Memória da colonização da Huíla - O Planalto do Kissonde de Jorge Arrimar

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Embora este não seja o lugar próprio para desenvolver questões teóricas e pese embora o facto de termos tido sempre presentes as fronteiras conceptuais entre a história e a literatura, atrevemo-nos mais uma vez a afirmar, contrariando ousadamente Jacques Le Goff mas sem chegar ao radicalismo de Paul Veyne, que entendemos que uma ficção de temática histórica ­ isto é, que incide sobre os objectos da história, o passado e a memória, não vividos pelo ficcionista ­ pode transcender a mera interrogação preliminar acerca do facto histórico e, além de expor o como, conseguir pelo menos contribuir para explicar o por quê.

Jorge Arrimar e Alberto Oliveira Pinto
O narrador especifica as famílias da margem direita do Tchimpumpunhime: "os bóeres Black e Wandrich, os ingleses Hayes, os suecos Swamströn e Erikson e os holandeses Van-derKellen" (p.53). O caçador sueco Erikson, também conhecido por Karuapa, é o tio-avô de Iobana, a jovem que enfeitiça Huilano Pilarte mercê de qualquer coisa que se afigura como que uma espécie de "exotismo ariano".

Aliás outros "exotismos arianos" ­ ou mirabilia de uma Europa longínqua, quiçá -, bem próprios da cultura colonial do Planalto da Huíla, aos quais o chibiano Jorge Arrimar não consegue escapar, nos surgem neste romance para nos trazer outros lugares de memória personificados.

É o caso da povoação do Lubango, que seria elevada a categoria de cidade em 1923 com o nome de Sá da Bandeira, até recuperar o topónimo original com a Independência de Angola. O Lubango chega-nos, neste romance de Jorge Arrimar, com sabor aos licores de D. Maria Cristina Ferro, esposa do madeirense João António Noronha Bettencourt.

Mas onde está o kissonde, essa formiga guerreira, ameaçadora mencionada metaforicamente no título do romance e evocada, ainda que em abstracto, no desenho da capa de Mário Leitão (Mariot)?

O kissonde representa a guerra, dura e persistente realidade do Sul de Angola na época que este romance trata, da qual o autor tem plena consciência e cujo espectro se encontra bem presente, quer neste romance, quer nos que o antecederam. As sombras das guerras do Humbe com Chaungo e Luhuna, dos anos de 1885-86 e 1891, entre as tantas campanhas militares portuguesas contra os povos menos submissos que se convencionaram designar por "guerras de pacificação do gentio" e que se multiplicaram depois da consagração do princípio de ocupação efectiva dos territórios pela Conferência de Berlim (1884-1885), marcam as páginas de Jorge Arrimar, tal qual o kissonde, na tradição angolana, espalha a ameaça e o medo por entre o capim. A guerra que o kissonde personifica encontra-se igualmente no choque de culturas exemplificado pela maneira díspar como é encarada, por moradores e por humbes, a OmuNomo ou Omunomo, a epizotia ou peste bovina que grassou entre os anos de 1897 e 1899.

Mas, em O Planalto do Kissonde, a subjectivação histórica do facto colonial, que em nosso entender o kissonde também representa, emerge particularmente através de duas personagens reais que o discurso colonial português classificou como "Bons Selvagens", por se haverem mostrado úteis aos desígnios do colonizador. A primeira dessas personagens é Vita, mais conhecido por Orlog, o único negro que, em 1948, o historiador Gastão Sousa Dias evidenciou entre os quarenta "heróis" da história de Angola que seleccionou no seu Julgareis qual é mais excelente... (Figuras da História Angolana). Na descrição de Vita/Orlog, por muitos considerado um "amigo" dos portugueses, dêmos a palavra ao próprio Jorge Arrimar: " [...] caçador e companheiro de Erikson, tornou-se um grande guerreiro.

Era de origem tswana pelo pai (filho de Tom, outro guerreiro, nascido no Botswana, e chefe de uma temida horda de mercenários formada por berg-damaras, hereros, bastardos e bochimanes). Vita nasceu na missão alemã de Otjimbingue (no antigo Sudoeste Africano, hoje Namíbia), em 1863 e diz-se que morreu em 1937 no Kaôko, para onde fora depois de 1918, encontrando-se enterrado em Opuho, na Namíbia. Começou a combater ao lado dos portugueses, em 1890, nas campanhas portuguesas do Bié. Vita quer dizer "Guerra" em várias línguas do sudoeste africano. Os bóeres chamavam-no de "Oorlog", palavra que quer dizer "guerra" em afrikaans" (p.264).

A outra personagem é Pedro de Água Rosada, o príncipe herdeiro do Congo que, em 1897, foi mandado estudar para a Missão da Huíla por alguém que pretendia ­ e o conseguiu com êxito ­ afastar do poder. A história do desmoronamento do reino do Congo, marcado pela batalha de Ambuíla em 1665, pelo Movimento Antonionista de Beatriz Kimpa Vita entre 1682 e 1706 e, por fim, pelas "campanhas de pacificação" do século XIX, que levaram à imposição de reis controlados pelos portugueses, como foi o caso do marquês de Katende, conhecido como D. Pedro V, do qual D. Pedro de Água Rosada seria o herdeiro legítimo, é complexa e fascinante. Jorge Arrimar chegou a dedicar ao percurso do desventurado D. Pedro de Água Rosada dois longos capítulos, o XVIII e o XIX, cerca de 50 páginas que constituem o embrião de um romance autónomo. Oxalá Jorge Arrimar venha a escrevê-lo.

E oxalá venha a continuar, também, a saga dos planaltos, estendendo-a pelo século XX. Se este romance termina com uma festa onde assistimos aos primórdios do que virá a ser o famoso Carnaval da Chibia, que conhecemos por outras descrições do autor, porque não agora o Planalto do Carnaval?

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