Maiakovski e os poetas africanos de língua portuguesa

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Com o desenvolvimento de nossas pesquisas, percebemos que a poesia russa também esteve presente nos meios literários angolanos. Notamos que foi muito forte a presença de Puchkin, Boris Pasternak e de Maiakóviski, este último tendo uma importância decisiva na produção poética da chamada “Novíssima Geração” angolana.

Maiakovski e os poetas africanos de língua portuguesa

Os estudos comparatistas permitem-nos confrontar obras de autores tão díspares no tempo e no espaço, desde que apresentem, pelo menos, um ponto comum. Os pontos convergentes são importantes, contudo não são fundamentais para um trabalho comparativo. Estamos desenvolvendo uma pesquisa sobre as relações das literaturas africanas com a literatura russa, utilizando um material novo e buscando outros caminhos que apontem para a efetiva ligação entre autores africanos de língua portuguesa e autores russos. Já apresentamos, em dois momentos, o encontro literário entre Gorki e o angolano Luandino Vieira. Ressalte-se que esta relação foi confirmada pelo próprio angolano num encontro realizado na cidade do Porto, em novembro de 2014. Quando analisamos os contos “Vovô Arkhip e Lionka”, de Gorki e “Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos”, Luandino disse-nos que, durante a nossa exposição, lembrou-se que havia lido o conto russo nos seus 14 ou quinze anos em Luanda. Gorki para ele sempre foi uma referência importante.
Com o desenvolvimento de nossas pesquisas, percebemos que a poesia russa também esteve presente nos meios literários angolanos. Notamos que foi muito forte a presença de Puchkin, Boris Pasternak e de Maiakóviski, este último tendo uma importância decisiva na produção poética da chamada “Novíssima Geração” angolana. Foi durante o evento comemorativo ao cinquentenário de Luuanda e a Luandino Vieira que tivemos contato com o poeta angolano José Luís Mendonça. Foi também ali que conversamos sobre poesia, sobre os poetas e suas leituras. Revelou-nos um entusiasta leitor de Maiakovski, dizendo de sua preferência ao poema “A nuvem de calças”. Este foi o primeiro passo e, a partir daí, fomos verificar que, de fato, Mendonça tinha uma predileção pelo poeta russo. Numa entrevista dada a Laura Padilha (2010) declarou-se leitor de Pessoa, Whitman e Maiakóvski, acrescentando “Maiakóvski marcou-me muito”.
O poeta nasceu no ano de 1955, no Golungo Alto, província de Kuanza Norte. Jornalista, começou a publicar muito cedo em diversos periódicos angolanos e portugueses, com destaque para o Jornal de Letras, Artes e Ideias. Membro da União de Escritores Angolanos, desde 1984. Publicou os livros de poesia Chuva novembrina (1981), Gíria de cacimbo (1987), Respirar as mãos na pedra (1991), Logaríntimos da alma – Poemas de amor (1998). Em 2010, publicou o livro Poesia manuscrita pelos hipocampos e recentemente (2013) publicou o romance No reino das casuarinas. Mendonça tem plena consciência do seu fazer poético: sabe que foi o introdutor de um trabalho estético mais aprofundado (preocupação da estética do verso; o poeta como artesão). O seu objetivo central é “mostrar a beleza afro-angolana”. Diz que sua poesia, apesar de ser apontada por críticos, como ideológica, com forte carga social - para ele era fundamental o trabalho com o verso, “até lhe fazer sair a gema do brilho solar íntimo, mesmo quando trato da questão social”.
Daí entender-se a sua simpatia por Maiakóvski. O russo construía versos que uniam forma e conteúdo, forma revolucionária com um conteúdo de renovação social. (Campos et all, 1968) Os atritos constantes de Maiakovski com aqueles que “pretendiam reduzir a poesia a fórmulas simplistas”. Maiakovski não aceitava posições de “burocratas do verso”, achava – inclusive – que os leitores de poesia tinham perfeitas condições de entender um verso mais trabalhado, não havia porque simplificá-lo.
Vejamos, por exemplo, o poema Balalaika, cuja construção é bem maiakovskiana:

Balalaica

(como um balido abala
a balada do baile
de gala)
(com um balido abala)
abala (com balido)
(a gala do baile)
louca a bala
laica

A tradução do poeta Augusto de Campos aproxima-se muito da construção de Maiakóvski, como se pode observar na transliteração do poema:

Balalaica

(budto laiem oborvala
scripki bala
laica)
(s laiem oborvala)
oborvala (s laiem)
(laíki bala)
láicu bala
laica
(1913)

A repetição dos fonemas l e b (balalaica, budto, laiem, oborvala, bala), vamos encontrar também na recriação de Augusto de Campos (balalaica, balido, abala, balada, baile). Há também a presença do fonema c (laica, louca), e a repetição desses fonemas dão uma musicalidade importante. Vê-se que o poeta trabalhou os versos de forma “artesanal”, intentando uma unicidade e uma harmonia ao poema. A forma de construir versos de Maiakóvski repercutiu em todos os continentes. É muito conhecido o seu “Como fazer versos”, e as relações que existem entre o russo e o angolano passam pelas leituras dos poemas e do seu trabalho teórico. Contrariando os burocratas teóricos, Maiakóvski afirmava que o gosto pode e deve ser educado. A exigência de transparência do texto não significa a “simplificação do texto”. A comunicação exige, de fato, uma clareza, mas tal clareza, não pode ser simplista.
Se pensarmos nas construções dos versos de Mendonça, veremos que ele considera que seus versos se apresentam como “imagens cinematográficas:
“o meu verso é uma câmera de filmar e de fotografar nas mãos de um anjo que me persegue por todos os lados. Eu estou constantemente a ser filmado e o meu cérebro, as minhas ideias também...minha mente é um território habitado por personagens inverossímeis e flores mágicas, o anjo fílmico está dentro de mim e filma-me através do coração” (2010, p. 202)
O leitor pode pensar que o poeta está utilizando de metáforas para dizer que os seus versos são visuais, aproximando-se da composição cinematográfica, os seus olhos são a câmera que vê o externo e o interior e fazem um amálgama de tudo. As suas imagens comprovam isso. Também é muito importante a relação que Mendonça faz da poesia com a música, com a dança e com a pintura. O poema “A rubra lágrima do Congo” é um bom exemplo dessa posição:

A Rubra lágrima do Congo
(óleo sobre tela)

Entre mandíbulas de cobre o sol desponta
de crepúsculo na mão e vozes de palmeiras
no sexo aberto Um vapor electriza
o milimétrico sintoma de perdidos
passos de estação Eu crocodilo
o espanto descalço que ladrilha
o francófono azulejo da manhã
De quarentenas na mão um negro
deus atravessa a rubra lágrima do Congo.

Há uma descrição poética de um quadro. A pintura serve de objeto para o fazer poético de Mendonça. As imagens ressaltam a pintura: “o sol despontando entre as mandíbulas de cobre”, as “vozes das palmeiras” e o surgir de um “deus negro” atravessando “a rubra lágrima do Congo”. O encontro da pintura com a poesia, um encontro feliz, pois possibilita uma série de imagens que dão ao leitor um prazer duplo: a apreciação do quadro e sua representação poética. Aliás, este encontro entre poesia e pintura é destacado por Bosi (2000) em O ser e o tempo da poesia: “...o verso livre e o poema polirrítmico são formações artísticas renovadas. Isto é, novas e antigas. Seguindo trilhas da música e da pintura, a poesia moderna também reinventou modos arcaicos ou primitivos de expressão. O móvel de todos é o mesmo: a liberdade. ” (Bosi, 2000, p.90)
Maiakóvski foi um dos poetas que reinventaram os modos de expressão, os versos livres e a liberdade na duração dos versos e na construção das estrofes deram um novo vigor ao fazer poético. O elemento visual dinâmico, o verso livre o poema polirrítmico estão presentes nos poemas do angolano José Luís Mendonça, que também busca uma importante relação com a música. Como no poema de Maiakóvski “Balalaica”, Mendonça trabalha os seus versos na busca pela liberdade criadora e o seguinte poema de Mendonça também parece indicar isso:

Os mortos não dormem

Os mortos não dormem são quissanjes*
de profundos teclados em repouso
Atravessam levemente o rio
da eternidade e a sua voz levita e é o maximbombo**
de um certo munhungo*** extraterrestre
Discam os signos da noite
nas grandes mansões em que sonhamos
Os mortos não dormem caminham
connosco vivendo a vida que esquecemos.

Bosi acrescenta ainda que o precursor da nova visão, do novo fazer poético foi o poeta norte americano Walt Whitman que criou “o verso livre que se desdobra em períodos longos e espraiados.” (Bosi, 2000, p.90) Whitman tem uma particularidade que coincide com Mendonça: os versos dele possuem uma relação com o versículo bíblico. Mendonça – na entrevista dada a Laura Padilha, afirma que as leituras de sua infância auxiliaram-no a buscar a palavra poética como seu objeto de trabalho e a bíblia foi uma dessas leituras. Chega a dizer com certo ar de mistério: “Era uma bíblia ilustrada, própria para crianças que alguém “esqueceu” na minha casa, pessoa esta que até hoje não sei quem é, mas que me fez muito bem à alma e me deu um espírito de sonhador exuberante e festivo”. Acreditamos que foi por esta razão que o angolano colocou Whitman como uma das suas leituras. Bosi cita mais três poetas que buscaram a liberdade na construção dos versos, o brasileiro Manuel Bandeira, o italiano Ungaretti e Maiakovski, poetas que “reatualizaram a sintaxe oral a que deram um novo travo de sinceridade pungente ou irônica”. (Bosi, 2000, p. 93)
De Maiakóvski, Bosi apresenta o poema “A plenos pulmões”

Meu verso chegará
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com labor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.

O poeta, como um operário da palavra, trabalha e retrabalha os versos e eles têm a durabilidade de uma arquitetura romana. Trata-se da reafirmação maiakovskiana de que a linguagem poética deveria ser aquela escolhida pelo poeta, ele deveria ter a liberdade de compor os seus versos de acordo com sua vontade criativa. A liberdade na construção do poema dá ao poeta a consciência de que seu verso é transformador. Para o poeta Maiakovski, o verso tinha um objetivo definido, o objetivo de alcançar a consciência do leitor, fazendo-o refletir sobre a condição humana. Os versos finais de “A plenos pulmões” dão a medida exata do quanto Maiakóvski valorizava o trabalho poético
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e seca,
e, basta, -
para mim é tudo.
Ao
Comitê Central
do futuro ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.
dezembro, 1929/janeiro, 1930
(tradução de Haroldo de Campos)

Para Maiakovski, a sua militância estava no trabalho artístico. Estava ao lado do povo trabalhador por sentir-se um trabalhador, sua adesão à revolução foi imediata. Versos firmes e cortantes, em que as “Estrofes estacam/chumbo-severas,/prontas para o triunfo/ou para a morte (p.179) “A plenos pulmões” instiga e fustiga, parodiando Bosi, podemos dizer que os versos de Maiakovski apresentam uma “inquietante força poética”.
José Luís Mendonça também explora, com maestria, as imagens formadas por vocábulos ligados, como as que se encontram no poema “A sombra da palmeira e o círculo de fogo”
Mulher alta como a sombra da palmeira.
Mulher negra como o círculo do fogo.
Calumba que um dia foste
libanga dos meus sonhos.

Teu seio de pássaro inorgânico
ainda constrói nos meus dentes
um micro- clima de afectos
uma geografia de batuques
na insfrastrutura de um rio.

E mesmo agora ainda separas
no litoral de meu verso
a luz da tarde a luz verde do mar e a luz
vertical das palavras que nunca dissemos

Tomo entre as mãos ávidas de sangue
a kalashnikov dos teus lábios: crianças magras como tintas
diluem a minha imagem inderrogável
sobre cartão reciclado croquis iniciando um grafito
na memória cinegética da tua pele.

Assim desembocas o rácio do poema:
têmpera assimilada pelos bacilos
mais íntimos da chuva continente invertebrado
ovo pisado do vento agregando o portfolio
dos nossos corpos mais sujos que o conceito azul de terra.
Mulher alta como a sombra da palmeira.
Mulher negra como o círculo de fogo.
O poema todo é carregado de imagens fortes, muito particulares. Quando Mendonça disse que objetiva, ao fazer os seus versos, apresentar a beleza afroangolana, parece-nos que já tinha em mente este poema. A musa de “seio de pássaro inorgânico”, a construção de um “micro-clima de afectos” e de uma “geografia de batuques”. É a África simbolizada pelos elementos da natureza. Percebemos referências à Russia quando o eu-lírico se refere à kalashnikov (arma de fabricação soviética): “Tomo entre as mãos ávidas de sangue/ a kalashnikov dos teus lábios...”. É a musa ardente, a “libanga”, aquela que traz sonhos alucinantes. Também quando fala no “conceito azul de terra”, referência à célebre frase de Gagarin “A terra é azul”. A produção poética se aproxima da poética de Maiakovski pela construção e pelo posicionamento sobre a importância do verso e a posição do autor como artesão e como crítico da sociedade. Como Maiakovski, os versos do angolano são versos de um militante que tem como “carteira partidária” os versos que compôs, como é o caso do “Subpoema”

Subsaarianos somos
sujeitos subentendidos
subespécies do submundo

Subalimentados somos
surtos de subepidemias
sumariamente submortos

de subdotar somos
subdesenvolvidos assuntos
de um sol subserviente

A visão que o poeta apresenta, mostra uma Angola subdesenvolvida. Não só como são vistos pelos estrangeiros, mas também como se sentem, relegados e isolados. Importante notar que o poeta utilizou vocábulos (na sua maioria) com o fonema s. A visão negativa é caracterizada pelo prefixo sub (subespécies, subalimentados, submortos, subdotar, subdesenvolvidos, subserviente). Há uma evidente melancolia nestes versos, não há expectativa de nenhuma mudança de situação onde até o sol é “subserviente”. Sobre o poema e sobre o poeta a santomense Inocência Mata diz:
“...palavras constroem imagens visuais, sonoras, olfactivas, tácteis, mas também mentais, que convergem para o vivido, para a realidade a que elas se reportam...E esse universo africano e angolano é feito de corações nocturnos, corações calafetados, náufragos, nómadas, mortos que não conseguem dormir, rugidos da África ferida, fome. Tudo aquilo que o poeta designa como "”subespécies do submundo””.

A natureza, os homens, as mulheres, enfim os mais variados aspectos do cotidiano são motivos poéticos para Maiakovski e para Mendonça, conforme veremos nos poemas abaixo:

De Rua

Barracas – entre imagens gastas,
Bandejas sangram framboesas.
Num arenque lunar se arrasta
Sobre mim uma letra acesa.

Cravo as estacas dos meus passos,
O tamborim das ruas sente.
Lentamente os bondes-cansaços
Cruzam as lanças fluorescentes.

Alçando à mão o olho arisco,
A praça oblíqua põe-se a salvo.
O céu esgazeia ao gás alvo
O olhar sem ver do basilisco.
1913
(tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)

Poesia verde

No meio do caminho nunca houve uma só pedra
As pedras nascem na boca e a boca é o seu caminho
Das pedras que comemos as cidades ainda falam
Pelos cotovelos da noite Não eram pedras eram pedras
com cabeça tronco e sexo Pariram fábricas
de pedras montadas sobre a língua E as pedras comeram
a pedra que restou no meio do caminho

A princípio, os dois poemas apresentam uma estranheza própria de textos cujas imagens são insólitas. Em Maiakovski, “as bandejas sangram framboesas”; em Mendonça, “As pedras nascem na boca e a boca é o meu caminho”. Imagens estranhas, complexas. Contudo, uma leitura mais atenta e reflexiva leva o leitor que os dois poetas tratam de questões relacionadas à cidade; no caso do poeta russo, a cidade fervilhante, dinâmica, mantendo o segredo de cada cidadão num vai e vem frenético “...os bondes cansaços” cruzando “as lanças fluorescentes”. O poeta angolano, homenageia Carlos Drummond de Andrade no “poema verde”, entretanto, longe das pedras serem pedras, elas são muito mais que isso, são “pedras com cabeça tronco e sexo”, há também como no poema de Maiakovski a personificação dos objetos “a praça oblíqua põe-se a salvo” “as cidades ainda falam pelos cotovelos da noite”.
Partindo das observações sobre a natureza (todos nós vemos nos céus as nuvens que se formam parecendo animais, pessoas) ou observando, por exemplo, o surgimento de um fruto, os poetas encontram nesses momentos de criação da natureza, elementos para o seu fazer poético. A seguir, veremos um trecho do poema “Uma nuvem de calças”, poema preferido de Mendonça. Escrito em 1915, considerado o primeiro longo poema de Maiakóvski, nele encontramos todas as características maiakovskianas. O poema é traduzido por Emílio C. Guerra, organizador de uma antologia poética comentada do autor russo.(1987)
........................................................................

Ó delicados!
Vós que pousais o amor sobre ternos violinos
ou, grosseiros, que o pousais sobre os metais!
Vós outros não podeis fazer como eu,
virar-vos pelo avesso
e ser todos lábios.

Vinde, aprendei!
Venha do salão, toda em batista,
a funcionária solene da liga angelical.
E aquela
que confiante
folheia o livro dos lábios
como a cozinheira o livro de receitas.

Se quiserdes
Poderei enlouquecer de carne
ou então –
como um céu cambiando de tons –
serei, se quiserdes,
impecavelmente delicado.
Não serei um homem.
Serei
uma nuvem de calças.

Não creio que no mundo exista
Uma Nice plena de florações!
De novo tenho que glorificar
homens cansados como um hospital
mulheres tão gastas como um refrão.
............................................................
1915

Este é o fragmento do Prólogo do poema que fala sobre o amor. Com imagens belíssimas, construídas utilizando expressões muito particulares como nos versos seguintes: “Vós outros não podeis fazer como eu,/ virar-vos pelo avesso/ e ser todo lábios”, ou mesmo “aquela/ que confiante/folheia o livro dos lábios/ como a cozinheira o livro de receitas”. Em nome do amor, o eu-lírico é capaz de mudar (como as nuvens do céu vão mudando de formas): “serei, se quiserdes,/impecavelmente delicado./Não serei um homem./Serei/uma nuvem de calças.”
Podemos fazer a relação de “Uma nuvem de calças” com o poema de Mendonça “A sombra da palmeira & o círculo de fogo”, poema que comentamos anteriormente. Imagens trabalhadas e retrabalhadas. Interessante é notar a semelhança de construção nos versos seguintes: “E aquela/que confiante/folheia o livro do lábios/como a cozinheira o livro de receitas” (“Uma nuvem de calças”) e “Tomo entre as mãos ávidas de sangue/a kalashnikov dos teus lábios...” (“A sombra da palmeira & o círculo de fogo”).
Por fim, v. a “Ode à goiaba”, de Mendonça, mais um exemplo de que a poesia está em todas as coisas, não há distinção entre o que é e o que não é poético, posição defendida por Maiakovski e acompanhada pelo poeta angolano

Goiabas
surgindo como um rio amarelo
o perfume delas
rico de sínteses
das madrugadas encerradas
na penugem dos Katetes.

E o sol também

o sol camarada e operário
doirando a cabeça das árvores
quando os montes além
fecundam as ventanias
no sangue maternal das tardes.

Tudo isso é pouco p´ra caber numa goiaba.

Falta o sonho da palma
da mão
no começo de sua estação.

Tão naturalmente angolano e tão universal! A animalização da natureza é uma marca da escrita africana. O existir de um fruto por si só já é um convite ao poético, uma forma de exaltar a natureza e o seu trabalho para alimentar os seres e “o sol camarada e operário” vai também realizando o seu trabalho.
A poesia de Maiakovski serviu de motivação para muitos poetas em todo o mundo, trouxemos aqui um desses poetas. Oriundo de um país africano, colonizado durante séculos pelos portugueses, mantendo vínculos com as diversas etnias, nestes locais também nascem poetas que reformam o trabalho com a palavra, sempre tendo em vista as ligações com poetas de outros países. José Luís Mendonça ao declarar-se leitor de Maiakovski, acrescentou que sua poesia deveria ter uma ligação com a realidade prática, mas também que houvesse a presença do imaginário africano. Uma poesia ao mesmo tempo local e universal.
Notas
• Quissanje: instrumento musical de percussão.
• Maximbombo: ônibus.
• Munhungo: vida dissoluta.

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