"Hebo" novo romance de João Miranda

Envie este artigo por email

Uma incursão histórica no esteio da ficção narrativa. Reflexão sociológica sobre as crenças e efeitos perniciosos da guerra civil.

A guerra e os seus efeitos trágicos, no plano da história, e o tratamento entrecruzado da acção narrativa, no plano do discurso, fazem de Hebo, o novo romance de João Miranda, um notável apontamento sociológico, consubstanciado no registo romanceado do passado político e social mais recente de Angola.

Estamos no tempo das ideologias, a revolucionária e a outra, onde o percurso individual de cada personagem confere inteligibilidade aos momentos de triste memória da história de Angola. Neste sentido, Hebo leva-nos a uma reflexão de pendor pedagógico, sobre a real possibilidade de uma paz duradoura, evitando a possível repetição da guerra civil.

A sucessão e o encadeamento dos episódios, constituem um pretexto para destapar o véu das origens das famílias, da degenerescência dos valores culturais endógenos, dos efeitos nefastos do tribalismo, das crenças, das opções políticas, face à antinomia entre a preservação da tradição e a crescente absorção dos valores globais da modernidade.

Um dos grandes méritos do autor, terá sido a seleção de um conjunto de ocorrências reais, organizadas de forma sequencial, prevendo operações e opções táticas precisas, com o intuito de atingir objetivos previamente estabelecidos, reutilizando, por transfiguração, nomes e locais que se resguardam, frescos, na nossa memória coletiva.

Embora empreenda um processo claramente ficcional, existem lugares no livro, tal como o reinado jaguarense, que se opõe ao Estado Republicano, que nos parece uma localidade mítica do tempo da guerra, que o mundo e os angolanos bem conhecem. É nesta verosimilhança que o autor se socorre para relatar, em termos de intencionalidade, vários momentos da nossa história, adotando uma postura de "fingimento", não estabelecendo um corte radical e irreversível com o mundo real.

Mundos possíveis

As referências e alusões, em Hebo, devem ser entendidas, como pseudo-realidades que se concretizam através da construção de mundos possíveis, ou seja, mundos cuja existência é meramente textual, mas sempre com endereço depreendido, no mapa político de Angola.

Cada capítulo da narração cria um determinado universo de ocorrências, onde se inscrevem as personagens, os seus atributos e esferas de ação, ou seja, das contradições entre Ngana Minga, mãe de Málua Francisco Kunga, e Dona Augusta Dias, mãe de José Dias da Costa, Mabakala, à crença no kianga, poder mágico, que ocasionou a misteriosa morte de Francisco Kunga, João Miranda organiza a sua estratégia narrativa, como pretexto para abordar, de entre várias questões, a assimilação colonial, transcrevo: "Acorrida dos africanos ao status social compatível fazia-se através do encosto aos europeus, sob várias formas.

Uma das maneiras fazia-se por oferecimentos de filhos para serem batizados por casais europeus com os quais se mantinha alguma relação de compadrio com famílias europeias", esclarecia o pastor Manuel Bumba às crescentes curiosidades de Ngana Minga, cuja aproximação acabou numa "pesada carga de desejos".

Crenças

Tanto é assim que, ainda em luto do falecido marido, correu o boato de Ngana Minga se ter engravidado do Pastor Manuel Bumba, por Ubenda (adultério) e por essa razão ter sido apelidada, pelos mais radicais, de ndumbu (vadia).

Para uns, Nga Minga, ter-se ­ia socorrido do aborto, evitando o vexame no seio dos mais conservadores, para outros, e segundo a tradição ngola, tratava-se de Hebo, uma falsa gravidez, que, de temporária, poderia ressurgir num espaço de vários anos. Para Nga Minga tratava-se de uma praga do falecido marido e seus familiares, que defendiam a reposição do Kilembo (dote), ou lundulo, a continuidade matrimonial da viúva por um membro da família do viúvo.

"Algum tempo depois, torno a citar o autor, finalmente o Hebo viu a luz do dia. Era um menino sadio, rapaz de invejável robustez". Aliás amores, encontros, desencontros, traições, exemplos de patriotismo e ofensas à moral, em situação de guerra, dão corpo à estruturada narrativa, num processo de enunciação que se compreende em função de um movimento temporal, facilmente reconhecível nos grandes momentos dos últimos quarenta anos da história de Angola, representada pelo percurso controverso e trágico do casal, Málua e Paulo Afonso Pedro Kaumba, o último irmão de Tshilombo Kaumba, uma das principais personagens de Hebo.

De facto o casamento adiado com Sabino Sithole, o destino infeliz e as peripécias trágicas de Tshilombo Kaumba, embora com um final relativamente feliz, constituem a espinha dorsal das ocorrências mais emblemáticas do período da guerra no reinado jaguarense, até a sua fuga, transformada depois em refugiada, percurso que, infelizmente, muitos angolanos conheceram.

Conflitos do passado

Nesta perspectiva Hebo, enquanto género do modo narrativo, instaura uma dinâmica temporal imposta, por um lado, pela história relatada, que vai desde o movimento estudantil universitário em 1974, passando pelo27 de Maio de 1977, simbolizado pelo comandante guerrilheiro Kienda Menha, e guerra civil, até ao ponto de encontro de famílias desaparecidas.

Por outro lado, o discurso inerente a essa história revela uma linguagem, carregada dos hábitos e arrogâncias de uma época, que pretendemos enterrada e esquecida.

Hebo foi particularmente talhado para modelizar em registo ficcional os conflitos do passado, as tensões e o devir do homem angolano inscrito na história e na sociedade do futuro, sem guerra e em plena paz.

Daí que um dos grandes méritos deste romance, é a forma como o autor consegue articular o encadeamento dos episódios, com o reencontro das personagens, instâncias que o leitor julga desaparecidas, do cenário da ação narrativa, voltando a reaparecer, descobrindo entre si, laços muito próximos de consanguinidade.

Reencontros

Com esta estratégia, João Miranda leva-nos a relembrar que a guerra foi travada, de facto, entre irmãos desavindos, vejamos então as ocorrências:

Pedro Kaumba Saviemba, filho de Tshilombo Afonso PedroKaumba, julgado morto na corrente do rio Zambeze, acabou por ser julgado pelo tio, Paulo Kaumba, Sabino Sithole encontrou Tshilombo Kaumba, no Centro de Refugiados de Viana.

Depois de julgadas desaparecidas Gia e Afonso Francisco Paulo Kaumba, batizado Kaunda, encontram-se numa festa em Kimbulungo. José Dias, Mabakala, irmão de André Francisco Kunga, encontra-se com a sua meia-irmã, Málua.

No fundo, Hebo é um estudo da complexidade da alma e do absurdo da vida humana, no sentido existencialista, com os seus defeitos e virtudes, das relações sociais, em reflexão filosófica, em reportagem, e em testemunho polémico.

Da ação principal às ramificações secundárias, envolvendo de modo decisivo o destino das personagens, estamos em presença de um romance que, no fundo, tenta responder à interrogativa: Quem somos nós?
A odisseia da guerra em “Nambuangongo”

Deputado do MPLA e antigo Ministro das Relações Exteriores da República de Angola, de 1999a 2008. João Bernardo de Miranda é membro funda dor da União dos Jornalistas Angolanos (UJA) e está filiado na União dos Escritores Angolanos (UEA).

Jurista, e atual governador da província do Bengo, exerceu a função de enviado especial da União Africana na Guiné-Bissau, e teve como missão, a nível desta organização, instaurar a reconciliação para as eleições presidenciais e reforma da defesa e segurança.

Enquanto jurista e jornalista, João Miranda exerceu ainda os cargos de vice-ministro da Comunicação Social, e vice-ministro das Relações Exteriores.

É membro da Ordem dos Advogados de Angola. Publicou Nambuangongo (1998), um romance sobre a guerra nesta povoação do norte de Angola, na província do Bengo, ocupada pelos nacionalistas angolanos no início da guerra anti-colonial, em 1961.

Nambuangongo só veio a ser retomada pelo exército português em Agosto, ainda deste ano, porém, a guerra durou mais treze anos. Os escritores portugueses: Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco e José Cardoso Pires, foram soldados em Nambuangongo. João Miranda publicou também, "Pathelo-a-Kuma", o menino de inteligente (2002), levada à cena em Portugal, Porto, pelo encenador João Luiz.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos