Línguas bantu e Cultura bantu:O Deus do fogo

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Incumbe, pois, aos cientistas e, nesse caso, aos Linguistas, embora a política seja a alavanca.

Línguas bantu e Cultura bantu:O Deus do fogo
Figura mitológica II

Quando eu estudava o quinto ano, creio, li no meu manual de História que havia um povo, ou uma civilização, que considerava o Sol o «deus do fogo». Achei isso curioso, mas interessantíssimo e sempre guardei isso comigo. Eu tinha cerca de dezassete anos. Hoje eu investigo na área de Linguística bantu e fiquei muito admirado quando, analisando a palavra «Dikumbi» da língua kimbundu, e não só, que em português significa Sol, descobri que, etimologicamente, “dikumbi” quer dizer, exactamente, “o deus do fogo”. Afinal, aquela afirmação que eu li no meu livro de História se não aludia directamente à minha civilização, ela, directa ou indirectamente, estava implicada nessa afirmação. Faz parte do conjunto de povos ou de civilizações que considera o Sol «o deus do fogo», se é que não é a ela que o manual aludia especificamente.
Um outro facto é que, durante muito tempo me fez confusão o facto de que os povos desta região designarem Deus como «Nzambi» e os Ovimbundu, que também são desta região, o designarem como «Suku». Essa e outras diferenças, como a sua numeração que parece ir de um a cinco e retomar de seis a dez (epandu, epandu vali), fizeram-me pensar que os Ovimbundu pertencessem a uma outra civilização, talvez, e que apenas tivessem sofrido a influência bantu. Tão pouco era o que eu sabia desse povo, nessa altura, sob o ponto de vista cultural.
A contínua análise da língua bantu, porém, e o seu aprofundamento mostraram-me que, afinal, não somente “Suku” e «Nzambi», são ambas palavras do Bantu mas que «Suku» e «Dikumbi» são duas palavras do Bantu que representam a mesma coisa: «o deus do fogo». Em kimbundu, a mesma palavra, “ Dikumbi”, representa “Sol” e “deus do fogo”. Em umbundu há uma palavra para Sol que é “Ekumbi” e outra para “deus do fogo” que é «Suku» e vale, também, como significante único para designar Deus, em umbundu, que, em kimbundu e muitas outras línguas bantu, é «Nzambi».

Para prosseguir,
vamos começar assim:
Nas línguas bantu, todos os fonemas – vogais e consoantes - têm significado. Uma consoante e uma vogal formam uma sílaba, a qual também tem, consequentemente, um significado. Aliás cada vogal tem mais que um significado e, assim, cada sílaba tem, também, mais que um significado. Apenas a consoante tem um só valor, o que é diferente de um significado propriamente dito. O valor de uma consoante não é convencional, é objectivo pois é determinado pelo seu poder acústico-perceptivo o que, tecnicamente falando, resulta de “modo de produção, ponto de articulação e sonoridade”. Os diferentes significados ou valores de uma vogal são convencionais e, consequentemente também o são os da sílaba que ela ajuda a formar.
Um dos significados da sílaba “ku”, que entra na formação da palavra «dikumbi» (Sol) é «fogo». Encontramos, desde já, a unidade das três palavras -dikumbi, ekumbi e suku – como “fogo”, a partir do elemento comum, «ku» (fogo). «Mbi», em «dikumbi» e «ekumbi» representa «espírito», tal como a palavra «nzumbi», que significa «espírito», em kimbundu, sílaba essa que, concludentemente, entra, também, com o significado de «espírito», na formação da palavra «Nzambi» (Deus).

Vamos mais à frente:
Dizem os estudiosos da cultura bantu, que os Bantu não cultuam o Deus supremo, no caso, «Nzambi». Eles cultuam, sim, aqueles a que se chama « deuses auxiliares» ou «deuses administradores», aqueles que actuam nos domínios concretos e particulares da vida e do mundo, como é o caso da «Kyanda», a «deusa do mar» porque, se «Nzambi» - “o espírito do universo” - criou o mundo, é, entretanto, ele, o Sol (Suku, Ekumbi, Dikumbi), que traz a vida ao planeta, ao prover de «fogo, luz e calor» a natureza e a humanidade.
Com o seu calor, proveniente do fogo que ele é, faz evaporar as águas dos mares, rios, lagos e lagoas e de todas as outras fontes de água, o que causa as nuvens e origina a chuva, que favorece os solos e faz as sementes germinarem, as quais se transformam em plantas e árvores, que dão a comida que alimenta as pessoas e os animais. Essa é a clara visão do Bantu. É, pois, ele, «Dikumbi/Ekumbi», o provedor da vida no planeta, num universo que «Nzambi» criou, a quem o Bantu, no geral, cultua e a quem os Ovimbundu, em particular, chamam «Suku». Poderíamos aprofundar mais a análise para encontrar a real relação lexical entre «Suku» e «ekumbi». Não faltará ocasião. A relação ontológica está vista: «Suku», “o deus do fogo”, e «Ekumbi», o Sol, são a mesma entidade.
«Dikumbi» e «Suku» são uma e mesma entidade, sob nomes diferentes, e essa mesma entidade, o «Sol», é o maior dos deuses administradores ou auxiliares.
Mas ainda não mostramos, cabalmente, que «ku» é fogo. Para tanto, baste-nos a palavra «jiku», fogareiro. Ora, «jiku» (ji-ku), fogareiro, é o instrumento onde se faz o fogo. Para retirar a perplexidade daqueles leitores que sabem kimbundu, convém dizer que a palavra fogo, em kimbundu, como sabeis, é «túbya», onde não entra o código “ku”, porém essa palavra realiza de outra maneira a noção de fogo, também a partir das suas sílabas. E é nessa palavra que descobrimos que, para o Bantu, o fogo é um ser espiritual. «Túbya» é, na sua origem, «tu-mbi-a», onde o código “mbi” (espírito) perde a pré-na salação e se converte em “bi”. Portanto, fogo (tu-(m)bi -a) é ser (tu) espiritual (mbi), mas não só (a). Nessa palavra, o código “a” indica que fogo “não é só” um ser espiritual. Ele é, também, na verdade, um elemento material, de outra forma não actuaria fisicamente. A vogal “a”, enquanto código, representa dois ­valores opostos, de acordo com o contexto: 1- não só (mas também), 2- não tanto.
A explicação que demos acima sobre a “desprenazalização” de “mbi” não é uma manobra especulativa. O que se passa é que a manutenção da sílaba “mbi”, pré-nasalada, originaria um caso de homonímia, indesejado por qualquer razão, criando a palavra “túmbya” (fogo), que também significa “ panelas pequenas” ou “panelazinhas” – diminutivo do plural de “mbyá/ ímbya” (panela). Nessa hipótese, a frase “põe a panela no fogo” seria “ta ómbya mutúmbya”, alternativa de (ta ómbya mu jiku) e, devido à homonímia, seria interpretada, também, como “põe a panela dentro das panelinhas”. Com a iniciativa da “desprenazalização” de “mbi”, hipóteses como esta não se realizam. Esta prática, por razões de gramática ou de léxico, é recorrente, em kimbundu e, suponho, no bantu, em geral.
Também não falamos, ainda, da sílaba “su”, que entra em «Suku».
Passemos, então, para outro caminho:
fórmula codificada, que, como facilmente se compreende, significa «raios de fogo», ou seja, «raios solares». Temos aqui uma figura de estilo, que é a sinédoque, em que as partes (raios solares) representam o todo (o Sol).
Continuemos com “su” (raios):
Vamos encontrar a sílaba “su” em «disu» (leia “díssu” (olho), também dito «lyesu», que significa olho, em variantes diferentes do kimbundu. «Disu/lyesu» (olho) é o órgão dos sentidos que capta os «”raios” de luz». Completemos a percepção do sentido de “su” analisando o verbo «ku sunga» (su-nga), que significa “puxar”. Neste verbo, cujo significado é “puxar, atrair”, o código “su” mostra-nos que é isso que o olho faz: puxa (atrai, capta) os “raios” (de luz).

Conclusão

A cultura dos povos, em geral, e a dos Bantu, no nosso caso particular, está, em grande parte, encerrada nas palavras das suas línguas. Portanto, apenas falar a língua, não basta. Precisamos de conhecer a Linguística bantu, o estudo científico das nossas línguas, para conhecermos os reais fundamentos da língua, os elementos e realidades que estão subjacentes à língua. Ora, se tivermos em conta que muitas pessoas que deveriam conhecer as línguas não as conhecem – e não por culpa sua, é preciso que se diga – vejamos, então, quão longe estamos de nos conhecermos profundamente e essa não deve ser somente uma preocupação política. É sobretudo uma tarefa científica. Incumbe, pois, aos cientistas e, nesse caso, aos Linguistas, embora a política seja a alavanca.

Adérito Miranda é investigador
de Linguística Bantu

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