Janelas de Orvalho de Graça Arrimar

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Uma obra literária é memória, mas também imaginação, mais ainda quando de poesia se trata, na medida em que a poesia não é o espelho que reflecte a imagem tal qual ela é.

Aqui estamos  A palavra vem-nos húmida dos bosques E um frio ardente nos amanhece entre as veias .O punho é forte e segura o remo. Nicolas Guillén
A autora Graça Arrimar (à esquerda)

No espelho olhamo-nos, vemo-nos não como gostaríamos de ver-nos, mas tal como ele nos mostra. E o que o espelho nos mostra é a realidade. O espelho, ao contrário da poesia, é desmitificação. O espelho desencanta-nos; com a poesia encantamo-nos, tornamo-nos alados e navegamos nas asas do mito. O poeta, no acto da criação, é o Prometeu Libertado que oferece, com a sua, a nossa libertação. Ele, o poeta, liberta-se criando; nós, os leitores, libertamo-nos com ele lendo-o e sentindo, cada um à sua maneira.
A poesia atravessa o espelho e é lá, do outro lado, que com ela nos encontramos. Não é a realidade minha, mas a realidade outra que a mistificação transfigurou. A poesia é dádiva que evoca e emociona.
Assim é também neste livro. Lê-lo é encontrar a realidade transfigurada pela liberdade de criação, pelo sentimento, pela emoção, pelas marcas das experiências… pelas vivências, ou seja pelo acervo invisível e imensurável que se oculta no invólucro físico: o corpo. Lê-lo é entrar num mundo sonhado por outro e recriarmos esse mundo pelo simples acto de ler. Esse mundo sonhado por outro não é o mundo de Graça Arrimar, é o mundo sonhado pela poetisa que se veste de G.A. É criação artística, para a qual não se conhecem limites!
A palavra poética é sugestiva. Entre o dito e o silêncio, a poesia é o silêncio que fala, mas cuja voz nos cabe saber escutar, perceber, apreender.
É assim que, neste livro, como nos anteriores (por ordem: Nos braços do vento, 2000 e Viagens de sal e de mel, 2003), a poetisa persiste no verso curto, no caminho da palavra contida, evocadora de muitos tempos,/neste tempo confuso em que me movo:/tempo do que fui e já não sou,/no tempo em que fui e sou de novo… A poesia exige da poetisa um esforço para a viagem de regresso a si própria, para reapossar-se e recuperar o seu rosto e é nisto que a poesia de GA encontra a sua grande dignidade. O silêncio é o lugar da reconciliação e as suas palavras são o lugar desse silêncio.
Ao citar este poema de A.Veiga, a poetisa define o seu percurso: identificação-mudança-reencontro. E auto define-se assim: Sou folha redonda/de um munthiati/que cresceu habituado/às rebeldias da infância./Trago ainda comigo/fortes sensações/ que dia a dia gravei./Folha pequena e redonda/solta à pressa/embrulhei as lembranças/lancei-me ao vento/e encontrei um lugar/noutra copa qualquer/quem sabe…/um munthiati diferente. (poema XXIV).
Não há desenraizamento, tão somente a aceitação de que a identidade se não perdeu, mas não pode evitar o resultado dos novos caminhos percorridos: não se chega ao meio, que é onde a A. se encontra agora, igual ao que se era no princípio: Nada permanece que não seja/para a necessária mudança (M.Rui) . Por isso, ela continua folha redonda/de um munthiati, mas de um munthiati diferente.
E se na primeira parte deste livro há as marcas da permanência e do reencontro, na segunda parte as marcas são as da mudança. Na verdade, o escritor, o poeta nunca o é sozinho: é ele e as suas circunstâncias: individualidade específica, irrepetível, mas também personalidade colectiva e histórica. Disto não é possível fugir. A literatura estabelece, por um lado, relações com a realidade, com o mundo, mas ultrapassa-os; com o contexto físico e humano onde cada um está inserido e, por outro lado, com o criador da obra.
Esta poesia reflecte, pois, o caminho andado.
Pela palavra poética, a poetisa ouve de novo cantar das mufikuenas, e revê as cores da samacaca. Escolheu mesmo, para ilustração da capa do livro, um retalho de samacaca: de novo a identificação, o reencontro, depois da mudança. G.A. assume em pleno as origens ao ponto de voltar a transpirar/pelos carreiros do quintal/ húmidos do suor/dos meus pés descalços (poema II, Transpirar a Terra).
Transportada pelas asas da memória, tanta memória/ que lhe não cabe no peito (poema IX, Lubango), e transborda para a poesia, a poetisa regressa à Terra. Mais: funde-se com a Terra e regressam juntas:
Nos carreiros do mato/ eu viajo…/acaricio o corpo/das árvores/na minha lembrança/sentindo/ a juventude/no estalar das folhas/de cada ramo./Enterneço a mente/nos rubros matizes/de fim de tarde/filtrando a imagem/no brilho negro/dos meus olhos./Danço entre as gotas/de água tépida,/pois é de chuva/o tempo de Janeiro./Venço a distância/e num abraço/ a terra se estreita/e volta comigo. (poema VI, O Regresso à Terra).
As raízes estão fundo: na terra, na infância, nos antepassados, nas amizades, na natureza, no Natal…: Guardo os lugares/de tantas meditações/também os percorro/para sorver/ o que os alimentou. (poema XXXII, A terra).
Poesia de entrega a tudo. Poesia de gratidão. Poesia a devolução a tudo o que recebeu da Terra, das gentes do ambiente, dos amigos.
Em GA, “a poesia acontece na mais ínfima das coisas”: nas mágicas bonecas/de sabugo de milho (poema I, Dona do mundo); na primeira manga/de bico torto (poema II, Transpirar a terra); no tom azul/dos catuites em festa e no cheiro/dos minhagoleiros/tingidos de vermelho (Poema X, Chibia); no Jogo da macaca (poema XXV);nas matipatipas (poema XIV, Segredos); nas tabaibeiras em flor (poema XVIII, Adivinhar); no tempo de colheita, quando as benguelinhas /embalam as canções das mufikuenas (poema XIX, Tempo de colheita). Esta imagética que cheira à terra chega-nos através de lexemas colados ao nosso chão e enchem a sua poesia de cor local, de húmus telúrico, de cheiro do mato, de brincadeiras da infância, da prata do luar – este luar de lua cheia que em mais lugar do mundo encontramos. Não há terra melhor do que a nossa!
Um dia/parti sem saber/o caminho de voltar/e ainda aqui estou: isto escreveu GA num poema do seu segundo livro. No mesmo livro e noutro poema refere a angústia nascida de uma procura que não encontra: Corro para lá…/ os caminhos estão mais perto/mas não os encontro./Corro para lá… as vozes chamam-me/mas não as distingo. /Corro para lá. /os deuses são outros/não me conhecem./Corro para lá…/à espera do momento/que nunca chega. Corro para lá. (Poema 46, Corro para lá). E fecha um outro poema com a pergunta: Mas a Terra onde está?
A terra está aqui, Graça. Nós estamos aqui! A mulher e a poetisa que hoje nos convoca e desafia para a leitura do seu livro reencontrou-se, pela poesia deste terceiro livro. Nele não há nenhuma interrogação. Só certezas do que foi e do que sempre será: uma filha neste chão parido, que aqui enterrou o seu umbigo e onde fica o nosso umbigo ficam as nossas raízes, o nosso coração. E ela promete à Senhora do Monte um amor eterno (poemaVII). Graça Arrimar respira, de novo,/ o planalto/sustidamente .(poema IV).
Graça Arrimar voltou a tudo o que nunca perdeu. Serena e reconciliada. Como ela própria diz, num poema dedicado Aos amigos reencontrados na Huíla: o vento chegava manso/segredando ao meu peito/histórias de amor (poema XII, Rosas de Porcelana). Quem recebe amor não sabe o que é a angústia. Está em paz com a vida e ama-a. Muito mais quem dá amor: o amor não tem tanto a ver com o que vem, senão com o que vai; não com o que se recebe, senão com o que se dá. O amor é altruísta, generoso. E GA dá-se por inteiro, e repito A. Veiga: a tudo o que foi e é de novo.
GA regressa: não a lamentar o que perdeu, mas a assumir o que viveu. Ela guarda e percorre os lugares onde meditou (poema XXXII, A terra). Dela se poderá dizer com Shelley que a sua poesia é o registo dos momentos mais felizes, de um melhor e mais feliz espírito.
Mas sonha também: Se eu voltasse/ a ser criança/escolheria/ a minha cama/ de madeira escura/ e mosquiteiro alto,/ o meu quarto/pequeno/como os brinquedos/tropeçando/nos sapatos/de salto alto/ onde mergulhavam/os meus pés/de princesa/em conto de fadas./Uma criança/vestindo/cada manhã/nova personagem. (poema XI, Desejo de criança).
Ela volta pelo sonho. Mas o que é a vida se não um percurso de sonhos?    “A gente sonha acordado/Sonhando a vida percorre/E desse sonho acordado/Só desperta quando morre.” (A. Aleixo).
Só a morte suprime o sonho. Enquanto isso “pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos” (S. da Gama)… mas vamos!    
Este livro comporta 96 poemas, organizados em duas partes. Uma com 37 poemas, outra com 59, todos eles titulados. O título do Livro é também o do último poema. Dedica-o a todos os que cultivam os caminhos da poesia em LP. Cada parte abre com poemas ou com excertos de poemas de alguns desses todos, no que podemos entender como uma homenagem, mas também, talvez, como a aceitação de alguma influência. Coteje-se a este propósito o poema XLV com a quadra de C.M., uma das autoras com que a poetisa introduz a 2ª parte. Refira-se ainda que no conjunto dois escolhidos, três poetas ligam-se a nós por outras relações que não as exclusivamente poéticas: Amélia Veiga, Paula Tavares, Jorge Arrimar.
Mas se, na primeira parte o discurso poético é feito de regressos, passado revivido em presente através do acto de criação, na segunda parte é rasgado ao presente. A primeira é uma revisitação, a segunda é um retrato actual, que no futuro será também passado.
Duma temática inicialmente muito pessoal, a autora transita para temas muitas vezes mais universais. Poder-se-á dizer que a primeira parte não se continua na segunda. Quero dizer com isto que, se na primeira parte os poemas constituem um conjunto homogéneo pelas afinidades de conteúdo que apresentam e disto falar em temática, o mesmo já me não aprece tão linearmente possível na segunda parte. Os poemas, de um modo geral, não se continuam, cada um assume um conteúdo que não é repetição, nem continuidade.
Nem por isso se deixa de ir encontrando afinidades, por exemplo, em definições que a poetisa dá de coisas de que a vida é feita: a fugacidade do tempo (poema XLI), a angústia (poemas XLVII e LVII), o desânimo (p. LVI), destino, inquietude, preconceitos, injustiça, dicotomia amor/desejo…
Alguns títulos ligam a poetisa a coisas do seu viver recente (Um cais no ocaso (poema LXVI) Janelas abertas sobre Lisboa.
Vai longo este arrazoado. A culpa não é minha. De quem mais poderá ser? É: a poesia da Graça absorve-me, preenche-me e nem o tempo sinto passar. Vou terminar, pedindo-vos que leiam o livro, que sintam a poesia da Graça, esta criação de beleza através das palavras.
Quanto a ti, nossa poetisa, nossa amiga, quero dizer-te em nome de todos os que te amamos:
Aqui estamos!

Agnelo Carrasco 

Lubango, 29-03-2014 e Chibia, 04-04-2014

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