xixi antevia uma possibilidade de mudança.Daí também o tom poético das narrativas. Mesmo que, no final de “Vovô Arkhip e Lionka, haja um desfecho trágico, o poético se apresenta nas impressões do narrador sobre espaço exterior, o mesmo acontecendo no conto de Luandino Vieira.

Rubens Pereira dos Santos

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