Memória da colonização da Huíla - O Planalto do Kissonde de Jorge Arrimar

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Embora este não seja o lugar próprio para desenvolver questões teóricas e pese embora o facto de termos tido sempre presentes as fronteiras conceptuais entre a história e a literatura, atrevemo-nos mais uma vez a afirmar, contrariando ousadamente Jacques Le Goff mas sem chegar ao radicalismo de Paul Veyne, que entendemos que uma ficção de temática histórica ­ isto é, que incide sobre os objectos da história, o passado e a memória, não vividos pelo ficcionista ­ pode transcender a mera interrogação preliminar acerca do facto histórico e, além de expor o como, conseguir pelo menos contribuir para explicar o por quê.

Jorge Arrimar e Alberto Oliveira Pinto
Este antigo chefe do concelho da Huíla ­ presídio fundado em 1845, outro lugar da memória ­ é casado com D. Guilhermina Alemão Coimbra, cujo pai era "José da Costa Alemão, natural da cidade de Coimbra e desbravador da serra da Mantiqueira, no Brasil, e das terras áridas do Bumbo, em Angola, que incorporara o nome da sua cidade natal no seu apelido, ao ter ido residir para o Brasil" (p.57), para não ser confundido com os emigrantes alemães.

O casal inaugurará a "Fazenda Amélia", destinada sobretudo ao cultivo da cana-de-açúcar, em 1900, ano que serve de baliza cronológica final ao tempo diegético do romance. Amélia era o nome, quer da consorte do monarca português reinante, D. Carlos I, quer da falecida mãe de Pedro Augusto Chaves.

Este também fez questão de que o topónimo da localidade que fundou incluísse o seu santo padroeiro, S. Pedro. E qual o significado de Chibia? Chibia deriva do nhaneka otchiivia, nome de "uma cerimónia do culto dos antepassados que era habitual fazer-se na margem direita do rio Tchimpumpunhime" (p.53).

Aqui deparamos com a segunda personagem de relevo, outro lugar da memória, o rio Tchimpumpunhime. Este afluente do Caculovar deve o seu nome à onomatopeia tchimpum-pumpum, do rugir do leão, o nhime. Não posso, a propósito, deixar de recordar as minhas impressões sobre o Tchimpumpunhime quando, juntamente com Jorge Arrimar e o seu primo Joaquim, almocei na quinta de Virgílio Coimbra, precisamente na margem esquerda deste rio.

Naquele lugar, o Tchimpumpunhime lembrou-me estranhamente a ribeira de Colares dos meus primeiros romances. Curiosamente, no último capítulo de O Planalto do Kissonde, o narrador informa que o fundador da Chibia, Pedro Augusto Chaves, era oriundo de Colares, e até serviu vinhos dessa região aos seus convidados na inauguração da "Fazenda Amélia". Será que Pedro Augusto Chaves também identificou o Tchimpumpunhime com o Colares ou isto não será apenas uma coincidência e uma conjectura de leitor?

O Tchimpumpunhime serve, aliás, de referência topográfica aos primeiros colonos da Chibia, pois ao tempo da chegada de Pedro Augusto Chaves já se encontravam instalados, na margem direita do rio, a Ióba, algumas famílias, sobretudo algumas bóeres, de entre as mais de trezentas que, provenientes do Thirstlande Treck (3º Grande Treck ou 3ª Grande Migração) - saído em 1875 do Transval, às vésperas da anexação, por parte da Grã-Bretanha em 1876/77, desta região a norte do rio Vaal ­, tomaram a direcção noroeste, atravessando a área do Calaári correspondente aos actuais Estados do Botswana e da Namíbia, e progrediram para norte, ao longo do rio Cubango (ou Okavango), com nascente em Angola, chegando em 1879 às margens do rio Cunene, onde viriam a defrontar os humbes (do grupo nhaneka-humbe) e os seus vizinhos cuamatos e cuanhamas (do grupo ambó ou ovambo).

Desde 1878 que este trek bóer, sob a autoridade de Jacobus Frederick Botha, negociava com o Cônsul-Geral de Portugal no Cabo a sua instalação em terras da Huíla, havendo conseguido em 1880 a concessão, por parte das autoridades portuguesas, de cerca de 200 hectares de terra por família na Humpata, e vindo a ser decretada em Novembro de 1881 a sua naturalização em bloco como cidadãos portugueses.

As vantagens desta iniciativa, para a potência colonizadora, residiam sobretudo na triplicação da população branca das Terras Altas da Huíla, além da entrada em Angola de cerca de 100 cavalos e 2000 bois e da aquisição de centenas de indivíduos peritos no manejamento de espingardas, que se revelariam úteis nas campanhas do centro e do sul de Angola contra os cuamatos e cuanhamas, até meados do primeiro quartel do século XX.

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