Luis Rosa Lopes: No cenário da poesia angolana contemporânea

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1. Uma incontornável contextualização
Após 13 anos de guerra anticolonial, Angola conquista sua Independência a 11 de novembro de 1975, mas concomitantemente tem início uma nova luta que duraria 27 anos, a Segunda Guerra de Libertação Nacional (ou Guerra Civil, conforme a denominação portuguesa), em que as três forças unidas contra o colonizador passam a disputar o poder de governar a nova nação. É nesse cenário de guerra entre irmãos, abrangendo o período de 1975 até 2002, que se vai configurando a literatura angolana contemporânea, com a tematização do proprium e da luta anti-imperialista (presentes na literatura de militância dos anos de luta independentista e de conscientização), aliada a leituras de um novo cotidiano, principalmente urbano. No que respeita à poesia, gênero literário de disseminação de sentimentos patrióticos para mobilização massiva e das variantes culturais naqueles anos, notam-se atualmente preocupações com os aspectos formais e experimentais, como nos poemas do angolano Luis Rosa Lopes.


Luis Rosa Lopes: No cenário da poesia angolana contemporânea
Livro Fotografia: Paulino Damião

A história me precede e antecipa-se à minha reflexão.
Pertenço à história, antes de me pertencer.
Hans-Georg Gadamer (1900-2002)

A epígrafe de Gadamer, constante de seu estudo filosófico Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica (1960, apud RICOEUR, 1990, p. 39), parece-nos apropriada para a nossa reflexão sobre a poesia de Luis Lopes Rosa e o espaço que ocupa no cenário histórico e poético de Angola após a conquista de sua Independência em 1975, quando, concomitantemente, tem início a Segunda Guerra de Libertação Nacional que perdurará até 2002. É nesses anos de guerra e perda das utopias que sua poesia é cuidadosamente gerada, expressando as agruras, as iras e as formas de resistência. O autor, fruto do amor de uma mulher portuguesa e de um angolano, reflete sobre essa condição de entre-lugar em tempos de guerra, e o faz explorando ao limite o conhecimento privilegiado da língua do colonizador, ensinada inicialmente pela mãe portuguesa, professora; e, do pai, vem a componente africana, a herança das tradições orais que se apreende nas práticas cotidianas, a poesia das estórias contadas, e o conhecimento sobre o trabalho respeitoso no manejo da terra, sua lavra. Lopes é mestiço, militante, agricultor, administrador, narrador e poeta e o cenário de perda das utopias na nova guerra iniciada em 1975 permeia sua poesia, que conjuga de modo harmonioso, simbiótico, a forma e o conteúdo. De sorte que Lopes pertence à história antes de se pertencer e sua poesia expressa essa consciência de continuidade do ser e da história em curso quando de seu nascimento. O poeta é fruto de contingências, mas sabe-se igualmente agente de transformações que legará às novas histórias.
Julgamos que para se pensar os rumos da poesia angolana contemporânea e nela localizar o trabalho de Lopes há que se recordar antes do percurso por ela trilhado e, para tal, apresentamos os dados abaixo, sintetizados de estudo do angolano Jorge Macedo, Poesia Angolana 1975-2002: apontamentos históricos. Embora Macedo selecione o período da Segunda Guerra de Libertação de Angola, período que também nos interessou na pesquisa sobre a narrativa curta, elenca em seu minucioso levantamento de dados as temáticas recorrentes na poesia angolana desde antes do início da Primeira Guerra de Libertação.
Com fins didáticos, recortamos desse seu trabalho, como sistematizado a seguir, primeiramente as constantes formais e, em seguida, os dados relativos às temáticas da poesia angolana.
Poética de literatura oral, de comunicação (poética transparente, mobilizadora, comunicacional): Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Tomás Jorge, António Neto, Alda Lara (Testamento), Antero de Abreu, Alexandre Dáskalos, Ernesto Lara Filho, António Cardoso, Manuel Lima, Geraldo Bessa Vitor, Mário António (poemas revolucionários dos anos 50/60), Costa Andrade, Humberto Sylvan, João-Maria Vilanova, Jofre Rocha, Jorge Macedo, Adriano Botelho de Vasconcelos, Rui Augusto, João Augusto, Amélia Dalomba;
Poética retórico-sentimental, de conceitos (de grandes recortes filosóficos e de formulação transcendental): Tomaz Vieira da Cruz (Quisange), Agostinho Neto (Sagrada Esperança), Raul David, Manuel Lima, Costa Andrade, Arnaldo Santos, Henrique Guerra;
Poética de discurso reticente, de obra aberta (sentidos difusos e imagens herméticas, por vezes para fugir à censura): Arnaldo Santos, João-Maria Vilanova, Manuel Rui, David Mestre, Samuel de Sousa;
Poesia simbolista (imagens subjetivas e raras): João Maimona, José Luis Mendonça, João Tala, Fernando Kafukeno, Adriano Botelho de Vasconcelos, Arlindo Barbeitos.
Poesia nacionalista só no tema (anticolonial, que dos anos 40-70 denunciou ao mundo a situação de opressão dos angolanos): principalmente poemas de Agostinho Neto, que circulavam na clandestinidade, policopiado.
Poesia de duplo nacionalismo no tema e na linguagem (poemas nas línguas nacionais e portuguesa): como os de António Jacinto (“Poema da alienação”) e João-Maria Vilanova.
Poesia de “desencanto” (frustração com a reconstrução nacional, guerras seguidas, desaparecimento da solidariedade, de linguagem reticente, hermética por vezes): Sapyruka (“Na hora d’içar o epitáfio”), Euclides Mariano (“Geografia do tempo”), Luísa Castel (“Separação”), Ngamilanhi, Rui Augusto (“Os novos senhores”), E. Bonavena (“Cidade sem sino”), Ana Paula Tavares (“Rapariga”, e outros poemas em prol da libertação da mulher e contra amarras da cultura étnica).
Poesia telúrica (temas bucólicos, por vezes acríticos, patrióticos): Ana Paula Tavares (“Colheitas”), Rui Duarte de Carvalho (A decisão da idade: “Venho de um sul/ medido claramente; em transparência de água fresca de amanhã/ de um tempo circular/ liberto de estações/ De uma nação de corpos transumantes/ confundidos/ na cor da crosta acúlea/ de um negro chão elaborado em brasa”).
Poesia de amor: afetivo/erótico (libertados dos tabus e jugos coloniais, o mundo afetivo do amor e seu erotismo passa a ser tema predileto, com fontes inesgotáveis de metáforas, de recortes líricos sublimes): José Luis Mendonça (“Como um país natal”), João Tala (“Se os meus olhos adormecessem”), David Mestre (“A serpente”), Adriano Botelho de Vasconcelos (“Poema Mulher”), Ana Paula Tavares (“Amargas como frutos”), Domingos Florentino (“Brilho, nos teus olhos”), João Melo (“Assim te amo”), Luis Kandjimbo (“Canto às simetrias”).
Desse trabalho de Macedo, selecionamos ainda alguns poetas contemporâneos para comentar suas linhas de força, as quais também estão presentes na poesia de Lopes como veremos.
Conforme testemunha Jorge Macedo, no processo de criação de uma continuidade para a formação da literatura angolana, poetas que pegaram em armas no movimento independentista permaneceram na vanguarda de reconstrução nacional na nova guerra de libertação e a eles se juntaram os novos poetas:
Escritores de vanguarda como Agostinho Neto, Antero Abreu, António Jacinto, António Cardoso, Tomás Jorge, Gasmin Sá Cortez, Rui de Matos, Aires de Almeida Santos, Costa Andrade, Arnaldo Santos, David Mestre, Ernesto Lara Filho, Henrique Guerra, Henrique Abranches, João Abel, João-Maria Vilanova, Jofre Rocha, Jorge Macedo, Ruy Duarte de Carvalho, Manuel Rui, Maria Eugênia Neto, viram engrossar as suas fileiras por jovens poetas (...) sob a bandeira da “Trincheira Firme da Revolução em África” (MACEDO, 2003, p. 8).
Na década de 1980, certo desencanto tomou conta dos escritores revolucionários diante da constatação da despolitização dos partidos e do enfraquecimento do Estado Nacional. Essa perda das utopias conduziu à busca da expressão do humano, o que resultou na “politização dos sentimentos e da amizade” (ORTEGA, 2000, apud SECCO, 2007, p. 159), experimentados como “novas formas de sociabilidade”.
Embora o cenário de mais guerra, à medida que Angola vai construindo sua história pelas próprias mãos, as temáticas e metáforas vão expressando essas mudanças. Desse modo, a poesia de fins dos anos 80 até o ano de início da paz, 2002, expressará de modo contínuo a melancolia experimentada com as atrocidades cometidas durante a guerra de 1975-2002 e a fome e a miséria com ela advindas, mas outros temas e procedimentos se somarão. É exemplo João Maimona, que trata desse momento de nova guerra em meio à conquista da Independência, bem como da corrupção, versando sobre “a morte, que cobriu de luto a terra angolana”, porém o poeta busca fugir do caos com imagens de resistência, como os símbolos aéreos constantes em sua poesia levam a perceber (o ar, o vento, as aves, as abelhas).
Poetas como Frederico Ningi, Fernando Kafukeno e José Luis Mendonça também tematizaram a guerra sem fim, expressando a melancolia por ver o sonho da liberdade ofuscado, mas privilegiarão a forma de expressão. No primeiro pode-se afirmar que usa da ironia e de imagens e símbolos gráficos, denunciando por meio de fortes alegorias a perda das utopias durante a nova guerra de libertação; no caso de Kafukeno, essa representação dá-se pelas imagens do crepúsculo e da aurora “fusca” e “frouxa” que voltam à memória do poeta “há anos” e “hoje”; e, quanto a Mendonça, a melancolia está expressa nas imagens de incapacidade do voo libertador de Luanda, como no poema “De asas sob a terra”, cujas metáforas desse voo frustrado são de “pássaros estrangulados” e “asas sob a terra”, levando o poeta ao grito (SOARES, 2001, p. 364).
Assim como na poesia de Maimona, o voo e as aves nos poemas de Mendonça são imagens da vontade de fuga ao caos e de liberdade de expressão, envoltas nas do erotismo, tão frequentes na poesia contemporânea, como no poema “Blusa cor de rosa”:

Blusa cor de rosa
sobre o ondular
marítimo de tua pele negra

Blusa cor de aves úberes
em voo alíseo
nos olhos profundos da mãe-Terra

Blusa cor de rosa
vela enfunada pela anémona
dos teus seios feiticeiros

onde a minha boca
como uma onda quer
in loco mover-se.
(kotodianguako.blogspot.com)

Os poetas João Maimona, José Luis Mendonça, Lopito Feijó e outros novos poetas que a eles se juntam, formam a corrente simbolista-concretista, a qual, segundo Maimona, prefere “a subjetividade e o gosto pela mancha sem contornos, verso fluido, sugestivo (...) e sensibilidade fina e requintada, imagens subjetivas e raras”, querendo mais sugerir que afirmar (MAIMONA, 2001, p. 125, apud MACEDO, 2003, p. 26).
Dentro dessa corrente, Lopito Feijó, assim como Frederico Ningi, apresentam uma poesia de contornos iconoclastas, com “imagens dissonantes, experimentalismos visuais, construções paródicas irreverentes” (SECCO, 2007, p. 163).
A poesia contemporânea de autoria feminina também retratou esses anos de guerra, refletindo sobre o contexto social de Angola, como Ana Paula Tavares (poesia sobre a dor na Angola de 1990-2000, com fortes alegorias), Ana de Santana, Lisa Castel, Maria Alexandre Dáskalos e Amélia Dalomba (poetas que refletem sobre os problemas sociais de Angola, mas afirmam paralelamente outra luta: a do direito de ser mulher, reivindicado pelo erotismo).
Opção pelas tradições fez antes Ruy Duarte de Carvalho, antropólogo, cineasta, poeta, romancista, que, como antropólogo, viajou principalmente pelo sul de Angola e de lá recolheu expressões da tradição oral e as retratou em suas artes. Entre suas obras figuram Chão de oferta (1972), A decisão da idade (1976), Como se o mundo não tivesse leste (1977), Exercícios de crueldade (1978), Hábito da terra (1988), Vou lá visitar pastores (1999).
Nota-se, com frequência, que em meio à guerra de libertação iniciada em 1975, os poetas encontram no erotismo a expressão da vida contra a dor que permeia o cotidiano, como mencionamos, dentre eles está também João Melo, poeta que enfrenta os medos e dores do passado e do presente de guerra, buscando as raízes por meio do “esperma inicial”, como se percebe em poemas do livro Canção do nosso tempo (1989). João Tala igualmente encontra na temática do erotismo elementos para a expressão poética, como em “Se os meus olhos adormecessem”, de A forma dos desejos (1997).
É possível notar, então, no quadro da poesia angolana contemporânea, algumas invariantes, como Carmen Tindó Secco assim sintetiza:
Entre algumas das invariantes da poesia angolana atual podemos destacar, a despeito do tom amargo e crepuscular de alguns poemas, o tema do erotismo, do amor, da amizade; a opção pela metapoesia; a reinvenção do passado através do trabalho criativo da memória (SECCO, 2007, p. 159).
No que toca à metapoesia, os poetas vêm refletindo de modo permanente sobre o labor poético desde os anos 70, como confirmam poemas de David Mestre, Arlindo Barbeitos e, como exercício poético constante, os de Ruy Duarte de Carvalho. Ressalte-se que a metapoesia só se torna marca da poesia angolana depois dos anos 80, como é o caso, dentre outros tantos, de Luis Kandjimbo.

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

Marilúcia Mendes Ramos (UFG)

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