Institucionalização de uma disciplina

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Para compreender os fundamentos epistemológicos dos Estudos Africanos nos quais se inscrevem os Estudos Literários Africanos, importa interrogar-nos sobre o momento a partir do qual se constituem como campo disciplinar dando lugar ao processo de produção do conhecimento sobre o continente africano.

Numa abordagem histórica e comparada dos Estudos Africanos, enquanto investigação especializada sobre as sociedades e culturas africanas, a que também se designa por «africanismo», observa-se que eles são uma emanação das políticas coloniais da Alemanha, Grã-Bretanha, França e Bélgica, potências que disputavam a ocupação efetiva de África, procurando conferir à sua presença uma legitimação científica mais intensa, durante as duas primeiras décadas do século XX.

Foi na Alemanha onde, em 1910, ocorreu a primeira experiência de institucionalização académica dos Estudos Africanos, por ocasião da nomeação de Diedrich Westermann como professor do Departamento de Línguas Orientais na Universidade de Berlim. Seguiu-se a Grã-Bretanha consagrando esse domínio do saber com a criação do International Institute of African Languages and Cultures, em 1926, que passou a publicar a revista África.

O surgimento da School of Oriental and African Studies na Universidade de Londres, em 1939, substituindo a School of Oriental Studies, testemunha a existência de uma comunidade de investigadores, antropólogos e sociólogos, que realizavam já pesquisas em África. Em França, a investigação neste domínio adquire uma dimensão institucional alguns anos mais tarde, após a fundação da Sociétè des Africanistes em 1930.

Ora, é legítimo levantar questões acerca do carácter africano dos Estudos Africa nos e da unidade das suas disciplinas, tal como faz Paulin Hountondji. Ao esboçar as suas respostas, partindo do pressuposto de que a atividade científica em África pode ser qualificada como «extravertida» e «destinada a ir ao encontro das necessidades teóricas dos nossos parceiros ocidentais e responder às perguntas por eles colocadas», o filósofo beninense escreve:

Os chamados estudos africanos não só se baseiam em metodologias e teorias que se consolidaram em vários campos [...] muito antes de terem sido aplicadas a África enquanto novo campo de estudo, como é, de resto, comum, em instituições académicas e de investigação, encontrar esta matéria associada a outras disciplinas [...].

Portanto, é perfeitamente admissível discernir perspetivas radicalmente diferentes defendidas por Africanos e não-Africanos, no que diz respeito à semântica dos Estudos Literários Africanos e suas disciplinas.

Na organização institucional das universidades, os Estudos Literários Africanos constituem-se após a Segunda Guerra Mundial. Foi nas décadas de 40 e 50 que surgiram as primeiras universidades africanas do século XX. Mas a formação dos Estados independentes ocorre a partir da década de 60, obedecendo ao modelo ocidental e herdando as fronteiras e as instituições políticas das antigas potências coloniais.

A edificação de sistemas de ensino que pudessem incorporar conteúdos programáticos sem qualquer influência externa foi imediata. Em alguns países africanos as mudanças curriculares de matérias respeitantes às Literaturas Africanas ocorreram logo a seguir à independência.

É o que sucedeu com o Senegal, onde se realizou o primeiro colóquio consagrado ao ensino das Literaturas Africanas, em 1962. Na Universidade de Dakar assim como na maior parte das universidades africanas, a esta disciplina fora conferido um estatuto semelhante a outras disciplinas lecionadas, no âmbito da organização de departamentos autónomos (Kane, 1994:27-39).

Quanto ao ensino secundário, as Literaturas Africanas, sustenta Kane, foi introduzida de modo anárquico, sem métodos, sem programas. Numa perspetiva comparada, verifica-se que nos países africanos de língua francesa, o ensino das Literaturas Africanas nas universidades e nas escolas secundárias se consolida em princípios da década de 70. Por exemplo, a introdução de textos literários africanos (incluindo a literatura oral tradicional) ocorre apenas em 1972, após a Conferência de Ministros da Educação, realizada em Madagáscar.

Nos países africanos de língua inglesa, o mais expressivo sinal de mudança produz-se com um texto datado de 1968, subscrito por três autores originários da África Oriental, através do qual defendem a abolição do Departamento de Inglês na Universidade de Nairobi e a criação do Departamento de Línguas e Literaturas Africanas (Wa Thiong'o, 1982:145-150).

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