John Bella apresenta na UEA "O Regresso da Rainha Njinga"

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Njinga assume-se como a líder que traçará o caminho da Libertação de Angola

John Bella tem-se destacado pela sua dedicação, persistência e sacrifício na missão de promover e fazer literatura em Angola, em especial nas áreas da poesia, declamação e historiografia tradicional e por outro lado, pelo seu empenho em impulsionar novos valores literários com o objectivo maior de instituir uma angolanidade indispensável ao desenvolvimento.

Conheci John Bella no lançamento do meu livro e desde então me interessei pela obra deste autor: Água da Vida, Panelas Cozinharam Madrugadas, A Canção Mágica, que repetidamente me disseram estar esgotados.

Durante o percurso desta amizade literária acabei tendo a oportunidade de ter pela primeira vez em minha mão uma obra do autor: Os primeiros passos da Rainha Njinga e agora o segundo, O Regresso da Rainha Njinga, o qual acaba de nascer.

Neste romance histórico, John Bella parece ter sido transportado da época da Rainha Njinga para os nossos dias, com a responsabilidade histórica de fazer constar factos e descrições de uma época marcante na constituição de Angola como a conhecemos.

Quem lê os primeiros passos da Rainha Njinga e agora o Regresso da Rainha Njinga sente-se transportar para esta dimensão espácio-temporal do povo Ambandu, a fim de vivenciar uma verdade histórica tradicional com os olhos de quem vê: os detalhes dos momentos, as descrições vividas dos comportamentos, gestos e feições, os cheiros da terra, do capim, as visões das paisagens, os rituais e mnemónicas de um povo tudo nos envolve para nos fazer crer que já não estamos a ler mas a presenciar cada momento como se parte integrante da história fôssemos.

A leitura deixa de ser leitura para ser uma realidade vivenciada como uma tela dotada de vida, onde tudo tem uma autenticidade inexcedível. O ontem passa a aqui e agora!

E aqui e agora em jeito de excursão, conhecemos o território do Ndongo, reconhecendo justificações de uma toponímia e costumes que até hoje permanecem (Cacuaco, Kinfangondo, Caxito...)

Mais uma viagem relatada onde a destemida e sábia rainha Njinga exibe dons de liderança pela congregação da sabedoria de dois mundos oponentes (cristão e xamânico). Sem se intimidar com a força guerreira dos xinguilamentos xamânicos da terra ou com a tecnologia bélica das cruzadas cristãs, Njinga flutua numa outra dimensão onde a mente encerra o coração e inspira a confiança indispensável ao séquito de seguidores que angaria dos dois lados.

Bebendo de ambos os mundos, constrói um novo o reino de Njinga Mbande ­ onde a fé amparada por seu pai, o patriarca da Nação, a faz brilhar tal qual estrela polar no breu da noite.

À semelhança da rainha de Sabá, Njinga percorre o país, entre ofertas e gastronomia típica de cada sobado, escondendo a agenda militar e de estratégia governativa que nos momentos de solidão desenha com o seu falecido pai.

Em Lukala é recebida "com pompa e circunstância. Tinham muito para dizer. A mbanza do Soba Samba a Lukala estava em festa. A multidão juntou-se à entrada da sanzala, onde organizaram a kizomba. Muita bebida e comida da terra. As raparigas, de vestes apropriadas para a ocasião; trajavam saia de ráfia e outra ráfia que lhes cobria o peito. Madimba, kisanji e outros instrumentos musicais.

O som das cornetas, feitas de cornos de antílopes, despertava a curiosidade nos populares circunvizinhos; estes vinham juntar-se à festa. As músicas sucediam-se, umas após outras, com variadíssimos ritmos. A festa continuou, até ao dia seguinte. (Regresso da Rainha Njinga, John Bella)

"No momento da chegada, talvez por estar exausta da viagem, Njinga não se reuniu com os Makota para os informar do resultado das negociações. Só depois, então, iria ter com o irmão Ngola a Mbande, que a enviou como emissária nas negociações com os portugueses, para a paz no Reino do Ndongo."

Os anos de vida que lhe pesavam na sua soberana sabedoria fazem-na saber confiar desconfiando. Perder o homem da sua vida e o filho assassinados às mãos do irmão Ngola remeteram-na para momentos entre a vida e a morte, tendo-a apenas feito ressuscitar os desígnios da nação a ela entregues pelo pai para esta missão divina de buscar a libertação.

Perdera-se a jovem apaixonada guerreira e ficara a madura Njinga que engole o orgulho e a raiva para servir de negociadora entre os invasores e o Rei Ngola seu irmão. Aceita assim a identidade portuguesa cristã sob o nome de D. Ana de Sousa, pois acima do desejo de justiça sobrepunham-se os desígnios dos povos prestes a digladiarem-se pela capital S. Paulo de Luanda.

Já o seu irmão, cego pelo poder e déspota, dificulta o trabalho de diplomacia que Njinga enceta, por considerar estar acima de qualquer lei. Apartados pelo carácter e por esta tomada do poder pela força, Njinga não desiste pois sabe que a sua sabedoria não lhe foi entregue pelos homens mas por entidades superiores.

Angustia-se com a iminência de uma guerra que arrasará o seu povo dado o poder bélico que os invasores demonstram e a arrogância e falta de estratégia do soberano ilegítimo, seu irmão.

Os sofrimentos infligidos aos milhares de escravos e as mortes vãs levam-na a agir como soberana legítima reunindo todas as entidades representativas do sobados do rio Kwanza em concílio:"Imaginem vocês, que as dificílimas conversações que desempenhei em Loanda, o tratado que assinei, até certo ponto, deveras vantajoso para nós, ele parece desvalorizar, apenas pela sua árdua ambição pelo poder! dizia ela, decidida Mas não deixarei que isso aconteça! Ele não pode continuar a colocar a vida de todos os mundongo assim em risco.

Vocês não fazem ideia do que são capazes os brancos, quando pretendem investir numa raça que não é a sua. Apercebi-me de horrores que foram praticados contra um povo chamado os Maia. Disse-me um missionário que, numa altura em que eu teria por aí, meus vinte e quatro anos de idade, atacaram e exterminaram aquela gente em Kuzgo.

Era este talvez, o nome da mbanza principal daquele povo. E vejam que isso aconteceu depois de anos antes, os terem hospedado com todas as mordomias. É assim, ou de maneira mais cruel, que eles tratam os humanos. E o pior, muitas vezes, com a cumplicidade dos missionários cristãos!"

Descrito o cenário, Njinga partilha a estratégia de libertação de Angola do colono pelo recurso a um plano de sacrifícios e sacrificados, onde escravos transformam-se em moeda de troca. Aproveitando o tempo de paz garantido pelo acordo firmado com o rei de Espanha em São Paulo de Luanda, Njinga refaz, à revelia dos dois reinados, um exército demonstrado destreza na arte da guerra. Aceitando com astúcia a esmola de uma identidade portuguesa e cristã, o sacrifício do seu povo à escravatura e a subserviência a um Rei ilegítimo, Njinga assume-se como a líder que traçará o caminho da Libertação de Angola.

Caso não conhecesse o autor neste presente contemporâneo atrever-me ia a dizer que ele fora o eterno e fiel acompanhante (amante) de Njinga Mbande em todo seu percurso de vida: conhecendo-a desde o seu nascimento, a sua primeira paixão, a perda da sua virgindade, à sua primeira batalha ao lado de seu pai, o Rei Ngola Kiluanje, e às grandes desilusões que vou manter secretas "aguarda-se talvez nos Últimos Passos da Rainha Njinga" a morte desta rainha que John Bella, seu eterno apaixonado platónico, teima em não fazer acontecer.

5 de Novembro de 2012, Luanda (União dos Escritores de Luanda)


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