Kauyka, de Ana Maria de Oliveira e a Comunicação Literária

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Quem lê o conjunto de obras intitulado Kauyka pode questionar-se, imediatamente:
- Trata-se de texto literário ou não?

Ana maria de Oliveira

Se for texto literário, será dotado de linguagem literária, se for não literário, será dotado de linguagem não literária, mas para responder a questão, é antes necessário compreendermos o conceito de literatura que, frequentemente, a muitos escapa. Recorremos ao conceito de Aguiar e Silva (2008:187), segundo o qual “O texto literário constitui um objecto sintáctico e semântico, dotado de uma certa intencionalidade pragmática, que um emissor/autor realiza através de um acto de enunciação – frequentemente, através de múltiplos e sucessivos actos de enunciação – regulado pelas normas e convenções do sistema semiótico literário e que os seus receptores/leitores decodificam e interpretam, utilizando códigos apropriados e estratégias hermenêuticas
adequadas.”

Por si só, esta citação devia ser cabal para darmos resposta a questão, porém aqui também impõe-se um outro conceito, o de literatura infantil, que definiremos como arte ou fenómeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra e funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e a sua possível/impossível realização, Cagneti (1996:7), tendo a criança como ouvinte-modelo, o leitor-modelo que Eco (1993:65) anuncia. Tais conceitos implicam apresentar os elementos que caracterizam o texto literário antes de fazermos um passeio pelas páginas de Kauyka, pois essas características irão guiar o nosso curto passeio.

Pode-se afirmar que o texto literário é o resultado articulado, coerentemente estruturado da enunciação da linguagem literária, com características que podem, resumidamente, ser assim descritas: ficcionalidade, coerência, pluristatificação e intertextualidade, como explica Reis (2008:169). São essas características que tornam o texto literário distinto.

Vale dizer que cinco contos fazem parte deste conjunto de obras, com os títulos: Nasceu a Kauyka, Kauyka Já Engatinha, Kauyka Dá os Primeiros Passos, Kauyka Tem Um Irmão e Kauyka Vai à Escola.

Não vemos o texto de Kauyka a dialogar com outro texto e, pela sua brevidade, talvez fôssemos tentados a classifica classifica-lo como conto infantil, como o fizemos acima, pelo facto de o vermos distante do apólogo, da fábula e da parábola, mas ainda assim seria uma classificação forçosa por não apresentar, além da brevidade, outra característica que nos permita assim classificá-lo; tal brevidade permitir-nos-á transcrever aqui o texto do primeiro livro deste conjunto de forma cabal, para mencionar alguns aspectos fundamentais para se compreender o que é aqui analisado.

Devemos ter em conta que o conto é, do prisma da história e de sua essência, a matriz da novela e do romance, mas isso não significa que deva, necessariamente, transformar-se neles e tal como a novela e o romance é irreversível: um conto jamais deixa de ser a narrativa que como tal se engendra, e a ele não deve ser reduzido nenhum romance ou novela, assim esclarece Moisés (2006:37).

O conto constitui uma unidade dramática por se girar em torno de um único conflito, um único drama ou acção, de acordo com o mesmo autor, o que nos leva a constatar a ausência de um enredo, elemento fundamental da ficção literária, pois nada há no texto que intrigue e faça aguardar algum desfecho que seja o efeito de alguma causa antes apontada. Para a palavra /enredo/,Moisés (2004:145) aponta que se trata de sinónimo de intriga, talvez com uma subtil diferença: enquanto o enredo denota a totalidade das causas e efeitos que se organizam no curso da narrativa, a intriga parece a redução, ao essencial, dessa totalidade.

Constatar-se-á, com a transcrição cabal do texto, a ausência de enredo, como já foi dito antes. É bem verdade que o título pretende clamar, como o fazem os outros autores do nosso país, um valor que se eleva, a angolanidade literária referida por Kandjimbo (2011: 53). Esta clamação vem do facto do título se tratar de um nome numa língua bantu, que se inscreve no nosso espaço linguístico, mas por aí fica o texto e nada mais clama deste valor.

FICCIONALIDADE

Se compreendermos a primeira característica, a ficcionalidade, procuraremos os elementos no texto que nos permitam afirmar que ela faz parte deste conjunto de obras e cobraremos mais do seu texto.

Ao aplicarmos os conceitos antes referidos, chegamos no plano da ficcionalidade,
uma vez que ao falar de intencionalidade pragmática ou conjunto de regras pragmáticas estaremos diante dela, mas no caso do texto de Kauyka, quando o lemos não o vemos tão diverso de uma notícia de jornal, uma biografia ou até mesmo um tratado ou informações pediátricas, pelo facto de levar o leitor a uma leitura que o obriga a construir o significado do texto em conformidade com a convenção de congruência dos factos, isto é, a convenção F, referida por Schmidt (1982:49-50, apud Aguiar e Silva 2008:90). Um exemplo do que afirmamos é o que se lê na página 6: “Nasceu em Angola, uma linda menina. Os pais chamaram-na Kauyka. Kauyka nasceu saudável e robusta, pesava 3,5 kg.”.

A convenção que melhor se adequaria à comunicação literária, como se refere o mesmo autor, é a convenção E, ou seja convenção estética, que permite suspender a convenção antes referida, pois esta agora mencionada acontece no domínio da ficção.

Este texto que se propõe literatura infantil, cobra este recurso na medida em que há a necessidade de activar a tão fértil imaginação da criança, que é, necessariamente, a ouvinte-modelo, para as que não sabem ler, o que configura o leitor-modelo construído pela autora, deixando-lhe espaço para fantasiar.

A idade compreendida delas seria de dois a onze ou doze anos, pois este é o público-alvo da literatura infantil. Importa dizer que a literatura infantil exige recursos diversos da literatura para adultos, de modo a permitir que a criança suspenda a sua capacidade
de incredulidade, entrando na fantasia do texto, e melhor faça uma digressão pelas páginas que lhe são apresentadas, sempre visando um ensinamento, uma lição moral, tal como acontece n`A Árvore dos Gingongos de Maria Celestina Fernandes e no Conto de Escola de Machado de Assis.

Isso não acontece com Kauyka, que limita a imaginação da criança, deixando-lhe pouco espaço para fantasiar e entreter-se com aspectos lúdicos. A ficcionalidade que se cobra em Kauyka equivale ao fingimento, que não se confunde com a comum asserção da palavra, mas sim o fingimento literário que refere Reis (2008:171).

COERÊNCIA

A coerência, outra característica do texto literário, em alguns casos, é comprometida por algumas incorrecções no sistema modelizante primário, ou seja na comunicação linguística. Lê-se: “Num amanhecer distante, em que o chilrear dos pássaros soava harmoniosamente, em que a terra cheirava a húmido porque tinha chovido.
No horizonte, timidamente despontam os raios de um sol indeciso…
Nasceu em Angola, uma linda menina.
Os pais chamaram-na Kauyka.”
Consideramos, cada microtexto constante em cada página, um parágrafo.
Ao fazê-lo, vimos o texto perder coerência e percebemos que, ainda que de outro modo fosse, o estado de incoerência não se alteraria. O enunciado seria mais compreensível se os três parágrafos transcritos formassem uma só frase, numa única página, de modo a evitar uma leitura intermitente que comprometa a compreensão da criança.

Não se adequa separar, por ponto ou reticências, elementos da mesma frase. As reticências devem assinalar uma suspensão da frase, indicando que há uma hesitação, que a frase iniciada não se conclui e se dá início a uma outra, ou somente sugerir que a sua conclusão
deve ser subentendida pelo leitor, Bergstrom e Reis (2008:50,51).
No caso da transcrição percebe-se, claramente, que as reticências são usadas de forma diversa, o que se confirma quando continuamos a leitura. Lê-se na transcrição, que agora vai até ao fim.
 “Kauyka nasceu saudável e robusta, pesava 3,5 Kg.
Os mais velhos cuidaram do seu cordão umbilical…
… Da sua higiene pós-natal, Deramlhe banho…
Trataram do seu cabelo… vestiramna com roupinha muito delicada para não magoar a sua pele macia.
Kauyka trouxe alegria ao seu lar!
Kauyka foi muito acarinhada pelos avós.
Com o seu nascimento, os pais de Kauyka receberam muitos presentes: da família, de amigos, de vizinhos.
Como todos os bebés, quando Kauyka chorava, a mãe sabia que, de certeza teria de mudar a sua fralda ou dar-lhe a mamada.
Kauyka era muito gulosa. No intervalo certo, ela dava sinal, quase sempre chorando.
Na harmonia da família, Kauyka foi crescendo.”

A coerência do texto é assim comprometida, visto que ela deve ser assegurada em primeira instância por mecanismos de natureza linguística e agrava-se quando não o vemos com efeitos de compatibilidade exigidos no seio do mundo possível que o texto literário deve configurar.

Confirma-se a incoerência quando chegamos à pluristratificação, que para Ingarden (1973 Apud Reis, 2008:178) é constituída por quatro estratos: fónico-linguístico, unidades de significação, objectividades apresentadas e aspectos esquematizados.

Se a levarmos em consideração constataremos que o primeiro estrato, o fónico-linguístico, nos permite notar uma assonância no primeiro parágrafo da segunda transcrição e prosopopeia no parágrafo que se segue, mas por aí o texto fica e pouco ou nada mais se lê de recursos estilísticos, o que nos obriga a saltar o segundo estrato, o das unidades de significação, pois não encontramos os registos valorativos, conotações ou figuras de dimensão eminentemente semântica, e nem mesmo notamos o estrato das objectividades apresentadas porque o enunciado obriga a construir o significado do texto em conformidade com a convenção de congruência dos factos, isto é, a convenção F, como foi dito antes, impossibilitando o reconhecimento de um universo ficcional.
O que ficou agora dito não anula a existência dos aspectos esquematizados neste texto.

A literatura infantil, no nosso cenário cultural, tal como a literatura para adultos, bebe da tradição oral para se afirmar e não se pode contornar este facto quando lemos: A Árvore dos Gingongos de Maria Celestina, Estórias da Velha Coruja de Raúl David ou mesmo
Sunguilando de Óscar Ribas.

A pergunta que abre este escrito é assim respondida pelas justificações aqui apresentadas, que podem ser reforçadas. O texto do conjunto de obras intituladas Kauyka apresenta uma comunicação diversa da comunicação literária e não contém elementos fundamentais do sistema semiótico literário, levando-nos a considerar que não se trata de texto literário e, por consequência, não se adequaria afirmar que se trata de literatura infantil, como se propõe o mesmo.




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