Luis Rosa Lopes: No cenário da poesia Ango

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3. O erotismo, fonte inesgotável de metáforas

Luis Rosa Lopes: No cenário da poesia Ango

Os Amores
Nessa parte do livro a poesia de Lopes traz a marca mais evidente da poesia angolana contemporânea, o erotismo, que como mencionamos no início destas reflexões, é fonte inesgotável de metáforas.
Nos novos tempos, mesmo sendo de guerra, o erotismo figura como liberdade de expressão após o jugo colonial e a herança cultural europeia de restrições sentimentais, muitas das vezes ditadas pela Igreja. Assim, os poetas encontram no erotismo a expressão da vida contra a dor que permeia o desanimador cotidiano.
Na sequência de poemas dessa parte o erotismo faz-se notar sob diversas nuanças. Desde os títulos já se nota recortes líricos que ora expressam a volúpia do amor carnal, como em “Molhado e seco”: “Molha-me, meu amor/ com tua seiva doce/ de teus lábios de jasmim/ o meu flu, flu, flu...” (p. 81); ou em “Rosa escura”: “não me fazendo rogado/ desejando aquilo mesmo/ sofri tonturas constantes/ volúpias servidas a esmo” (p. 66); ora do amor enlouquecedor, como em “Agridoce loucura”: “loucura sim.../ loucura sim.../ e a prova que enlouqueci/ é que fiz este poema para ti” (p. 72); ora a dor do amor cobiçado, como em “Convite”: “esse sorriso.../ são broches/ em teus lábios/ de filigranas finíssimas/ convidando/ a...” (p. 71); do não realizado, como temos em “Marrebentando”: “essa kambuta/ medestrata/ marrebenta/ memaltrata/ quase que memata.../ mefaz passar por tolo.../ mas contudo.../ eme muene nga muzolo [eu gosto dela]” (p. 70); do amor findo, em “Eterno espinho”: “do amor terno e sereno/ num instante, arrasador/ nada sobrou,/ nada sobrou” (p. 65); do amor alucinado como em “Meu vício” (p. 83):

tu és minha macanha
tu és o meu café
tu és minha maconha
meus vícios todos, até
(...)
e se o quiser o destino
deixar de te ver de vez
por vontade tua sem dó
que morra em desatino
que me chame quem me fez
tudo isso a ficar só

A parte “Os Amores” é a que contém o maior número de poemas. A maioria deles trata do amor erotizado que, como vimos, é meio de salvar a vida contra a dor do cenário de guerras e perda de utopias.
No poema “ÁKHA” o poeta vale-se dessa palavra, que é uma interjeição muito utilizada pelos povos do Centro e Sul de Angola, conforme esclarece em nota, e a associa à metralhadora AK-47, criado por Kalashnikov, recentemente falecido. Assim, a referência à guerra, na parte “Os Amores”, é uma das muitas facetas da temática do erotismo na poesia angolana, figurando como reflexão sobre os problemas enfrentados por Angola ao longo dos 30 anos de escrita do poeta. Nesse poema o passado é reinventado, com novas possibilidades, pelo trabalho criativo da memória e pela exploração da palavra e suas sonoridades (p. 78):

ákás a mais
lembrando tempos idos
ainda por cá há...
ainda...
ainda...

mas hoje
mesmo um áká
ao ver e ver-se
sobre teu corpo nu
lhapetece embora
é sublimar-se
das guerras
e exaurir-se
em rajadas eróticas

ákha!...

Assim, a palavra é experimentada em seus múltiplos significados e no espaço amplo do papel, que figura como uma tela em branco para a manifestação da arte. São exemplos os poemas “Santa ignorância”, em que as palavras são ajustadas ao papel lembrando uma antena para aparelhos tecnológicos, em uma alusão ao concretismo. Nesse poema, o suporte (a página em branco) é explorado como veículo para a exposição da expressão, em uma simbiose.
À página é conferido o status de espaço para experimentações estéticas, como também se nota em “Neutrões”, que procura reproduzir em um momento presente a sensação da queda da bomba durante a guerra, com a palavra “tomba” justamente tombada na folha. O ritmo acelerado, as palavras curtas dispostas em versos de uma ou duas palavras dão a impressão do desnorteamento das pessoas diante do inevitável: “Fujam!.../ Não fujam!.../ Pra quê?.../ Não vale a pena!/ É a bomba.../ É a bomba...” (p. 40).
Também no poema “AMORANDO EM CUBOS”, composto todo em blocos numerados, exceto o primeiro e o último, tal qual um pintor diante da tela o poeta descompõe, para compor, sua imagem do corpo da amada (p. 76):

como em picasso incomum
desmonto todo o teu rosto
suspiros e tons, um zumzum
o braço, a mão, sem desgosto
teus pelos ralos, um a um
(...)

III
com as mãos desenho falos
para o sovaco odores mil
das coxas e intervalos
chegam-me contornos de anil
linguajar, canais, estalos
a explosão primaveril

Também em “Esporádico” o erotismo e o trabalho do poeta e do pintor se aliam para a expressão em um momento de consciência de “desencontro de culturas” de que o poeta é herdeiro, assim como a mulher amada (p. 79-80):

(...)
Olho um Remdbrant, um Miró
Cenas eróticas numa parede
Num hotel rasca de Paris
Cópias baratas penduradas
Tão sós e deslocadas como eu
(...)
Dispo-te e és mais um quadro
Só que já estás só
Como que por feitiço
Apenas ficaste tu
Sobrepondo-te à parede
Muito maior, atulhando o espaço
E és do tamanho do meu coração
(...)
E já só te vejo a ti
Minha mescla de áfricas e europas
Amálgama de ásias, américas e oceânias
Minha mulher única e universal
Meu desencontro de culturas
Meu erário e herança
(...)


LANA CONTEMPORÂNEA

Conclusão
A ligeira leitura que empreendemos dos poemas de Lopes evidencia sua inserção no cenário da poesia angolana contemporânea, que coincide com os anos da Segunda Guerra de Libertação Nacional. Assim como Macedo percebe, a nova poesia angolana bebe na fonte dos mais-velhos, mantendo em suas temáticas a continuidade da expressão do proprium e, como buscamos evidenciar, inova ao experimentar os recursos tecnológicos e a liberdade de expressão, seja do ponto de vista da forma, seja quanto ao conteúdo.
A afirmação de Carmen Tindó (2007, p. 169) de que a nova poesia angolana procura construir uma “geografia da emoção e da amizade atenta às origens, às próprias palavras e à musicalidade do poema”, enfatizando o diálogo com as origens, corrobora nossa percepção de que a poesia de Lopes se insere nessa geografia, assim como ele mesmo, pois, para além das suas temáticas de eleição que o comprovam, ao final do livro o poeta oferece uma “Pequena homenagem a minhas Eras”, com poemas de Aurélio de Oliveira Neves (Nga Voto), Aurélio Neves da Rosa Lopes (Voto) e Georgina de Castro V. Louro (mãe), permitindo notar a atenção às suas origens, assim como o seu trabalho com as palavras e a exploração de sua sonoridade, como buscamos demonstrar.
Essa percepção da origem e do contexto que notamos na poesia de Lopes nos leva de volta a Gadamer, posto que as leituras que fazemos de um determinado tempo é sempre referente a certa época histórica, porque o mundo está contido nela, mesmo que longa e abrangente, pois pode ser recortada, como fez o poeta. A expressão crítica do eu lírico sobre suas eras pode ser um modo de não se submeter aos conceitos prévios de seu tempo. A história a que o poeta pertence é o ponto de partida para suas reflexões, mas ele contribui, com sua poesia, para as novas transformações que criarão novas épocas históricas. Ao reagir criticamente ao que no passado se construiu, e com base nessa construção, é que se criam novas concepções sobre a vida. De sorte que, pela expressão poética, o sujeito tornou-se consciente de sua experiência ao longo de trinta anos de guerra e de vida e alcançou novos horizontes que são aberturas à experiência, posta em funcionamento pela própria experiência. E o homem experimentado já aprendeu tanto com as vivências que é capaz de viver outras mais, caso do escritor Luis Lopes, que se envereda pelo campo da poesia como nova forma de expressão e de transformação.
Para concluir, valemo-nos das metáforas criadas pelo poeta Jorge Macedo no livro que apoiou esse breve estudo sobre a poesia angolana atual e, como parte dela, a de Lopes:
Em Angola, novos e velhos poetas caminham lado a lado, (...) certos de que uma literatura é uma orquestra composta por vários instrumentistas, tocando instrumentos diversos, de timbres diferentes e partituras, cuja harmonia e beleza resultam do concurso de todas as vozes musicais, no espaço e no tempo. Razão por que a literatura se pode definir como uma inesgotável polifonia interpretada por várias épocas e gerações (MACEDO, 2003, p. 29).

Marilúcia Mendes Ramos(UFG)

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