Kicola: Estudos sobre a literatura angolana do século XIX

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Mayamba Editora lança manual de Francisco Soares

Mayamba Editora lança manual de Francisco Soares

"Kicola: estudos sobre a literatura angolana do século XIX" é o livro que Francisco Soares acaba de publicar, pela edições Mayamba e que teve lançamento na Universidade de Letras, da Universidade Agostinho Neto.

O título do livro, "Kicola", tem um sentido irónico. Como o próprio autor explica numa nota inicial do livro. Kicola é uma expressão kimbundu que quer dizer: "não pode ser".

Ou seja, "é impossível", sendo a "possibilidade" aqui associada à "transgressão" e "impossibilidade" ao facto de não se querer desrespeitar uma regra social ou cultural estabelecida.

Isto é, "não pode ser", na medida que isso vai contra os valores estabelecidos e que devem ser respeitados, porque estão na ordem natural das coisas. "Kicola" tem pois um sentido transcendental, é uma impossibilidade quase metafísica.

A apropriação de "Kicola", no sentido irónico que lhe é atribuído pelo autor é correlato ao ceticismo exclamativo das pessoas sobre a possibilidade de Angola ter uma literatura, no século XIX. E, ainda mais, uma literatura à altura da exigência estética do seu tempo e ao nível da literatura que se fazia em outras latitudes, nomeadamente no Brasil e em Portugal.

Como a primeira reação das pessoas, quando se falava da literatura angolana do século XIX, era de espanto e de incredulidade, surgia sempre um, "não pode ser", agora como impossibilidade histórica, já que a noção que se tinha (ou tem) de África é a de que não havia nada de "civilizado", antes da intervenção do colonialismo moderno (apontado para à ocupação efetiva, decidida na Conferência de Berlim, 1884-1885).

Esta noção é muito inculcada pelas ciências de sociais francófona e anglófona que durante muito tempo, determinados pela experiência das suas colónias, apresenta a África como uma realidade homogénea e como terra de literatura, a partir da emergência de escritores africanos, no pós IIª Guerra Mundial.

Ora Angola é um caso específico, historicamente determinado que deve ser compreendido através de um olhar de longa duração. Este permite decantar uma literatura angolana do século XIX que infelizmente continua mal conhecida, apesar do esforço meritório de publicistas e historiadores desta literatura, como Júlio de Castro Lopo, sobretudo através do estudo pioneiro sobre o jornalismo angolano, Mário António Fernandes de Oliveira que se multiplicou em estudos sobre alguns dos mais representativos escritores do século XIX e da sua sociedade (Maia Ferreira, Cordeiro da Matta, Pedro Machado, Pedro da Paixão Franco entre outros) e Gerald Moser, a quem devemos, entre outras coisas, a descoberta do livro "Espontaneidades da Minha Alma", de Joaquim da Silva Maia Ferreira, na Library of  Congress, de Washington, dando a oportunidade de recomeçarmos, desde então, a refazer a Historia da literatura angolana.

Neste movimento, em que sobressaí Carlos Erverdosa, com o seu "Roteiro da literatura angolana", é justo incluir os nomes de Mário de Andrade e Costa Andrade, pelo seu trabalho de divulgação no estrangeiro, durante o período da ditadura colonial, e, para o período posterior à proclamação da independência, primeiro, Henrique Guerra, pelos vários trabalhos que produziu, depois, a revista Archote, pelo seu trabalho de divulgação e teorização, onde se destacava o esforço de divulgação da literatura angolana do século XIX do indivíduo que vos fala que aí publicou vários trabalhos e, posteriormente resgatou, prefaciou e promoveu a publicação sucessiva, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Lisboa), de dois importantes livros que estava dados como perdidos, Delírios, de Cordeiro da Matta, (2003) e "Cenas de África", de Pedro Félix Machado (2004).

Luis Kandjimbo, com os seus vários artigos no suplemento literário do Jornal de Angola e agora com os seus verbetes no site da ebonet.net e Carlos Pacheco com os seus três livros dedicados ao pioneiro da literatura angolana, Maia Ferreira, dois biográficos e um crítico. E, "last but not least", há a destacar o trabalho de pesquisa e divulgação de Francisco Soares, que localizou um exemplar dos sonetos, de Pedro Félix Machado, primeiro, numa biblioteca americana, a Library of New York, depois, um outro exemplar, na Biblioteca da Faculdade de Letras do Porto.

Este professor de literatura africana de língua portuguesa, também prefaciou e impulsionou, junto da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Lisboa) uma nova publicação desse conjunto de sonetos, "Sorrisos e Desalentos".

"Kicola: estudos sobre a literatura angolana do século XIX" surge neste contexto. Primeiro como um livro de divulgação e agora como um verdadeiro manual de literatura que coloca "as mãos na arqueologia literária do país", como o próprio Francisco Soares dizia no seu "Notícia da literatura angolana" (edição da IN-CM, Lx, 2001); um livro denso de história e teoria da literatura angolana que está para lá da simples "notícia" e é uma das melhores obras publicadas no género porque reúne as qualidades do rigor factual e teórico.

Neste livro, "Kicola: estudos sobre a literatura angolana do século XIX", agora retrabalhado e ampliado, Francisco Soares reafirma o seu mérito, a sua elevada qualidade pela coerência da sua economia de texto e a capacidade produtiva de sentido da sua escrita.

A sua intenção é a de fazer um estudo em 2 volumes: o primeiro volume dedicado à análise formal da produção poética dos autores de Angola, no século XIX, e o segundo volume versando sobre as leituras, na Angola do século XIX.

Neste livro minuciosamente dedicado à análise formal dessa produção poética, o autor estuda quase meio século de literatura (1856-1900), distribuído por dois períodos: 1ª fase; 1856-1877 e a 2ª fase; 1878-1900.

Porém o livro está estruturado, não em termos cronológicos mas em função do seu conteúdo. Aparece pois dividido em duas partes: a primeira parte: "Circunscrições" e a segunda parte: "Análise estilística do corpus escolhido".

Em Circunscrições, depois de uma introdução, em que apresenta a sua problemática, FS apresenta o seu corpus, por uma seleção e exclusão de poemas, determinada pelo critério escolhido e faz alude aos autores e obras de referência, também estrangeiros, já que uma literatura não surge sozinha, isolada mas em interação com outras.

Faz também um apuramento teórico e conceptual tecendo considerações sobre os seus conceitos operatórios (como seja verso, estrofe simples e composta, hierarquização, distribuição rimática e sistema.

Na Análise estilística do corpus escolhido, FS, primeiro, divide as 119 composições selecionadas em função do número de versos das estrofes, constituindo diferentes grupos de análise.

1º - o das estrofes com 4 versos, que são os mais comuns, também "na poesia romântica e ultrarromântica portuguesa" e que Olavo Bilac considera serem "as estrofes mais cultivadas". (verificam-se 64 ocorrências para versos em decassílabos e 5 para dodecassílabos)

2º - o das estrofes com 5 versos (2 tipos: decassílabos (ABBA) e heptassílabos (ABBA) e um mesmo autor: Cândido Furtado).

3º - o das estrofes com 6 versos (12 ocorrências)

4º - o das estrofes com 7 versos

5º - o das estrofes com 8 versos

6º - o das estrofes com 9 versos

7º - o das estrofes com 9 versos

8º - o das estrofes com 9 versos...

A partir daí Francisco Soares centra o seu propósito "na maneira de construir os versos e as estrofes", nos meios de produção dessa poesia, isto é, na apreciação das formas artesanais que permitiram a construção técnica dos poemas e do corpus poético societal angolense, nessa época. O autor procura, pelo método comparativo transnacional e pela transferência de informação,
• apreender a filiação literária do grupo de produtores poéticos; • rastrear notas fundamentais do tráfego literário angolense;
• ultrapassar as questões (recorrentes ainda hoje) de classificações ideológicas (positiva ou negativa e de legitimação
• abrir caminho a hipóteses comparativas abrangentes; Levando em consideração, • o caldeamento de cultura em que são formados e alimentados os produtores (recurso já experimentado, para outro corpus, por Mário António de Oliveira, de quem Francisco Soares é discípulo confesso)

Conclui que:
• estes artesãos revelam-se frequentadores dos poetas dos poetas ultrarromânticos portugueses e brasileiros;
• do lado português lidera Camilo Castelo Branco, a quem se juntam Casimiro de Abreu e outros
• do lado brasileiro, Gonçalves Dias e Gonçalves Crespo soa acompanhados por Fagundes Varela, Alvarez de Azevedo
• entre os angolanos e estrangeiros residentes (ditos "aclimatados") havia pessoas esclarecidas, atualizadas e pensantes que produziam literatura à altura da Europa e da América daquele tempo;
• ou seja havia uma comunidade de literatos que demonstravam "uma consciência depurada no trato formal do poema;
• no entanto, os produtores e a poesia produzida eram conservadores, submetidos à função social ou socializadora que era atribuída à poesia à época;
• por isto, esta poesia, pela sua função social não podia ser muito erudita, tinha que ficar ao nível da comunidade a que se destinava, restando ao nível dos cânones populares.
• Por isto a timidez nas inovações não é determinada pela ignorância mas por razões de eficácia social da produção poética.

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