História dos Movimentos Literários em Angola: Andarilho Caótico?

Envie este artigo por email

Movimentos Literários insere-se no âmbito de um processo natural.

História dos Movimentos Literários em Angola: Andarilho Caótico?
Berço Literário

Nesta narrativa, que trata o tema dos Movimentos Literários, o que temos de informação será sempre uma gota no oceano, na medida em que nos apresentamos na condição de narrador heterodiegético comfocalização externa. Não sendo omniscientes, deixaremos os leitores preencherem as diversas lacunas que eventualmente poderemos deixar.
O tema que tem a ver com os Movimentos Literários insere-se no âmbito de um processo natural, o qual designamos por Evolução Literária. O lexema Evolução, do latim evolutio, remete-nos para termos como progresso, mudança, transformação e etc. Neste quadro dinâmico de transformações no campus literário, provocado geralmente pelos diferentes contextos históricos, surgem os chamados Movimentos Literários que, por sua vez, quando bem sucedidos, ao provocarem alterações no sistema semiótico literário, acabam por designar um período. Assim sucedeu com os maiores movimentos da historiografia literária, a citar: Maneirismo, Barroco, Neoclassicismo, Romantismo,Realismo, Simbolismo, Surrealismo etc.
Do ‘‘Grande Dicionário da Língua Portuguesa’’ de Cândido de Figueiredosalta-nos o lexema ‘‘Movimento’’, do latim movimentum, significandodeslocação, transformação social, evolução de ideias. Carlos Reis, na sua obra ‘‘O conhecimento da Literatura’’, refere-se ao termo ‘‘Movimento’’ como sinónimo de corrente, ou de período, ou ainda de escola. Em a ‘‘Teoria da Literatura’’ de Aguiar e Silva,‘‘Movimento’’ tem que ver com os aspectos dinâmicos e mutáveis dos diferentes estilos. A partir dos sinónimos e conceitos apresentados, relativamente ao lexema ‘‘Movimento’’, explícita ou implicitamente, torna-se evidente a ambivalência semântica da expressão ‘‘Movimento Literário’’:
Como sinónimo de período, a ideia de Movimento Literário está associada a todo um conjunto de factos literários ininterruptos que provocam alterações de vária ordem no sistema semiótico literário.
Como corrente de pensamento, um Movimento Literário é uma associação formada por autores mais ou menos da mesma época que, compartilhando analogamente o mesmo conceito de humanidade e de arte, estabelecem uma ideo-estética comum.

VAMOS DESCOBRIR
ANGOLA
Em Angola, há 65 anos, em clima de domínio colonial, filiado no Movimento Cultural ‘‘Vamos Descobrir Angola’’, nasce o primeiro Movimento Literário com o acrónimo MNIA (Movimento dos Novos Intelectuais de Angola). ‘‘Um movimento, essencialmente de poetasligadoS pelo mesmo denominador que é o sentimento nacional para combater o colonialismo’’,(Carlos Everdosa, in Roteiro da Literatura Angolana)cujo manifesto se fazsentir, fundamentalmente, através da Revista Mensagem. O temário geo-humano, o discurso narrativo constituem o tronco comum na praxis literária desses cultores, influenciados pelo neo-realismo, pelo movimento modernista brasileiro e pela Negritude. São os responsáveis pela formação de uma literatura enquanto elementoindispensável da consciência africana e nacional que encontram na poesia o seu maior meio de expressão. Com os mesmos dedos com que grafam os anseios da colectividade nos seus variados poemas, pegam em armas e fazem-se guerrilheiros.

BRIGADAS JOVENS
DE LITERATURA
Alcançada a independência, abre-se-nos um novo período literário que, no entanto, só se faz sentir, com maior notoriedade,com o advento gradual das Brigadas Jovens de Literatura de Angola (21 de Novembro de 1987), instaladas um pouco por todo o país. É necessário referir que a BJLA nasce da BJL (Brigada jovem de Literatura de Luanda) quesurge em Luanda, a 5 de Julho de 1980.Funcionando como autênticas oficinas literárias, as Brigadas congregam jovens poetas, mantendo viva e acesa a importância do constante e renovador processo do fazer poético. A poética produzida pelas Brigadas afasta-se do tom épico dos poemas de combate que dominam a cena literária dos poetas panfletários, (CARMEN LUCIA, in A poesia angolana pós-independência: tendênciase Impasses)uma actualização estética balizada pelos modernismos e as poéticas experimentais. Do ponto de vista institucional, a Brigada Jovem de Literatura traduz a concretização do pensamento formulado por Agostinho Neto, segundo o qual era necessário desenvolver o mais amplo debate de ideias. As Brigadas sempre tiveram uma certa conotação política. Da Brigada saltam nomes como António Panguila, Fernando Kafukeno, António Gonçalves, Luís Kandjimbo, LopitoFejó, JoãoMaimona, João Tala etc.

OHANDANJI
A partir de 1984, começa a revelar-se sinais de ruptura e discórdias internas a nível da Brigada Jovem de Literatura de Luanda. Nesta linha de colisão, começam a surgir pequenos círculos, grupos, ou tertúlias, integrados por estudantes universitários à volta de projectosestético-literários, dentre os quais destaca-se o Colectivo de trabalhos literários Ohandanji do qual fazem parte Aníbal Simões (CikakataMbalundu), António Panguila, Frederico Ningi, Lopito Feijó, Luís Kandjimbo, com tertúlias no Lar de Estudantes Universitários da Ingombota. A tertúlia Ohandanji procura construir uma identidade própria num quadro de partido único sem pôr em causa o sistema vigente. A assumpção vanguardista era mais do que visível num mar onde emergia o simbolismo, o surrealismo, o concretismo e alguma tendência romântica.

KIXÍMBULA
Em 1985, surge uma ‘‘corrente alternativa’’, num contexto adverso aos seus intentos, à margem do sistema monopartidário implantado ena sequência da ruptura estético-literária provocada pela geração que o antecede, o Movimento Cultural kixímbula, também designado por Canteiro Novo. Num plano dialogista com a geração de 50,na linha da revista mensagem, das suas tertúlias nasce a revista Archote, muitas vezes designado como movimento, na qual podemos encontrar os seus manifesto que vão desde a arte literária, a arte plástica e ensaios críticos. Destacam-se dentre muitos E. Bonavena, António Azzevas, Domingos de Nascimento, Rui Augusto, Dudu Peres, D’oriana, José Luís Mendonça, Lisa Castel etc. Poetas vanguardistas, de um simbolismo sublime, que por vezes se desenrola num simbolismo concreto, anulam na totalidade a narratividade que caracterizava os poetas do MNIA, trazem o verso imagético, reticente, com exuberante ornato como que de barroco se tratasse. Os homens da Revista Archote eram designados como a geração do delírio azul e segundo António Jacinto, depois de Mensagem e Cultura nada mais de importante tinha acontecido na história da literatura angolana, a não ser o Archote, o que nos demonstra a importância desse movimento que ganhou a sua legitimidade pela qualidade e diversidade da sua proposta estético-literária.

A TEORIA DO CAOS
Com o fim da fratricida guerra de armas, (?) que dizimou milhares de angolanos, a 4 de Abril de 2002, num ambiente de paz, de multipartidarismo, com uma democracia em ascensão, nascem num curto espaço de tempo muitos grupos literários.
De um filme, protagonizado por JasonStatham e WeseySnipes, chega-nos a teoria do caos: “várias partículas desordenadas encontram um padrão”. Feita uma análise profunda na nova vaga de poetas emergentes, a teoria do caos aplicar-se-ia a esta geração de poetas confinados nos mais variadíssimos Movimentos Literários que hoje existem por aqui. O caos resultaria de uma análise descuidada, com alguns fios de preconceitos, proprium do processo literário, em termos de contraposição geracional, apresentando-se-lhes, o tracejante andarilho, como que marcas de uma família de poetas sem direcção. Todavia, uma vez que a Brigada Jovem de Literatura, hoje mórbida, era o destino de qualquer jovem candidato a poeta, o padrão encontrar-se-ia, paradoxalmente, no processo de fragmentaçãogrupológico, iniciado pelo NUCEL (Núcleo dos estudos literários), e no surgimento sequencial de Movimentos Juvenis Como o Lev’Arte, o Clube Nacional de Poetas e Trovadores,o Movimento Litteragris (ex. Movimento Vianense),oGrupo Literário Requintal, o Berço Literário e outros que desconhecemos, mas importantes na dinâmica que se impõe.

GRUPO LITERÁRIO
REQUINTAL
Sublinha-se, que o Grupo Literário Requintal, fundado em 2001 terá surgido primeiro que o NUCEL e o Lev’arte, todavia, a retórica dos seus manifestos faz-se aos ventos, depois dos Movimentos acima referidos. Têm duas obras publicadas: uma antologia poética, intitulada Memórias Póstumas ao Tédio e a obra Maresia da autoria de OrlandoKingunzo, membro do grupo. Na antologia podemos encontrar uma combinação entre o texto literário e o texto pictórico, numa relação dialogista que ora transparece uma representação fiel dos dois sistemas semióticos, ora, relativamente ao texto pictórico, uma interpretação subjectiva de um artista surrealista que leu um poema e sugere uma proposta semelhante à margem daquilo que leu. Uma poética em construção com veio ideológico do classicismo ensinado na academia, algumas vezes mal interpretado talvez, porquanto pareceu-nos haver algum desrespeito às formas fixas relativamente a heterometria que superabunda em seus versos, construídos numa linguagem a tender para a linguagem natural.

NUCEL
O NUCEL tem na sua génese o GRANDE Jorge Macedo que congrega jovens, inicialmente na UEA e depois no Centro Recreativo Kilamba, gerando alguns artistas das letras conhecidos entre os jovens, dentre os quais se destacam Avô Ngola, Ngavutuka etc.

LEV´ARTE
OLev’arte,fundado a 20 de Julho de 2006, é um movimento cultural de âmbito nacional, criado por tempo indeterminado, com sede na província de Luanda e núcleos espalhados um pouco por todo país. Preocupados com o incentivo a leitura realizam diverso eventos tais como “Poesia eu vivo”, “Poesia à volta da fogueira” e ‘‘Conferência de Literatura’’. No âmbito da criação literária, o Lev’arte apresenta-se como um grupo heterogéneo. Heterogeneidade presente na antologia ‘‘Palavras’’ e na divergência estética entre os seus cultores individuais que já publicaram. Há uma Mira Clock que desabrocha numa linguagem na esfera da corrente naturalista, um Zola Vida que contempla o Invisível, ora num surrealismo com simbolismo simples, um KiokambaKassua com sorrisos simbolicamente moderado.

BERÇO LITERÁRIO
Do fenómeno ‘‘Redes Sociais’’ salta o Berço Literário, ciberneticamente conhecidos como movimento Poetiza, a 7 de Julho de 2013, com o lema dar Sonho a quem não sonha’’, um movimento com uma linha ideológica,idêntica ao do movimento Lev’Arte, com uma poética semelhante a do Requintal e a do Lev’arte, publicam a antologia ‘‘Poemas de Berço e Outros Versos’’, influenciado pelo SpokenWard, trazem a poesia dita, procurando causar um efeito empático ao público, ora através de crítica social e muitas vezes num erotismo questionável.

CLUBE DE POETAS
E TROVADORES
O Clube Nacional de Poetas e Trovadores (CNPT) surge em 2008 com um grupode estudantes da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Ensaios e análises de algumas obras de escritores angolanos, declamação de poesias e concursos para a descoberta de talentos para a trova são algumas das actividades que dominam o encontro, que acontece na sede da União dos Escritores Angolanos. O Clube tem vindo a publicar algumas obras, dentre as quais se destacam Pegadas do Passado de Carlos Pedro e a Antologia Raízes.A poesia instrictusensu do Clube não só recebe interferências de poetas das Brigadas e de poetas da geração de 70 como Botelho de Vasconcelos, como também de poetas internacionais como Fernando Pessoa, José Régio e tantos outros.

MOVIMENTO
LITTERAGRIS
O Movimento Litteragris (ex. Movimento Literário Vianense) nasce em 2010 para dar voz aos poetas Vianenses. A retórica dos seus manifestos começa a atravessar fronteiras e conquista jovens de outras circunscrições. É o primeiro Movimento Juvenil a definir uma poética comum, consubstanciada na fusão de escolas literárias angolanas com o surrealismo, concretizado através de uma linguagem algo simbólica.Publicará brevemente a obra ‘‘Em Cada Sílaba uma Cicatriz’’ de MussungoMoko e um artigo literário, intitulado ‘‘Agris Magazine’’; seguidamente a antologia poética ‘‘Ish, Versos da terra’’ e ‘‘Lunaticus, O Cidadão da Lua’’ de YbyndaKayambu ainda no decurso deste ano. O movimento procura pintar uma proposta estética diferente no quadro da literatura angolana.

VECTOR COMUM
Não obstante haver diferenças em termos de poéticas e organização, estes movimentos juvenis têm um vector comum: a Declamação.
Feito um estudo na nova produção literária, a partir de algumas obras já publicadas (em formatos de livros e poemas soltos no facebook), faz-se imprescindível incluir, no corpus literário, “o novo ser” que se criou, com o surgimento desses movimentos:
O Poeta-Declamador. Certamente, o leitor perguntar-se-ia o que é, na verdade, um Poeta-Declamador? Que motivações teóricas levar-nos-ia a tal conclusão? A nosso ver, evitando outros procedimentos de retóricas com o intuito de alargar o texto, não seria o Poeta-Declamador aquele que pensa o texto imaginando-se em palco? Consequentemente, o seu texto apresentar-se-ia com marcas profundas da oralidade, um alargamento textual propositado e por vezes com um conteúdo prosaico. Então! Não seria poesia o texto de um Poeta-Declamador? A oralidade não constitui uma marca na poesia tradicional angolana e africana em geral? Até que ponto o conteúdo narrativo anula o lirismo encerrado em um poema, reduzindo até ao grau zero a poesia contida? Ou estaremos diante de um novo fazer criação?
Todavia, é importante referir que nem todos se afirmam como Poetas-declamadores. Por um lado, há os que se querem legitimar apenas como poetas e evitam o discurso da palavra dita; por outro, há os que se vão afirmando como declamadores e poetas e os seus textos encerram as características apresentadas na abordagem do Poeta-declamador.

RUPTURAS ESTÉTICAS
Mediante a sequência diacrónica apresentada, podemos afirmar que o campus literário é uma passarela de rupturas estéticas onde desfilam as épocas. Aqueles que souberem inovar, revolucionando a arte literária nas suas variadas dimensões, irrompem as barreiras temporais. O corpus literário não é uma caixa fechada e intransponível, e sim um “jogo colectivo”. Aqueles que forem “outros” no seu tempo, tarde ou cedo acabam sendo substituídos. Seria inglorioso, a nosso ver, esperar que a plêiade de ilustres e respeitáveis poetas, confinados à União dos Escritores Angolanos, detentores do monopólio literário, deixasse de publicar para que a geração em constituição se afirmasse. Como arrancar o monopólio literário das mãos de uma geração mais madura, mais instruída e com um certo protagonismo sócio-político? Com os problemas do ensino de um país que ainda carrega no rosto os estigmas da guerra civil e outras crises?Com professores de Língua Portuguesa que ensinam no primeiro e segundo ciclos de ensino, sem conhecimento de Literatura, com o agravante de nunca terem lido pelo menos um livro de poema ou de romance?
HELDER SIMBAD

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos