Memória da colonização da Huíla - O Planalto do Kissonde de Jorge Arrimar

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Embora este não seja o lugar próprio para desenvolver questões teóricas e pese embora o facto de termos tido sempre presentes as fronteiras conceptuais entre a história e a literatura, atrevemo-nos mais uma vez a afirmar, contrariando ousadamente Jacques Le Goff mas sem chegar ao radicalismo de Paul Veyne, que entendemos que uma ficção de temática histórica ­ isto é, que incide sobre os objectos da história, o passado e a memória, não vividos pelo ficcionista ­ pode transcender a mera interrogação preliminar acerca do facto histórico e, além de expor o como, conseguir pelo menos contribuir para explicar o por quê.

Jorge Arrimar e Alberto Oliveira Pinto

Este postulado, que desde o Romantismo do dealbar do século XIX converteu a história ­ não apenas a dos historiadores, mas também a dos romancistas -, de mera narrativa dos factos pretéritos em tentativa de explicação dos mesmos, aplica-se plenamente à trilogia romanesca que Jorge Arrimar acaba de concluir: O Planalto dos Pássaros (2002), O Planalto do Salalé (2012) e O Planalto do Kissonde (2013).

Os três romances têm por temática a colonização das Terras Altas da Huíla, seguindo o fio condutor das gerações que se sucedem na fictícia família Pilarte. O tempo diegético de O Planalto dos Pássaros é o século XVIII, o de O Planalto do Salalé os três primeiros quartéis do século XIX e, finalmente, o de O Planalto do Kissonde, o último quartel de oitocentos, culminando no ano de 1900, marcado pela inauguração da Fazenda Amélia.

Nos três volumes, o autor, nascido em S. Pedro da Chibia, no Planalto da Huíla, em 1953, curiosamente com formação académica em História, prima desde logo, tal como no seu livro de estreia Ovatyilongo (1975), pelo bilinguismo entre o português e o nhaneka.

Nunca me canso de dizer que tive oportunidade de assistir a este bilinguismo de Jorge Arrimar, não apenas na escrita, mas na própria oralidade, quando em Novembro de 2012 o acompanhei numa viagem inesquecível à sua querida Chibia.

E esta mesma povoação, S. Pedro da Chibia, cuja fundação em 1885 - por famílias portuguesas, bóeres, bastards (mestiços de bóeres, koi-san e bantus), suecas, holandesas e inglesas -, marcou precisamente o início do último quartel do século XIX em Angola, é que é a verdadeira protagonista do terceiro volume da trilogia dos planaltos, O Planalto do Kissonde.

Não é por acaso que O Planalto do Kissonde, além de conter as meticulosas notas e o elucidativo glossário tal como os volumes que o antecederam - O Planalto do Salalé apresenta igualmente, nas páginas finais, uma interessante árvore genealógica da família Pilarte -, tem a particularidade de abrir, logo entre as dedicatórias e o prólogo, com um mapa com as principais localidades das Terras Altas da Huíla e do Deserto do Namibe, que se lhe estende a sul.

É que a leitura deste romance, O Planalto do Kissonde, narrado pela personagem Paulino Pilarte e pelo seu filho Huilano Pilarte, implica, em nosso entender, estabelecer a distinção entre dois tipos de personagens: aquelas a que poderíamos chamar lugares da memória; e as personagens propriamente humanas, que derivam das anteriores.

A povoação de São Pedro da Chibia, que inicialmente acolheu um grupo de madeirenses arrancados à sua ilha de origem pelo ministro Sá da Bandeira, evidencia, desde logo, o seu principal fundador, o oficial português de segunda linha Pedro Augusto Chaves.Este antigo chefe do concelho da Huíla ­ presídio fundado em 1845, outro lugar da memória ­ é casado com D. Guilhermina Alemão Coimbra, cujo pai era "José da Costa Alemão, natural da cidade de Coimbra e desbravador da serra da Mantiqueira, no Brasil, e das terras áridas do Bumbo, em Angola, que incorporara o nome da sua cidade natal no seu apelido, ao ter ido residir para o Brasil" (p.57), para não ser confundido com os emigrantes alemães.

O casal inaugurará a "Fazenda Amélia", destinada sobretudo ao cultivo da cana-de-açúcar, em 1900, ano que serve de baliza cronológica final ao tempo diegético do romance. Amélia era o nome, quer da consorte do monarca português reinante, D. Carlos I, quer da falecida mãe de Pedro Augusto Chaves.

Este também fez questão de que o topónimo da localidade que fundou incluísse o seu santo padroeiro, S. Pedro. E qual o significado de Chibia? Chibia deriva do nhaneka otchiivia, nome de "uma cerimónia do culto dos antepassados que era habitual fazer-se na margem direita do rio Tchimpumpunhime" (p.53).

Aqui deparamos com a segunda personagem de relevo, outro lugar da memória, o rio Tchimpumpunhime. Este afluente do Caculovar deve o seu nome à onomatopeia tchimpum-pumpum, do rugir do leão, o nhime. Não posso, a propósito, deixar de recordar as minhas impressões sobre o Tchimpumpunhime quando, juntamente com Jorge Arrimar e o seu primo Joaquim, almocei na quinta de Virgílio Coimbra, precisamente na margem esquerda deste rio.

Naquele lugar, o Tchimpumpunhime lembrou-me estranhamente a ribeira de Colares dos meus primeiros romances. Curiosamente, no último capítulo de O Planalto do Kissonde, o narrador informa que o fundador da Chibia, Pedro Augusto Chaves, era oriundo de Colares, e até serviu vinhos dessa região aos seus convidados na inauguração da "Fazenda Amélia". Será que Pedro Augusto Chaves também identificou o Tchimpumpunhime com o Colares ou isto não será apenas uma coincidência e uma conjectura de leitor?

O Tchimpumpunhime serve, aliás, de referência topográfica aos primeiros colonos da Chibia, pois ao tempo da chegada de Pedro Augusto Chaves já se encontravam instalados, na margem direita do rio, a Ióba, algumas famílias, sobretudo algumas bóeres, de entre as mais de trezentas que, provenientes do Thirstlande Treck (3º Grande Treck ou 3ª Grande Migração) - saído em 1875 do Transval, às vésperas da anexação, por parte da Grã-Bretanha em 1876/77, desta região a norte do rio Vaal ­, tomaram a direcção noroeste, atravessando a área do Calaári correspondente aos actuais Estados do Botswana e da Namíbia, e progrediram para norte, ao longo do rio Cubango (ou Okavango), com nascente em Angola, chegando em 1879 às margens do rio Cunene, onde viriam a defrontar os humbes (do grupo nhaneka-humbe) e os seus vizinhos cuamatos e cuanhamas (do grupo ambó ou ovambo).

Desde 1878 que este trek bóer, sob a autoridade de Jacobus Frederick Botha, negociava com o Cônsul-Geral de Portugal no Cabo a sua instalação em terras da Huíla, havendo conseguido em 1880 a concessão, por parte das autoridades portuguesas, de cerca de 200 hectares de terra por família na Humpata, e vindo a ser decretada em Novembro de 1881 a sua naturalização em bloco como cidadãos portugueses.

As vantagens desta iniciativa, para a potência colonizadora, residiam sobretudo na triplicação da população branca das Terras Altas da Huíla, além da entrada em Angola de cerca de 100 cavalos e 2000 bois e da aquisição de centenas de indivíduos peritos no manejamento de espingardas, que se revelariam úteis nas campanhas do centro e do sul de Angola contra os cuamatos e cuanhamas, até meados do primeiro quartel do século XX.O narrador especifica as famílias da margem direita do Tchimpumpunhime: "os bóeres Black e Wandrich, os ingleses Hayes, os suecos Swamströn e Erikson e os holandeses Van-derKellen" (p.53). O caçador sueco Erikson, também conhecido por Karuapa, é o tio-avô de Iobana, a jovem que enfeitiça Huilano Pilarte mercê de qualquer coisa que se afigura como que uma espécie de "exotismo ariano".

Aliás outros "exotismos arianos" ­ ou mirabilia de uma Europa longínqua, quiçá -, bem próprios da cultura colonial do Planalto da Huíla, aos quais o chibiano Jorge Arrimar não consegue escapar, nos surgem neste romance para nos trazer outros lugares de memória personificados.

É o caso da povoação do Lubango, que seria elevada a categoria de cidade em 1923 com o nome de Sá da Bandeira, até recuperar o topónimo original com a Independência de Angola. O Lubango chega-nos, neste romance de Jorge Arrimar, com sabor aos licores de D. Maria Cristina Ferro, esposa do madeirense João António Noronha Bettencourt.

Mas onde está o kissonde, essa formiga guerreira, ameaçadora mencionada metaforicamente no título do romance e evocada, ainda que em abstracto, no desenho da capa de Mário Leitão (Mariot)?

O kissonde representa a guerra, dura e persistente realidade do Sul de Angola na época que este romance trata, da qual o autor tem plena consciência e cujo espectro se encontra bem presente, quer neste romance, quer nos que o antecederam. As sombras das guerras do Humbe com Chaungo e Luhuna, dos anos de 1885-86 e 1891, entre as tantas campanhas militares portuguesas contra os povos menos submissos que se convencionaram designar por "guerras de pacificação do gentio" e que se multiplicaram depois da consagração do princípio de ocupação efectiva dos territórios pela Conferência de Berlim (1884-1885), marcam as páginas de Jorge Arrimar, tal qual o kissonde, na tradição angolana, espalha a ameaça e o medo por entre o capim. A guerra que o kissonde personifica encontra-se igualmente no choque de culturas exemplificado pela maneira díspar como é encarada, por moradores e por humbes, a OmuNomo ou Omunomo, a epizotia ou peste bovina que grassou entre os anos de 1897 e 1899.

Mas, em O Planalto do Kissonde, a subjectivação histórica do facto colonial, que em nosso entender o kissonde também representa, emerge particularmente através de duas personagens reais que o discurso colonial português classificou como "Bons Selvagens", por se haverem mostrado úteis aos desígnios do colonizador. A primeira dessas personagens é Vita, mais conhecido por Orlog, o único negro que, em 1948, o historiador Gastão Sousa Dias evidenciou entre os quarenta "heróis" da história de Angola que seleccionou no seu Julgareis qual é mais excelente... (Figuras da História Angolana). Na descrição de Vita/Orlog, por muitos considerado um "amigo" dos portugueses, dêmos a palavra ao próprio Jorge Arrimar: " [...] caçador e companheiro de Erikson, tornou-se um grande guerreiro.

Era de origem tswana pelo pai (filho de Tom, outro guerreiro, nascido no Botswana, e chefe de uma temida horda de mercenários formada por berg-damaras, hereros, bastardos e bochimanes). Vita nasceu na missão alemã de Otjimbingue (no antigo Sudoeste Africano, hoje Namíbia), em 1863 e diz-se que morreu em 1937 no Kaôko, para onde fora depois de 1918, encontrando-se enterrado em Opuho, na Namíbia. Começou a combater ao lado dos portugueses, em 1890, nas campanhas portuguesas do Bié. Vita quer dizer "Guerra" em várias línguas do sudoeste africano. Os bóeres chamavam-no de "Oorlog", palavra que quer dizer "guerra" em afrikaans" (p.264).

A outra personagem é Pedro de Água Rosada, o príncipe herdeiro do Congo que, em 1897, foi mandado estudar para a Missão da Huíla por alguém que pretendia ­ e o conseguiu com êxito ­ afastar do poder. A história do desmoronamento do reino do Congo, marcado pela batalha de Ambuíla em 1665, pelo Movimento Antonionista de Beatriz Kimpa Vita entre 1682 e 1706 e, por fim, pelas "campanhas de pacificação" do século XIX, que levaram à imposição de reis controlados pelos portugueses, como foi o caso do marquês de Katende, conhecido como D. Pedro V, do qual D. Pedro de Água Rosada seria o herdeiro legítimo, é complexa e fascinante. Jorge Arrimar chegou a dedicar ao percurso do desventurado D. Pedro de Água Rosada dois longos capítulos, o XVIII e o XIX, cerca de 50 páginas que constituem o embrião de um romance autónomo. Oxalá Jorge Arrimar venha a escrevê-lo.

E oxalá venha a continuar, também, a saga dos planaltos, estendendo-a pelo século XX. Se este romance termina com uma festa onde assistimos aos primórdios do que virá a ser o famoso Carnaval da Chibia, que conhecemos por outras descrições do autor, porque não agora o Planalto do Carnaval?

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