"Histórias do avô Lusende": Padre Silvino Mazunga e a tradição oral Ibinda

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O padre Silvino Mazunga, um homem que ultimamente se tem dedicado à escrita, lançou muito recentemente em Cabinda o livro “Histórias do avô Lusende”, que retrata fábulas da tradição oral Ibinda, contadas pelos mais velhos e que contém lições de vida para a velha, nova e futura gerações.

Arlindo Isabel ao lado do autor

A Obra, com uma tiragem inicial de 200 exemplares, já à venda ao público cabindense, possui 49 páginas e foi editada pela Mayamba, com ilustrações de Fernando Hugo Fernandes.
As cinco fábulas, nomeadamente o Lyela Li Nkuvu (A esperteza do Cágado), Mangolo Ma Nzau (a força do elefante), Maswela Ma Ngando (Lágrimas do Jacaré), Ndiku Munu (amigo do prato) e Cincololo Meso Mandi M'situ (a perdiz só vive no mato), descrevem contos tradicionais da cultura de Cabinda, numa perspectiva didáctico-pedagógica para o resgate e a reconquista dos valores morais, cívicos e patrióticos do país.
Todas elas terminam com autênticas lições para a vida e fazem a delícia dos mais pequenos e dos mais graúdos.
A primeira fábula "Lyela li Nkuvu” (a esperteza do cácado) aponta a necessidade de se saber sempre com quem andar, o saber escolher as boas amizades, porque o amigo falso pode levar a pessoa até à morte. A segunda “Mangolo ma Nzau” (a força do elefante) ensina que o ser humano deve ser sempre bom e prudente, ouvir os bons conselhos, saber que em tudo a inteligência vale mais que a força.
Na terceira fábula “Maswela ma Ngando” ( lágrimas do jacaré) o autor explica como a hipocrisia é um mal nas relações sociais. Neste sentido, apela à lealdade, à honestidade, à transparência e à humildade na pessoa, bem como adverte ponderação na tomada de decisões sem precipitação, porque tudo exige calma e concentração. Na quarta “Ndiku Munu” (amigo do prato) se transmite o conhecimento de que, apesar da vulnerabilidade humana, todas as pessoas têm virtudes e defeitos.
Nesta fábula, o autor retrata igualmente que não se pode fazer mal ao próximo, devemos respeitar as coisas alheias e nunca nos apropriarmos delas sem autorização. Quem precisa de alguma coisa, que peça autorização. Deplora a mania das grandezas e aponta o caminho da sabedoria divina.
Na última estória do livro “Cincololo meso mandi m'situ” (a perdiz só vive no mato) ensina o saber ser e estar, advertindo sempre o outro para as surpresas da vida.

Reassumir os valores e tradições
O padre Silvino Mazunga afirmou no acto de lançamento que a presente colectânea de contos é um pequeno contributo para a vivência sadia de um povo, pois como referiu: “um povo sem cultura é um povo sem identidade, tal como um campo de jogos sem balizas e limites”.
Considerou ser importante reassumir os valores culturais e tradições que dignificam a população local sem complexos nem xenofobias. “Assumamos o que é nosso, a língua e as tradições sem nos fecharmos ao mundo e caminhemos lado a lado com outros povos. Façamos das tradições que nos dignificam, da cultura que nos faz dizer nós, um código de vida e de bem-estar para nós e as futuras gerações”, disse.
Preocupado com um mundo melhor, com uma sociedade humanizada, com a formação das novas gerações e os perigos e as debilidades que enfermam a tradição oral de Cabinda, o autor se propôs ao desafio de recolher alguns dados do reportório dos antepassados para escrevê-los em cinco fábulas.
O objectivo que motivou o autor a escrever os contos do “Avô Lusende” foi o de ajudar as novas gerações a terem o hábito e o gosto pela leitura, para além, de despertar nos jovens o interesse pela cultura e pela busca da vivência quotidiana dos valores que identificam a pessoa humana.
As fábulas do livro "Avô Lusende" fazem parte do imaginário que aponta lições de vida que se colhem da conduta para uma vida feliz equilibrada e justa, baseada no conhecimento humano, no respeito do próximo e no espírito de inter-ajuda.

Ensino das línguas maternas
A governadora de Cabinda, Aldina da Lomba Catembo, presente na cerimónia do lançamento do livro, que decorreu no anfiteatro do Instituto Politéecnico de Saúde, apontou que a obra vai contribuir para o resgate de valores culturais no seio da população, principalmente da camada estudantil.
Por esta razão, recomendou a Secretaria provincial da Educação, Ciência e Tecnologia a introduzir, no presente ano lectivo, o ensino da língua materna, já que as “Histórias do avô Lusende” contêm lições da tradição oral de Cabinda.
Arlindo Isabel, da editora Mayamba, referiu que o livro retrata aspectos do resgate da literatura oral ligados com contos da tradição oral, valores morais e cívicos, que conduzem o ser humano para os princípios de resgate de valores e do reforço do patriotismo.
Para o secretário provincial da Cultura, Euclides da Lomba, os conteúdos do livro vêm corresponder ao programa nacional do desenvolvimento da cultura, estabelecido para o período 2012-2017. Afirmou que os contos fazem parte da cultura local na passagem de testemunho, principalmente das cinco fábulas que o autor escolheu sabiamente.
Frisou que os provérbios são fundamentais para a comunicação e a resolução de problemas na vida tradicional. “Os contos têm a finalidade de educar e ensinar as pessoas a viver de forma pacífica", acrescentou, e finalizou dizendo que "este livro escrito em português e Ibinda serve como primeiro passo para a introdução do ensino das línguas maternas no sistema escolar”.

Leonor Mabiala | Cabinda

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