Luanda acolhe Escritores da CPLP

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Nem só de alcatrão e cimento se constroem as cidades, mas também da pena dos escritores. Por isso, o espírito da cidade habita a escrita que escorre da alma dos autores para o papel e, nessa escrita, se vislumbra a história das urbes, a modelação do sentido da vida humana, nesse intertexto entre o asfalto, a habitação, o formigueiro humano e o canto da ave do tempo que tudo esquece e tudo grava. Na memória do escritor.
Enquadrado sob o lema, “As cidades na Literatura”, Luanda acolheu, de 21 a 23 de Janeiro, o V Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, evento organizado pela UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa – em colaboração com a Comissão Administrativa da cidade de Luanda e integrado nas comemorações dos 439 anos da fundação da cidade de Luanda.

Luanda acolhe Escritores da CPLP
José Tavares, Graciano Domingos, Ulisses Correia e Víctor Ramalho Fotografia: Paulino Damião

Na abertura do encontro, a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, falou do “aumento do conhecimento da História e da Cultura dos nossos povos e países” proporcionado pelo encontro e disse que “a língua portuguesa se enriquecerá neste contacto profundo e permanente com as línguas nacionais dos países aqui presentes.”
Sob o olhar jovial do governador provincial, Graciano Domingos, o presidente da Comissão Administrativa de Luanda, José Tavares, saudou os participantes ao evento que reuniu representantes de vários povos sob o encanto de uma só língua, tendo realçado o facto desta ter sido a primeira edição do encontro fora da cidade do Natal (Brasil) onde decorreram as quatro primeiras. Aquele dirigente destacou a retomada do prémio literário Cidade de Luanda.
Por seu turno, o secretário-geral da UCCLA, Victor Ramalho, redesenhou a imagem da CPLP, ligando povos que “abraçam os oceanos”, criando, assim uma abertura para o mundo. Ramalho transportou para o agora a memória do Padre António Vieira, afro-descendente, que “enriqueceu a Literatura e a cultura dos nossos povos e países.”

O binómio cidade-escritor
O primeiro painel abordou o tema “Dinâmicas, Transformações e Ambiente Social”. Carmo Neto, secretário-geral da União dos escritores Angolanos (UEA) iniciou a sua fala sobre os 40 anos desta instituição, com uma provocação: “Que literatura teríamos se não houvesse intersecção no binómio cidade-escritor?
O secretário-geral da UEA disse que “é curioso ver que a cidade e a literatura são substantivos comuns que oferecem prestígio e atracção, exigem um indeterminado padrão identitário, e cujas definições não possuem um limiar definido que atraia unanimidades. (...)
Estes dois mundos, que dispensam consensos, fazem o consensual mundo do escritor. (...) Às portas dos seus 439 anos de idade, Luanda já inspirou e continuará a inspirar muitos artistas. Luanda já acoitou cordões umbilicais de muitos escritores, que grandemente contribuíram para o acervo literário do mundo da CPLP.”
Seguiram-se outras comunicações, nomeadamente:
“Loanda, Luanda, Luwanda: do nome à Literatura”, de António Fonseca; “Migração e identidade: experiência de uma comunidade em Macau”, Miguel Senna Fernandes.
Procedeu-se ao lançamento do livro do III Encontro de Escritores de Língua Portuguesa “Literatura e Lusofonia”.
No dia 22 de Janeiro, os intervenientes continuaram as discussões em torno do painel sobre “Dinâmicas, Transformações e Ambiente Social”. Manuel Rui apresentou um “Relatório de Expedição”; Pepetela considerou “Benguela, a Cidade Mestiça”; e Conceição Lima, poeta santomense, mostrou “A infância habitante da minha cidade”.

Da infância às migrações
O segundo painel debateu “As Migrações e as Cidades” e nele intervieram:
Marco Guimarães, do Brasil, com o tema “As viagens de Saci Pererê”; José Luís Tavares, de Cabo-Verde, que falou de “Erguer(-se) pela palavra - uma fenomenologia da criação poética”; João Lopes Filho, também da terra da Morna, abordou as “Influências da Emigração na Cidade/Sociedade Cabo-verdiana”.
Para o dia 23 de Janeiro ficou reservado o terceiro e último painel dedicado a “A Infância nas Cidades”.
Temas e intervenientes directos:
“A criança, a mulher e a cidade na poesia Guineense”, Toni Tcheka (Guiné Bissau);“A Cidade e a infância, ou recordando Luandino e outros autores”, Ungulani Ba Ka Khosa (Moçambique); “Nossas cidades, nossos laços literários”, Suleiman Cassamo (Moçambique); “Pontos de Palavras”, José Fanha (Portugal);
“Algumas Cidades na poesia de Língua Portuguesa”, de José Carlos de Vasconcelos (Portugal); e “O ano em que conheci António Jacinto”, de Luís Cardoso (Timor Leste).
A sessão de encerramento do V Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que teve à mesa o presidente da Comissão Executiva da UCCLA, Ulisses Correia, o secretário-geral da UCCLA, Victor Ramalho, o presidente da Comissão Administrativa de Luanda, José Tavares, foi presidida por Graciano Domingos. O governador de Luanda falou do papel dos escritores na preservação da memória, pois preservar a língua, nas suas diferenças do local onde é falada, demonstra a riqueza cultural dos países e povos da CPLP. Além de facilitarem o convívio entre as cidades e os povos, os escritores são aqueles que informam o Mundo através dos seus monólogos que depois transpõem para o papel. “A política, em Angola”, finalizou o governador, “começou através dos monólogos silenciosos dos heróis”. Por isso, o escritor tem uma grande responsabilidade social pois o seu papel tanto pode redundar na construção da Paz ou na diabolização do Mundo. No final, Graciano Domingos recitou o poema de António Jacinto “CARTA DE UM CONTRATADO”.

Resgatar e preservar as culturas
Que impressões se entranharam na alma dos convidados n’ “esta Luanda (...) cujas águas, espíritos e a sua kianda, juntos”, todos abençoaram para que “o encontro de homens que transpiram literatura pudesse produzir luz e versos sobre um trinómio que a todos encanta”, como vaticinou Carmo Neto?
Conceição Lima, de São Tomé, sentiu-se muito grata pelo encontro, pois “são raros estes momentos com escritores dos diferentes espaços do espaço comum que é a CPLP.” Para Conceição Lima, “momentos como este são, de facto, uma oportunidade preciosa”, por ainda não terem a frequência que deviam ter.
Suleiman Cassamo, de Moçambique sai de Luanda com uma impressão bastante positiva. Para ele, “o encontro serviu para avivar as nossas memórias, a memória dos nossos lugares, os nossos lugares de partida, como pessoas, como homens, como escritores e como combatentes, porque não?, recordar a nossa trajectória comum de luta contra o colonialismo, de luta pela procura do bem-estar para os nossos povos e países, de luta para resgatar e preservar a riqueza das nossas culturas.”
De Portugal, o carismático porta José Carlos Vasconcelos, director do Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), disse que “estes encontros entre escritores de Língua Portuguesa, obviamente, são muito relevantes e, como todos os encontros, não se pode esperar daqui milagres, mas são relevantes, desde logo para as pessoas se conhecerem, para criar ou aprofundar os laços de amizade, solidariedade, camaradagem.”
“Infelizmente”, continuou o director do JL, “o que acontece é que, muitas vezes, estas coisas depois não têm continuação e aprofundamento e acho que há uma certa falta de iniciativa neste sentido, o exemplo maior é o da CPLP. Para dar um exemplo mais especificamente literário, em relação ao Prémio Camões, que é o maior prémio da língua portuguesa, é de prestígio, eu tenho defendido que a entrega do prémio devia ter outro tipo de projecção e organização e isso devia ser acompanhado da edição duma obra do laureado em todos os países da língua portuguesa. Isso acabava por ter muito mais eficácia que ter uma coisa que é só um Presidente da República . Simbolicamente, isso é interessante, mas tinha muito mais eficácia, do ponto de vista da divulgação da obra do escritor e do seu conhecimento, que houvesse uma edição dum livro considerado representativo ou duma antologia nos vários países.”
Luís Cardoso, escritor timorense disse que a literatura em Timor está ainda em construção. “Estamos a fazer uma travessia em prol duma literatura timorense em língua Portuguesa como em língua Tétum, as duas línguas oficiais de Timor Leste.” Luís Cardoso revelou que manteve conversações com o embaixador do seu país em Luanda, para uma futura divulgação em Angola da literatura do seu país.

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