Literaturas africanas em português em destaque na bienal de Brasília

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Ana Paula Tavares e Ondjaki representaram Angola

Ana Paula Tavares destacou os novos temas da literatura angolana Fotografia: JÚNIOR ARAGÃO

A poetisa e historiadora angolana, Ana Paula Tavares, afirmou, no Seminário de Literatura Africana, constante da programação da I ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que decorreu de 14 a 23 de Abril na cidade de Brasília, que as fronteiras arbitrariamente traçadas pelas potências colonizadoras europeias na Conferência de Berlim, há 150 anos, demarcaram e impuseram recortes geográficos às nações africanas.

O debate, conduzido pela professora Rejane Vecchia, da Universidade de São Paulo, contou também com a participação do escritor de Cabo Verde, Germano Almeida.

Ambos os escritores africanos falaram sobre a produção literária contemporânea dos respetivos países. Ana Paula Tavares expôs como os anos 1980, em Angola, representaram um marco, “uma clivagem”, especialmente no que se refere ao fazer poético, em que a procura da melhor expressão poética passou não pela negação do passado, mas pela sua apropriação.

A escritora, autora de livros como “Ritos de Passagem” (1985), “O Lago da Lua” (1999) e “Manual para amantes desesperados” (2007), destacou a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, como uma data fundamental para o país, o momento de fundação de uma nação, a partir do qual a produção literária passou a abordar temas como guerra, corpo, desejo e solidão.

Já o escritor de Cabo Verde, Germano Almeida, falou do orgulho do homem cabo-verdiano pela sua própria terra: “mesmo havendo a necessidade de imigrar, levamos para onde quer que cheguemos os nossos costumes, a nossa força, a nossa voz”.

Relatou também a proeza que é produzir uma literatura que consegue conferir unidade e identidade a um povo de 600 mil habitantes espalhados em dez ilhas e pelo mundo. “Hoje a nossa literatura, inclusive, é mais leve, temos a habilidade de apontar as agruras com graça e humor”.

Para a professora brasileira Rejane Vecchia, o Brasil não assume devidamente a sua herança africana, sendo necessário “vencer uma política educacional que não nos oferece possibilidades de alargar a perceção e o conhecimento sobre o continente africano”.
Afirmou ainda que se deve avançar na “rutura de paradigmas equivocados, como a ideia de um continente africano homogéneo, único”. Sublinhou, igualmente, que a literatura é importante para esclarecer e preencher as lacunas da história.

Angola e Moçambique: identidades literárias

“Somos países africanos de língua portuguesa e não de expressão portuguesa”. A afirmação, em tom crítico, do escritor angolano Ondjaki, marcou a sua posição em relação à “recorrente e equivocada designação” quanto às produções literárias de Angola, Guiné Bissau, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

O desabafo foi emitido numa outra sessão do Seminário de Literatura Africana da Iª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Ondjaki reiterou que é contra as generalizações que reduzem as literaturas africanas à chamada “expressão portuguesa”, ressaltando que esses países são, na verdade, apenas de língua portuguesa. “Podem me chamar de escritor angolano ou de cidadão do mundo, mas lusófono não. Pertenço a um espaço que não obedece a vistos nem a acordos ortográficos, mas sim a uma comunidade de língua portuguesa”.

A outra presença notável e expressiva, no debate mediado pelo professor Eduardo Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais, foi a moçambicana Paulina Chiziane, a primeira mulher a publicar um romance no seu país. Em defesa da riqueza e originalidade da cultura do seu país, Chiziane confessou: “Temos medo do Brasil.

Um sem número de igrejas pentecostais, evangélicas, tem invadido, sem escrúpulo, o nosso país. Ontem, foram os colonizadores coma sua cruz e espada. Hoje, são os brasileiros, que trazem a cruz e a bíblia”.

Paulina Chiziane referiu que a história de Moçambique foi iniciada antes do colonialismo e que eram as mulheres que, à volta da fogueira, contavam estórias e compartilhavam os saberes. “A arte e a leitura eram femininas. Hoje há poucas mulheres a escrever e a contar a sua sabedoria”, disse.

A escritora lamentou que os estereótipos e preconceitos trazidos pelo sistema colonial continuem a ser reproduzidos. Sobre a barreira das línguas, relatou que mais de metade da população do seu país não fala português e, mesmo assim, “o idioma europeu é o utilizado para descrever Moçambique”.

Segundo avaliou, a própria declaração de Independência do país foi forjada com palavras, termos e ideologias do colonizador. “Apesar de sermos dois continentes distantes, temos semelhanças: o colonizador é o mesmo, são comuns algumas correntes de pensamento que influenciaram a constituição das nossas identidades.

 A literatura, nesse momento, significa uma negociação dessas identidades”. Lembrou que, desde a independência, a literatura moçambicana tem tido dificuldade de produzir denúncias e de se converter num espaço realmente reflexivo. Ao falar da resistência que parte da sua obra teve no seu próprio país, justamente por tratar de questões inter-raciais, declarou: “a Constituição diz que somos iguais, mas a vida mostra outra coisa”.

“Cada indivíduo deveria ter direito a múltiplas identidades. Forjamo-nos na luta de desejos e medos, não somos os mesmos todos os dias, e é isso que nos faz criar”, comentou o professor Eduardo Assis Duarte, a finalizar.

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