KimpaVita, “a Santo António congolesa”

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Quando em 1491 os portugueses chegaram à capital, M'banza Kongo, o manikongo (rei) da época, Nzinga-a-Nkuwu, pediu para ser batizado e recebeu o nome do rei de Portugal, D. João.

KimpaVita, "a Santo António congolesa"

Mais tarde, por volta de 1507, o seu segundo ilho, M'bemba-a-Nzinga, quando se tornou manikongo Afonso, tentou transformar completamente o Kongo num reino cristão, pelo que construiu igrejas, mudou o nome da capital de para S. Salvador e procurou, a todo o custo, "europeizar" o seu povo.

Tinha o desejo de desenvolver de modo pacífico a sua terra, à custa de um enxerto da cultura do pequeno reino ibérico e correspondendo-se amiúde com o monarca D. Manuel I de Portugal, a quem tratava por meu irmão.

Em contrapartida, Manuel alude a Afonso I do Kongo, em precisas instruções dadas a um seu representante em terras de África, como "um rei a quem temos mui grande amor e que estimamos por sua virtude, como ele merece".

A história da deterioração das relações entre o rei do Kongo e os portugueses, considerada uma tragédia, é um conjunto de erros e de posições estremadas de parte a parte.

Da situação caótica vivida nos fins do século XVII, chegam-nos ecos através do relato de um padre capuchinho, Lourent de Lucques, que em 1701 escrevia:
 "As notícias provenientes do Congo são cada vez piores e as inimizades entre as casas reais estão a dividir o país cada vez mais. De momento contam-se quatro reis no Congo.

Há também dois grão-duques em Mamba; três grão duques em Ovampo; dois grão-duques de Batta e quatro marqueses em Enhcus. A autoridade de cada um deles é cada vez mais fraca e estão a destruir-se mutuamente, com grandes guerras entre eles.Todos querem ser chefes. Lançam ataques contra o território dos outros de modo a roubar e a vender os seus prisioneiros.

" São Salvador de Congo entra em ruína e a população começa a abandonar a capital. Todos estes acontecimentos conduziram a um novo fervor religioso que havia de empolgar todo o Kongo e ao surgimento de uma mulher que tentaria o renascimento nacional, através da sua própria interpretação da fé cristã. Kimpa Vita, seu primeiro nome, surge e vive neste contexto.

De origem nobre, da aristocracia Bacongo, sacerdotisa do culto de Marinda, começou tudo durante um longo período de doença em que esteve às portas da morte e lhe apareceu S. António. Não havia nada de muito extraordinário na escolha do santo. A diferença residia no facto de não se tratar de um santo "branco".

Vale seguir o que disse Charles Boxer sobre o movimento: "uma modalidade remodelada e completamente africanizada do cristianismo". "Com efeito, o movimento antoniano confirma, antes de tudo, o êxito do processo de canonização do Congo inaugurado no século XV e cristalizado sob o reinado de Afonso I na primeira metade do século XVI.

O Deus dos antonianos era, sem dúvida, o Deus cristão, o Deus dos missionários, com o qual Kimpa Vita dizia jantar todas as sextas-feiras, após "morrer", para "ressuscitar" no dia seguinte.

Santo António, por outro lado, santo mui valorizado na missionação realizada no Congo, era a persona assumida pela profetisa, por ela chamado de "segundo Deus". Africanizando o catolicismo, "a Santo António congolesa" dizia que Cristo nascera em São Salvador, a verdadeira Belém, e recebera o batismo em Nsundi, a verdadeira Nazareth." (Charles Boxer. A Igreja e a expansão ibérica. Lisboa, Edições 70, 1981, p.132.)

O catolicismo do movimento antoniano era, portanto, muitíssimo original, implicando uma leitura banto ou bakongo da mensagem cristã. Modelava-se, em vários aspetos, na ação pedagógica dos missionários, mas condenava o clero o icial, sobretudo os missionários estrangeiros, aos quais acusava de "haverem monopolizado a revelação e o segredo das riquezas para exclusiva vantagem dos brancos" em prejuízo dos "santos negros".

Rejeitou, igualmente, boa parte dos sacramentos católicos: o batismo, a confissão, o matrimónio, ao menos no tocante à liturgia e aos significados oficiais, abrindo caminho, no caso do matrimónio, para a restauração legitimada da poligamia.

Adaptou, ainda, certas orações católicas, a exemplo da Ave -Maria e sobretudo do Salve Rainha. Proibiu, ainda, a veneração da cruz, esse grande nkisi católico-bakongo, em razão de ter ela sido o instrumento da morte de Cristo.

Prometia, ainda, tornar fecundas as mulheres estéreis e outras mil bem-aventuranças, granjeando imenso apoio popular.

Laurent de Lucques conta-nos dela: "Esta jovem tem cerca de vinte e dois anos de idade. É elegante e possui feições corretas. Externamente dá a sensação de ser muito devota. Fala com gravidade e parece pesar cada palavra. Prevê o futuro e disse, entre outras coisas, que o Dia do Julgamento está muito próximo."

Esta mulher era tão reverenciada em S. Salvador que os homens de alta estirpe colocavam as suas capas como toalha de mesa para que ela se servisse.

Para onde quer que se deslocasse, era precedida por um grupo de nobres que limpava o caminho à sua frente.
Kimpa Vita despertou obviamente a ira dos missionários capuchinhos e das fações nobres adversárias do antonianismo e postulantes do poder real.

O estopim ou pretexto que levou à prisão de Kimpa Vita teria sido a acusação de que tinha um ilho recém nascido, cujo choro teria sido ouvido enquanto ela o amamentava em segredo, do que resultara o seu desmascaramento como "falso Santo António".

Kimpa Vita foi presa, arguida pelo capuchinho Bernardo Gallo e condenada a morrer na fogueira como herege do catolicismo. A sentença foi executada em 1706 e na fogueira arderam Kimpa Vita e seu "anjo da guarda" ­ o Santo António e o São João do catolicismo congolês.

A morte de D. Beatriz foi uma vitória parcial que, ao contrário de terminar com a "heresia", deu início a uma nova fase do antonionismo. Os crentes asseguravam que no preciso lugar onde fora queimada apareceram dois profundos poços, cada um deles com uma brilhante estrela no interior.

As relíquias encontradas no meio da cinza, no local do sacrifício, transformaram-se em objeto de grande reverência.

(extratos de diversas fontes recolhidos pela redação)

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