Literatura infantil Continuidades

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Tema aliciante, para quem tem já uma vivência que remonta ao ano de 1977, quando foi iniciada a Reforma Educativa no nosso País, tarefa que juntou no CIP (Centro de Investigação Pedagógica) do Ministério da Educação, hoje INIDE (Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento da Educação), um grupo muito grande de professores, abarcando todos os níveis de ensino desde a Iniciação.

Foi uma tarefa de muita responsabilidade e de um grande patriotismo pois todos queríamos sentir o foco de luz transmitindo as nossas vivências, as vivências da nossa Angola, a nossa Cultura, História, Geografia... pois até então os conteúdos abordavam temas que não nos reportavam às nossas raízes culturais.

Tudo isto também para dizer que para a Iniciação e 1º nível, começaram a surgir as primeiras estórias infantis. O trabalho por nós realizado nestes primeiros anos da Reforma Educativa, deveria, a meu entender, fazer parte também do Arquivo Histórico, pois são memórias coletivas que marcaram uma época, na recente História de Angola.

Foi o País todo de Cabinda ao Cunene e do mar ao leste a mudar, a sentir Angola na sua cultura que é tão rica, sua fauna, flora, recursos naturais... Qual a instituição que mais diretamente e de uma forma mais abrangente permite que as populações conheçam a História e a Geografia da sua Terra? Sem sombra de dúvida que é a Escola. E os professores os agentes dessa transmissão.

Com a leitura de pequenas estórias dos manuais e não só, a sua interiorização, conto e reconto, bem como a dramatização, toda uma harmoniosa fonte de conhecimentos vai de forma sequencial fazendo parte das vivências de um povo.

Uma lacuna na educação

Tratando-se de um tema que versa «continuidades» na literatura infantil, não podia deixar de abordar uma questão pertinente e que deixa uma lacuna na educação das nossas crianças.

"A literatura infantil é destinada especialmente às crianças entre dois a dez anos de idade. O conteúdo de uma obra infantil precisa ser de fácil entendimento pela criança que a lê, seja por si mesma, ou com a ajuda de uma pessoa mais velha. Além disso, precisa de ser interessante e, acima de tudo, estimular a criança.

Os primeiros livros direcionados às crianças foram feitos por professores e pedagogos no final do século XVII, com o objetivo de passar valores e criar hábitos. Atualmente a literatura infantil não tem só esse objetivo, também é usada para propiciar uma nova visão da realidade, diversão e lazer.

Obras literárias destinadas às crianças com dois a quatro anos de idade possuem apenas grupos de palavras e/ou poucas e simples frases. Aqui, os livros são coloridos e/ou possuem muitas imagens ou fotos, tanto porque a criança está apenas começando a aprender a ler, bem como estimula a criança por mais livros/histórias.

Livros dedicados a leitores entre quatro a seis anos apresentam maiores grupos de palavras organizados em um texto, sem abrir mão de estímulos visuais mencionados acima." (Wikipédia, a enciclopédia livre).

Esta abordagem, serve para refletir e procurar superar uma situação que há muitos anos se vem fazendo presente no nosso país que é a falta de livros para as crianças dessas faixas etárias.

Ora, para que haja continuidade tem que haver algo que se comece e a literatura infantil que é produzida no nosso País abarca, no seu sentido mais lato, as crianças entre os sete e dez anos.

As obras literárias feitas para crianças dessas idades começam a possuir cada vez menos cores e imagens, e apresentando textos cada vez mais complicados e explicativos, uma vez que o jovem leitor, agora já em fase escolar, é estimulado a encontrar respostas por ele mesmo ­ o começo da racionalização.

Fiz uma pesquisa das coleções de obras de literatura infantil, bem como das edições realizadas e realmente para as nossas crianças mais pequenas não há obras editadas, por conseguinte, há um percurso que está a ficar descurado e que vai marcando pela negativa a educação das nossas crianças.

Não quero com isso dizer que o educador não possa manusear algumas das obras editadas para a fase escolar. Tudo depende do tratamento a dar à obra selecionada pelo educador e/ou encarregado de educação.

Os pioneiros

Toda a continuidade implica necessariamente um começo e tal como as estórias apresentadas nos manuais de leitura, a literatura infantil como tal nasceu no pós-independência, no INALD (Instituto Nacional do Livro e do Disco).

Os autores que a iniciaram pertenciam à instituição e, como forma de testar as estórias, eram primeiro apresentadas no suplemento infantil do jornal de Angola e no programa "Piô...Pio" da Rádio Nacional.

Os pioneiros desse percurso da escrita de estórias infantis são, nomeadamente, Dario de Melo, Octaviano Correia, Maria Eugénia Neto, Gabriela Antunes, Rosalina Pombal, Cremilda de Lima e Zaida Dáskalos.

A coleção "Piô...Pio" foi a primeira a ser apresentada ao seu público leitor pelo INALD (doze livros de seis escritores). Com o surgimento de novos autores, novas editoras, bem com o alargamento da atividade editorial das editoras anteriores, a literatura infantil tem registado grandes progressos.

O país já teve um período áureo em termos de produção literária infantil. Verificou-se uma baixa de produção entre os anos oitenta e noventa. Esforços têm sido empreendidos de modo a que o livro, especialmente o infantil, que é um veículo de preservação da identidade e património cultural e expansão do conhecimento, constitua uma prioridade nacional.

Com estes esforços, pretende-se a realização de ações práticas e urgentes que visam recuperar o tempo perdido e atingir o movimento que se registou no período pós-independência em torno do livro e da leitura.

A literatura infantil é destinada especialmente às crianças entre dois a dez anos de idade. O conteúdo de uma obra infantil precisa ser de fácil entendimento pela criança que a lê, seja por si mesma, ou com a ajuda de uma pessoa mais velha. Além disso, precisa de ser interessante e, acima de tudo, estimular a criança.

A continuidade

Com o fim de dar continuidade ao movimento literário, há cinco anos reabriu ao público o Jardim do Livro Infantil, espaço privilegiado do encontro das crianças com os livros e respetivos autores.

Continuidade não passa só por novas edições, passa também por expansão da literatura infantil a todo o País e este ano o Jardim do Livro Infantil já foi realizado em 16 províncias.

Celestina Fernandes é uma escritora que, além de escrever para crianças, também escreve para adultos e tem uma vasta obra publicada. O primeiro prémio literário «Jardim do Livro infantil» foi-lhe atribuído com a obra «As amigas em Kalandula».

Novos autores foram surgindo como John Bella, Yola Castro e Canguimbo Ananás.

Com o fim de incentivar e dar continuidade à produção literária foram promovidos os seguintes concursos:
-Prémio Literário «16 de Junho» Internacionalização da literatura infantil O livro «A colher e o génio do canavial», de Cremilda de Lima, foi traduzido para sérvio e apresentado na 56ª edição da Feira do Livro de Belgrado em 2011.

Os livros «Junito, Vovô Jujú e o arco íris» da escritora Paula Russa e «As duas amigas» de Cássia do Carmo foram traduzidos para hebraico e apresentados em Israel. Estes livros também foram traduzidos para a língua inglesa. Conclusão

Esta abordagem, cujo objetivo foi fazer uma análise da «Literatura Infantil: continuidades» permitiu sentir o pulsar da nossa literatura e verificar que se -Prémio literário «Jardim do Livro Infantil» -Concurso Caxinde do Conto infantil -Prémio literário «Quem me dera ser onda» O Prémio literário «dezasseis de Junho», durante muitos anos serviu de incentivo a novos criadores, cujas obras a concurso depois de analisadas e selecionadas por um júri, foram sendo editadas.

O Prémio literário «Jardim do Livro Infantil» em três anos possibilitou a edição de três obras nomeadamente: - As amigas em Kalandula - Lodinho (Menino de Lodo ­ Boneco de Ouro) - O aniversário do Rei Leão O Concurso Caxinde de Literatura tem para apresentação ao público leitor dois títulos: - As orelhas de Mutapa - Ombela - histórias da chuva O Prémio Literário «Quem me dera ser onda» tem já lançados os seguintes títulos: - As duas amigas - Sita, a menina carente e abandonada - Lágrimas de girassol O Jardim do Livro Infantil, este ano, apresentou vários títulos novos de autores que têm tido uma grande preocupação em dar continuidade à literatura infantil e que, durante anos, sem esmorecer, fazem com que as crianças tenham livros novos para ler.

Celestina Fernandes apresentou os seguintes títulos novos: - Sonhando - O menino brincalhão - Canção para os kandengues Cremilda de Lima apresentou os seguintes títulos novos: - Os patinhos no parque - O sonho de um roboteiro - O imbondeiro que queria ser árvore de Natal Em 2011, foi editado o livro «Histórias de encantar» (Livro de Ouro da Literatura Infantil) uma antologia que dá a conhecer as obras de vários autores, permitindo assim, perpetuá-las através de um livro bonito e muito bem concebido. Uma nova editora surgiu no mercado livreiro e denomina-se «Avilupa Kuimbila Produções». Com o seu surgimento foi apresentado o livro «O arroz e o feijão» de Gersy Pegado.

Na abertura do Jardim do Livro Infantil, a Ministra da Cultura disse: «Promover os hábitos de leitura e a economia da cultura nas condições específicas do nosso país que aspira o progresso (...), constitui um desafio para todos nós, uma vez que o livro e a leitura são elementos essenciais para o desenvolvimento das sociedades contemporâneas sem que isso rejeite liminarmente os valores das tradições».

Deste modo, apontou que o Jardim é sobretudo a festa do livro, de promoção das artes e de valorização das tradições, perspetiva a que todo o país respondeu engajando jogos, passatempos e narrações por contadores tradicionais.
«Nós queremos manter, preservar esta tradição boa e que se moderniza todos os dias. Neles estão enraizados os valores culturais essências das distintas comunidades socioculturais angolanas e, portanto nos fundamentos da nossa nação», concluiu a Ministra da Cultura.

Internacionalização da literatura infantil

O livro «A colher e o génio do canavial », de Cremilda de Lima, foi traduzido para sérvio e apresentado na 56ª edição da Feira do Livro de Belgrado em 2011.

Os livros «Junito, Vovô Jujú e o arco-íris » da escritora Paula Russa e «As duas amigas» de Cássia do Carmo foram traduzidos para hebraico e apresentados em Israel. Estes livros também foram traduzidos para a língua inglesa.

Conclusão

Esta abordagem, cujo objetivo foi fazer uma análise da «Literatura Infantil: continuidades» permitiu sentir o pulsar da nossa literatura e verificar que se tem feito um trabalho muito válido, embora haja ainda muito para fazer.

Mesmo nas feiras do livro, não são muitas as crianças que compram livros. O hábito da leitura de estórias não é muito usual nas nossas crianças.

O mercado livreiro pode estar em expansão no país com o surgimento de novas editoras e também autores de outros países, porém, penso que para que se efetive o manuseio dos livros há a necessidade de se criar programas aliciantes, para que as crianças façam do livro e da leitura uma prioridade para o seu desenvolvimento.

Como sugestão, para alterarmos este quadro, poder-se-ia estabelecer a nível das escolas, «O Plano Nacional de Leitura» com atividades adequadas e obrigatórias, devendo para isso envolver a Rádio e a Televisão. Livros há, agora há que fazer a rentabilização dos recursos postos à disposição do público leitor.

Continuidade significa expansão, crescimento, mas significa também interiorização. Para que a continuidade que a edição de novas obras representa seja eficaz não quer dizer possuir muitos livros de variados autores. Encher prateleiras, enfeitá-las com títulos e títulos não significa continuidade.

Esta palavra só se aplica se os livros forem lidos e fizerem parte do quotidiano das nossas crianças, em leitura silenciosa ou não, para o desenvolvimento do seu imaginário e possibilitar a melhor aprendizagem da língua e, até mesmo, quem sabe?, ser a forma de incentivar e criar o gosto pela leitura e escrita e como continuidade e motivação para o surgimento de novos autores.

Tudo tem uma base e o manuseio constante de livros de estórias, a sua leitura consciente, vai formar não só bons leitores mas também futuros escritores.

As crianças, quando bem orientadas e acompanhadas, são capazes de mostrar que têm capacidades de criar por si próprias estórias interessantes.
 
Referências:

Fonseca, António - «Literatura infantil cresce»
- Jornal «O PAÍS» wwwikipédia, a enciclopédia livre – Literatura infantil Portalangop/lazer-e-cultura/Concurso «Quem me dera ser onda» Jornal de Angola online /cultura-União dos Escritores Angolanos lança livros em árabe e francês


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