Jaka Jamba e as ditas “línguas nacionais”

Envie este artigo por email

Não se esgota o discurso à volta da qualidade das aprendizagens, sem que, ao nível micro-sociológico, se estabeleça um debate construtivo sobre a qualidade comunicacional do diálogo pedagógico, estando o mesmo dependente da definição de uma política linguística coerente, a ser estabelecida pela Assembleia Nacional, que não subvalorize a existência de uma sociedade multicultural e plurilingue.

Não se esgota o discurso à volta da qualidade das aprendizagens, sem que, ao nível micro-sociológico, se estabeleça um debate construtivo sobre a qualidade comunicacional do diálogo pedagógico, estando o mesmo dependente da definição de uma política linguística coerente, a ser estabelecida pela Assembleia Nacional, que não subvalorize a existência de uma sociedade multicultural e plurilingue.
A bem da verdade, a língua portuguesa, como língua oficial e de escolaridade, não coopera com as outras línguas de convívio, nomeadamente, com as maternas de origem africana. Todavia, no contexto da protecção do acervo linguístico e de uma educação intercultural direccionada para a paz, bem como para o estabelecimento de uma relação dialéctica entre a escola e a comunidade, entre a escola e a família, tal se faz necessário. Dizia o falecido Prof. Celso Cunha, gramático, filólogo e ensaísta brasileiro, que “a estagnação é a morte do idioma. A história de uma língua é justamente a história das suas inovações.”
No dia 23 de Junho de 1998, em Lisboa, mais precisamente, na antiga sede da CPLP, tive a oportunidade de entrevistar, para a minha dissertação de mestrado, o Dr. Almerindo Jaka Jamba, à época, membro da Comissão Directiva da UNITA, Deputado da Assembleia Nacional e, mais tarde, Embaixador do Angola na UNESCO. A questão em jogo que motivou a realização desta entrevista,relacionou-se com a inclusão (ou não), das chamadas “línguas nacionais” africanas no sistema de educação e ensino angolano. Passemos então à sua resposta e a demais considerações, tal como consta na publicação da minha dissertação de mestrado, publicada sob o título: “Angola: Trilhos para o Desenvolvimento” e editada, em Lisboa, pela Universidade Aberta:
«(...) O debate da problemática de se preservar, de se valorizar o património linguístico africano em Angola e até mesmo, talvez, vamos ao ponto de não pensarmos só na preservação e na valorização... eu direi mesmo, que agora lutamos para conferir um Estatuto às nossas Línguas. Há uma terminologia bastante consagrada às ditas “Línguas Nacionais”. Mas afinal, a serem “Nacionais” que Estatuto têm? Eu penso, que esta problemática pode ser abordada a vários níveis. Naturalmente aqui há preocupações mais voltadas para o Sector da Formação, da Educação... mas há ainda uma dimensão, diremos mesmo, que já levanta questões da nossa própria soberania. Que Línguas é que os Angolanos falam? Que Estatuto é que têm? O que é que confere à Língua Portuguesa, que nós herdamos da colonização e que naturalmente ficou em Angola... portanto, porque não conferir também, a algumas línguas de grande comunicação em Angola o Estatuto de Línguas Oficiais? E a serem também oficiais, então quais são as atribuições específicas que vão ter, para se tornarem mesmo oficiais? Eu direi que, no meu entender, o debate ainda merecerá ser aprofundado. É verdade que para problemas tão estratégicos como é o caso da língua..., não nos esqueçamos, que há historiadores, que sustentam que da grande civilização bantu, as grandes relíquias que ficaram: ficou o tambor... Ficou a teatralização da dança e ficaram as nossas Línguas. E quando se trata de Línguas Africanas, em Angola, mormente as línguas Bantu, são as línguas que, segundo o estudo feito pela UNESCO sobre línguas ameaçadas no Mundo, as nossas também se encontram incluídas. Eles consideram-nas línguas autónomas embora sem grande expansão. Ora, daí surge esta preocupação, de conferirmos, seriamente, um Estatuto legal às Línguas. As declarações de intenções no discurso político, de preservação e de valorização, nós ficamos muito agradecidos, mas pensamos que isso só não basta porque, mesmo para descolonizarmos o angolano em termos de complexo linguístico, ainda se passa, necessariamente, pelo Estatuto a ser conferido às nossas “Línguas Nacionais”. E diremos que em termos de defesa das Línguas, muitas vezes há correntes que conotam a defesa dessas Línguas Africanas com um certo chauvinismo, outros até com uma certa ingenuidade – afirmando que são línguas que à primeira vista parecem não criarem pontes para o mundo moderno – mormente faz-se a globalização crescente, levando alguns a falarem de forma irónica do tal inglês que é veiculado pela Internet..., mas nós pensamos que num Mundo onde de facto existe a globalização, tem de haver necessariamente espaço para a afirmação das nossas identidades nacionais. E as Línguas são de facto, no nosso caso, sobretudo, uma das relíquias que deverá merecer, não só a preservação, não só a valorização, mas conferir-lhes um Estatuto legal, para poderem ser inseridas no ensino. E quando falamos no ensino: primeiro, terá que haver um debate amplo a nível nacional, para consagrar esse Estatuto de legalidade... eu até iria mais longe... não pretendendo talvez imitar o exemplo sul-africano ... mas é na nossa Constituição, junto dos símbolos nacionais, que a questão das Línguas devia ser consagrada, para depois passarmos já, a um debate de pedagogos, sociólogos, educadores..., no sentido de vermos então, como é que nós vamos inserir no ensino e como é que vamos numa certa medida, balançar e equilibrar melhor a questão do ensino do Português, de um lado e, do outro lado, das “Línguas Nacionais” africanas.Ainda neste debate tínhamos ainda de ver, como é que, num país multicultural e multilíngue, vamos abordar a questão, que línguas deverão ser ensinadas e para que crianças? Para dar um exemplo prático, eu participei de uma experiência-piloto no Kuando Kubango, onde se tinha levantado muito seriamente, a questão da inserção das línguas africanas na escola..., mas nós tivemos algumas áreas onde havia dois, três, quatro grupos etnolinguísticos presentes (…)».
Embora o entrevistado não o tenha afirmado, depreende-se que esta experiência piloto tenha sido efectuada na Jamba, ex-Quartel General da UNITA, antes da realização das primeiras eleições livres e democráticas realizadas em Angola, em 1992.
«(…) E a política que queríamos adoptar nessa experiência-piloto, assentava na obrigatoriedade de aprendizagem de, pelo menos, uma língua africana. A conselho dos pais, o aluno era orientado para uma das línguas mas, quando houvesse mais de cinco ou seis amostras de crianças originárias de diversos grupos etnolinguísticos, devia de haver no mínimo três, a serem seleccionadas em função da percentagem da origem etnolinguística dos alunos. O que quer dizer, se tivermos numa área, onde exista o Kimbundu, o Umbundu, o Nganguela, o Cokwe, o Kuanyama… devíamos escolher só três e haver opção para essas três, de acordo com a orientação dos pais. Levanta-se também a questão, com que língua começar? Há a questão dos alfabetos. Por um lado temos o alfabeto latino, por outro lado temos o alfabeto bantu com toda a problemática de dígrafos, etc., etc... Então é preciso ver com que alfabeto e com que língua materna começar. Tanto uma como outra dão para o começo, só que não pode haver colisão. Portanto, de acordo com a experiência que tivemos, só depois do terceiro ano de escolaridade, a consolidar-se o alfabeto em Língua Portuguesa, é que passamos a dar a Língua Africana, já com uma vantagem. Como a base alfabética de princípio é quase a mesma, então era só os acréscimos e também com a contribuição dos professores mais apropriados para preservar o acento, porque para se estudar uma língua tem que se observada a sua fonética, fonologia, etc. De maneira que, como primeira aproximação desta problemática, eu queria sintetizar o meu pensamento: Devemos ultrapassar o debate de preservar e de valorizar as línguas. Mas sim, de pugnarmos e consumarmos o Estatuto legal para estas línguas. Esta problemática deve ser amplamente debatida a nível nacional, porque envolve todas as sensibilidades e, para qualquer programa deste peso, a não envolver as partes representativas, são programas que estão condenados ao fracasso, quer seja para um objectivo de ensino, quer seja para um objectivo dos média, quer seja para um objectivo político, quer seja para um objectivo, no fundo, do desenvolvimento, porque nós não podemos criar projectos de desenvolvimento nos nossos países [africanos], se nós não conseguirmos transmitir, àqueles que executam esses projectos, nas línguas em que eles falam. Eu tenho uma experiência política muito interessante... e temos grupos angolanos alguns até não tão maioritários, mas que têm um orgulho da sua personalidade cultural, que é uma coisa extraordinária. Eu refiro-me ao exemplo dos Cokwe. Quando estivemos nas guerrilhas..., você não mobiliza um Cokwe se não for através da sua língua. Não passa a mensagem, sem ser através da língua e da cultura. Muitas vezes com um provérbio, já tem meio caminho andado, porque é através dessas formas de pensamento, que se transmite as ideias e que se pode passar a verdade. São experiências...Eu estava a sintetizar.., por outro lado, a questão da inserção no ensino, nos média e noutros sectores da actividade, eu, para mim, seria a consequência desta grande etapa. Eu penso que é o desafio maior, que não só Angola enfrenta mas também outros Países de Língua Oficial Portuguesa (...). Uma coabitação entre as “Línguas Nacionais” e o Português não só é possível, como é mesmo necessária. Subscrevo inteiramente Amílcar Cabral, quando este dizia que o Português foi a herança mais preciosa que tivemos da colonização. O Português chegou às nossas terras, o Português ficou nas nossas terras e o Português está a ser enriquecido nas nossas terras. O Português ficou. Agora o problema maior que temos, no caso de Angola, que é talvez onde eu tenho maior autoridade para falar, é que, muitas vezes, alguns falantes de Língua Portuguesa, que tiveram o Português como língua materna, eles pensam que a afirmação da angolanidade, passa pelo domínio sofisticado da Língua Portuguesa, quase a tentarem aproximar-se do padrão alfacinha. Não é necessário. Não só não é necessário como não é possível. Porque o verdadeiro Português africano ou angolano, se me permite a expressão, será mesmo aquele Português, que vai resultar... e vai ser a variante angolana do Português. Esta é que vai ser a nossa contribuição para este passo da Lusofonia. E não o mimetismo muito apegado à norma. Vemos o caso brasileiro (...) A coabitação é possível. Mas uma coabitação, que se tem que equacionar num contexto novo. Num contexto em que já não haverá, nem vamos criar complexos, àqueles que só entendem Português e não o falam, porque não é culpa deles; mas também, por outro lado, não cairmos naquele regionalismo tacanho, de cristalizarmos nas nossas Línguas e não utilizarmos o Português, para criarmos pontes para o mundo moderno. E está provado que as sociedades mais livres e talvez mesmo as sociedades do futuro vão assentar em bases multilíngues e multiculturais e não o contrário.»
Esta entrevista,foi feita num período difícil da nossa história, já que, politicamente, eu e o Dr. Jaka Jamba nos encontrávamos em lados opostos. A guerra civil em Angola era um facto e eu exercia uma missão diplomática na Embaixada de Angola em Portugal. Contudo, do ponto de vista cultural e didáctico-pedagógico, tínhamos as mesmas preocupações.
Cerca de uma ou duas semanas antes de falecer, encontrei o Dr. Almerindo Jaka Jamba numa conferência sobre educação, no Memorial António Agostinho Neto e tive a oportunidade de, na sua presença, contar publicamente esta história e manifestar toda a minha admiração pela sua pessoa e pela sua postura académica. Já eramos confrades na Academia Angolana de Letras e foi com enorme satisfação que tomei conhecimento da Menção Honrosa que lhe foi atribuída, no âmbito do Prémio Nacional de Cultura e Artes de 2018. Foi merecida, sim. Mas sinto que sabe a pouco.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos