Jacques Arlindo dos Santos Ngueri-hi? – Maka da grande família

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Nghéri-hi?, fala da génese de um dos lugares mais angolanos que integra também o projecto complexo da constituição da Nação Angolana em constante processo de formação e armação.

Escritor e presidente da Associação Chá de Caxinde Fotografia: Jornal Cultura

A Caxinde-Editores e Livreiros apresentou ao público luandense, no passado dia 17 de Agosto, as duas últimas obras de Jacques Arlindo dos Santos, Nghéri-hi? - Maka da Grande Família e 101 Crónicas Deste e de Outro Tempo".
Júlio de Almeida (Jujú) leu e apresentou Nghéri-hi?, “sobre a génese de um dos lugares mais angolanos que integra também o projecto complexo da constituição da Nação Angolana em constante processo de formação e afirmação. (...)
Nesta saga gigantesca fala-se do Libollo. Quem nunca lá esteve, quase não precisa de lá ir. Ao ler estas densas páginas está-se lá. Paisagens deslumbrantes de florestas, de pedras de formatos originais, de rios e riachos abundantes, de frutas, de cheiros e de sons são magistralmente apresentadas, descritas ao pormenor, e surgem como que autopsiadas e dissecadas em inúmeros detalhes para deleite de quem lê. E não esqueço as gentes, os que ali viveram e vivem, (...)
personagens como a do patriarca Manuel Jorge, com quem tudo começa, como a do sempre presente Xiku dyá Xiku e a sua arte de sobreviver que o vai transformando de luandense em libolense, vai acompanhar a liderança de Francisca Catarina, a primeira mulata nascida no Libolo. E (...) a beleza de quase todas as personagens femininas que agraciam inúmeros parágrafos que nos incitam a conhecer este fenómeno estético, micro localizado naquelas áreas libolenses. (...)
O que tem NGUERI-HI? O que falta a outros lugares? Falta-lhes um Jacques Arlindo dos Santos! A título de constatação e provocação também, só tenho conhecimento de outro lugarejo (palavra de vingança) com semelhante potencial: o Golungo Alto. Mas falta-lhes ainda um documento escrito como o que
hoje nos é dado a conhecer pelo amigo Jacques. Suspeito que no Planalto Central existem também localidades que, se houver alma para tanto e disso resultar relato circunstanciado, poderiam servir de valioso contributo à compreensão do edifício nacional que se vai construindo.
Embora impressionado com os acontecimentos narrados e que se desenvolveram naquelas áreas do Cuanza Sul, com centro em NGUERI-HI e que remontam a tempos mais antigos, não deixa o autor de apresentar fenómenos e situações que ocorreram em tempos que muitos de nós, os mais antigos, ainda os vivenciaram: os tempos do neo-nacionalismo, da resistência armada ou clandestina e finalmente os tempos da Dipanda e dos problemas e outras MAKA que estamos e, ao que parece, estaremos com elas. Os relatos que este livro contem estendem-se até aos dias do capitalismo selvagem e de pilhagem que enxovalham o tecido e a memória nacional, passando pelo saudoso e quimérico projecto de socialismo, para o qual faltaram as fundações e diligentes operários que o pudessem erguer.
Também neste relato o autor não escamoteia o fenómeno da mestiçagem. Inevitável! Segundo consta, só o patriarca Manuel Jorge terá (exa)gerado cerca de cinquenta mestiços! Fruto de relações originais injustas? Quase sempre! Mas presentes! Não vou cair na imbecilidade que levou a que em tempos recentes se tivesse considerado a mestiçagem como uma raça e se tivesse legislado a sua introdução no bilhete de identidade nacional. Corrigiram o que estava mal, mas neste caso, bem se pode dizer "mais vale o nunca que o tarde". Embora como agrupamento humano os mulatos sejam tão heterogéneos como qualquer outro grupo, com elementos positivos e outros também de conduta negativa, não deixam de ser um elemento importante da vida, dos sucessos e insucessos desta mesma vida, actores de valor na gestação nacional. São racistas? Conheci alguns. Outros que também conheci e conheço eram ou são negros, brancos ou matizados dos mais diversos tons. No geral, oportunistas, mas sempre representando o que de pior se pode encontrar no ser humano. Diria que um ser racista ainda nem sequer descobriu que também é gente I
(...)
Por opção do autor, o livro está polvilhado de muitos termos, expressões e provérbios que aparecem na língua original, o Kimbundu. Alguns destes termos tornaram-se já habituais na linguagem de comunicação do dia a dia, mas outros aparecem agora, por direito próprio, e constituem-se, de per si, no sal, na pimenta e no jindungo que conferem um prazer e um gosto especial a toda a narrativa que nos é oferecida.

JACQUES TOU AQUI

Ao jornalista Reginaldo Silva coube a tarefa de apresentar o outro livro de Jacques dos Santos, “recheado com as suas melhores crónicas, num total de101, que ele teve a pesada e solitária responsabilidade de seleccionar entre todas aquelas que já publicou nos nossos jornais e revistas ao longo das últimas mais de três décadas.” São “crónicas de um livro que (...) acaba por nos oferecer, na sua sequência cronológica, que tem início em Setembro de 92 (uma data a todos os títulos simbólica) e se prolonga até Maio de 2012, parte deste levantamento em capítulos dinâmicos que correspondem aos títulos de cada uma das 101 crónicas que aqui renascem para muitos de nós que tomamos contacto com elas no seu berço original, mas que de certeza hoje só teremos já uma vaga ideia do seu conteúdo e muito particularmente do nome de uma das colunas, por sinal a mais emblemática, que o autor manteve no Jornal de Angola durante alguns anos. Estamos a falar do "Jacques tou aqui", que acaba por integrar o extenso nome da presente obra e que acabou por ser uma espécie de simpática alcunha com que o autor era tratado pelos seus mais próximos, onde me incluo. (...)
As 101Crónicas Deste e do Outro Tempo, de Jacques Arlindo dos Santos, é um livro que se recomenda por várias razões, todas elas convergentes para um mesmo ponto geográfico, chamado país real. (...) Nas crónicas do Jacques temos pois a possibilidade de revisitar sem outras barreiras bem conhecidas ao nível particularmente da auto-censura, este país real nas suas partes mais gagas, mais íntimas, mais complicadas, mais sensíveis, onde o destaque vai, nomeadamente, para a questão da coabitação racial, se é mesmo disso que se trata, numa sociedade que, pelos vistos, ainda nem sequer terminou o processo de descolonização, tantos são os fantasmas do passado que nos continuam a atormentar e a condicionar.”
Acrescentou ainda Reginaldo Silva que estas crónicas falam-nos “de um tempo que nos é bastante familiar, mas também levando-nos com recurso ao flash-back para tempos mais distantes que têm a ver com a infância e a juventude do autor na sua Calulo natal, "onde as rãs ensinaram os sapos a chorar", que é um enigmático provérbio africano que o autor coloca a rematar uma das suas crónicas, a semelhança do que faz com todas as outras, com recurso quer a provérbios, quer a comentários de gente importante e clarividente que ao longo dos séculos marcou a história pela via da sua sabedoria e competência.”

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