Haikais -Da exorcisão à concisão

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Para depreender o palpitar da alma, alcançar a percussão misteriosa das coisas e dissolver uma atitude em face de um universo à mobilidade de tradução dessa atitude é preciso hibernar o olhar até a visibilidade que o zénite nos permite e aludir uma incursão perfunctória pelas apalpadelas do nosso entorno

Quiçá, porque "ao poeta pergunta-se como canta, não se lhe pergunta o que canta", a "gíria literária" de hoje traduz fielmente os esforços de toda uma geração de escritores que primam por exprimir-se com a arte, sobretudo na sua dimensão estético-subjetiva.

A palavra, para estes poetas inovadores, é um mero símbolo que, no entanto, encerra uma pluralidade inesgotável de sentidos ao ponto de o seu significado contextual afigurar-se ambíguo.

Logo, para apreender a palavra poética e, por extensão à própria poesia produzida nos nossos dias, é preciso vencer a tentação da aderência imediata e, ultrapassar o sentido literal da palavra para, lá de recriar a criação do poeta.

Embora nem todos desfrutem do mesmo grau de sensibilidade, pureza e proeza para transpor as linhas itinerários do seu leito, é evidente que o sentimento do belo é um privilégio da alma humana, e como tal deve ser incentivado, pois enobrece os sentimentos, e enriquece o espírito humano até limites incalculáveis.

E é graças a este poder de saber harmonizar a beleza dos sons, a percepção de ler a inclinação dos ventos, o balbuciar carismático das assonâncias, hospedar no ímpeto dos dedos o choque de duas pedras, o estalar da madeira ou os sons ocasionais produzidos durante a construção de suas choças, os haicaístas são verdadeiros escultores e quando verdadeiramente inspirados conseguem despertar sensações tão doces, profundas e variadas que a sua composição poética de apenas três versos será capaz de suscitar emoção, ternura e prazer no espírito humano.

A final o que é um Haikai?

Sendo um estilo de produção poética de origem japonês, breve que apresenta uma cena ou um evento natural em linguagem cotidiana, Lourenço José, ex-jornalista do jornal de Angola, sub-editor de vida e Cultura, suplemento semanal do Jornal de Angola, no seu texto de prefácio "O verso Vegetal", In "O brilho do Bronze" de Lopito Feijóo, diz que o Haikai (ou Haiku), é um " poema de uma estrofe de 17 sílabas, distribuídas pelos três versos, na ordem de 5-7-5, isto é: cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro, sendo de origem oriental, cuja temática contextualiza eventos de natureza numa determinada estacão do ano (Kigo)". Produzido numa intervenção hermética, "teve no monge Zen Matsuo Bashô o seu principal epígono".

De lá para cá, ainda há muito que se fale sobre esta insustentável leveza do zen. Tendo nascido em Ueno e como membro de uma família de samurais, estudou poesia e filosofia, além das artes marcais e de uma educação apurada, Matsuo Bashô (1644- 1694), deu um grande impulso e, o haicai ganhou popularidade a partir da segunda metade do século XVII.

Ainda na juventude, optou por uma vida mais simples, e passou a viajar pelo Japão, registrando em diários suas impressões de viajem e seus haicais. Bashô não inventou o haicai, mas deu a ele um sentido, uma forma de ver o mundo, um exercício espiritual.

O haicai não tem rima nem título. A referência à natureza está sempre presente no uso de uma palavra, o termo de estacão, chamada kigô em japonês, que remete às estacões do ano. Aqui, apesar da indefinição ou das diferenças territoriais que marcam as estacões, muitos haicaístas brasileiros mantêm o uso do kigô. Há haicais para cada estacão do ano.

Os termos haiku e haicai podem ser usados como sinónimos. Muitos autores usam haicai para denominar o poema japonês feito em Brasil e haiku para o tradicional poema feito no Japão.

Outros ainda, associado a uma prática zen, um caminho espiritual, uma atitude de vida, não envolve sentimento, apenas sugere. Não opina, apenas mostra. É um flash do cotidiano, e a sua essência assenta no registo da imagem, do instante, exprimindo o concreto e o momento presente. Alice Ruiz, professora do haikai e uma das grandes expoentes deste estilo de produção poética no Brasil, diz que o "eu" não pode aparecer no haicai.

No plano linguístico, é comum o uso da aliteração, de onomatopeias e jogos de palavras. De acordo com masuda Goga, um dos mestres e fundadores do Grémio Haicai Ypê, no Brasil, um haicai, além da simplicidade, deve evitar o excesso de termos poéticos e recorrer a palavras de fácil compreensão.

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