Jean Hebrard historiador francês: "Um escravo tem só um primeiro nome".

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Conheci Jean Hébrard no Arquivo Histórico Nacional. Diretor do CRBC - Centro de Pesquisas Bretão e Céltico da Escola de Altos Estudos em Ciências Económicas da França, este homem cordial, de pele tisnada pelo sol, começou por dizer: "A minha especialidade é a história de Cabinda. Sou principalmente um especialista do Brasil. Quando você fala da história do Brasil, você tem de falar infalivelmente sobre a história de África, e há dois lugares muito importantes, o golfo do Benin, que tem uma relação muito profunda com Salvador da Bahia, e aqui, Angola, que tem uma relação muito importante com o Rio de Janeiro. Aqui vamos pesquisar os factos do passado, principalmente a partida dos escravos. O que acontecia aqui, no momento da captura, da inscrição, da relação com as mercadorias de troca, etc."

 

Conheci Jean Hébrard no Arquivo Histórico Nacional. Diretor do CRBC - Centro de Pesquisas Bretão e Céltico da Escola de Altos Estudos em Ciências Económicas da França, este homem cordial, de pele tisnada pelo sol, começou por dizer: "A minha especialidade é a história de Cabinda. Sou principalmente um especialista do Brasil.

Quando você fala da história do Brasil, você tem de falar infalivelmente sobre a história de África, e há dois lugares muito importantes, o golfo do Benin, que tem uma relação muito profunda com Salvador da Bahia, e aqui, Angola, que tem uma relação muito importante com o Rio de Janeiro. Aqui vamos pesquisar os factos do passado, principalmente a partida dos escravos. O que acontecia aqui, no momento da captura, da inscrição, da relação com as mercadorias de troca, etc."

Como o leitor já se apercebeu, estive a conversar com um pesquisador das rotas da escravatura, que, aliás, tem já um título publicado nos Estados Unidos, que se chama "Freedom Papers" (Documentos da Liberdade). "É um livro sobre a história de Rosalie, da nação Poulard, uma escrava capturada no Senegal, deslocada para Santo Domingo, ilha francesa. Ela chegou a esta parte, alguns anos antes da revolução haitiana. Foi testemunha direta da revolução haitiana.

Mais tarde, foi para Cuba e aí conseguiu criar uma família totalmente nova, que continua até hoje, tem seis gerações, ela era a grande matriarca. Família essa toda ela descendente de escravos. Antes de partir de França, encontrei uma descendente dessa família no Sul da França. É incrível! O nome dessa família é Tinchant. Como é um nome pouco usado, pouco comum, torna-se muito fácil pesquisar o seu passado, a sua árvore genealógica", me disse Hébrard, com aquela paixão histórica que o envolve.

O nosso interlocutor prossegue: "Aqui no Arquivo, o material é fantástico, a minha pesquisa fundamental agora é procurar entender melhor a questão do nome do escravo. Porque, a primeira coisa que acontece, quando você é capturado, é perder o seu nome. Você é imediatamente batizado e tem de engolir o novo nome e uma nova identidade, que é uma identidade cristã. E uma coisa que constatei claramente é que um escravo tem só um primeiro nome. Jamais um nome de família. A família não tem valor, você é João, ilho de Joana, ou Maria, filha de Ana, mas você não é nunca João Silva, você é apenas João”.

Uma outra questão que muito o interessa, é de saber o que acontece com os escravos alforriados. Como eles reconstruiam uma identidade nova, durante a escravidão, depois da escravidão nas Américas e também aqui, no continente africano. "Porque aqui também houve muitos escravos que foram alforriados e tiveram de reconstruir uma vida nova. A questão central da minha pesquisa é a questão da identidade. Ser capturado, com um novo estatuto, uma nova condição, estou muito interessado em conhecer a situação da escravidão do ponto de vista do mercado", concluiu Hébrard.

Jean Hebrard realizou ainda uma palestra em Benguela, com o apoio do historiador Simão Souindoula, sobre o tema da rota da escravatura.

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