Natureza do texto literário angolano e o seu percurso histórico

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No tempo em que Boaventura Cardoso foi Ministro da Cultura e criou uma Comissão que integrava investigadores de Angola, Brasil e Portugal, para se debruçarem sobre a História da Literatura Angolana, deparámo-nos com um tema, bastante complexo, relacionado com a natureza do texto literário angolano e o seu percurso histórico.




No tempo em que Boaventura Cardoso foi Ministro da Cultura e criou uma Comissão que integrava investigadores de Angola, Brasil e Portugal, para se debruçarem sobre a História da Literatura Angolana, deparámo-nos com um tema, bastante complexo, relacionado com a natureza do texto literário angolano e o seu percurso histórico.
Estava levantada a celeuma que se constituiu num desafio intelectual a enfrentar. Pois, apercebemo-nos que nem todos os textos literários escritos em Angola deverão pertencer à História da Literatura Angolana. Houve textos literários coloniais cujas impurezas terão, eventualmente, influenciado o texto angolano?
Surgiram, então, discussões e debates sobre os atributos do texto literário angolano, facto que nos remete, até aos nossos dias, para a compreensão da sua natureza.

Natureza do texto literário
O texto literário, sendo um articulado coerente de palavras, proposições e frases, tem por objectivo estruturar uma linguagem que traduz uma mensagem singular, em qualquer sociedade.
Nesta condição, configura normalmente um universo de natureza ficcional, pluristratificado, constituído por diversos níveis de expressão intertextual que se relacionam uns com os outros.
No nosso tempo, o texto literário é preferencialmente texto escrito que substituiu o texto oral poético que lhe serviu de berço.
Convém, esclarecer, contudo, que estamos a introduzir os conceitos de texto oral e texto escrito. Aquele, o texto oral, elaborado através da oralidade, situa-se no campo da tradição e o texto escrito, elaborado através da escrita, no campo da modernidade, segundo a filosofia ocidental.
Porém, ambos situam-se no mundo imaginário. Basta, para o texto oral, penetrarmos na investigação dos conteúdos das estórias ou fábulas ou, ainda, nas canções poéticas dos momentos de entronização dos reis entre os bantus.
Vamos reter-nos, apenas, ao texto escrito, cujo efeito funcional dá lugar ao que alguns investigadores denominam de fingimento.
O seu enunciado privilegia a ficção, oscila entre o verdadeiro e o falso. Contudo, o texto literário é também produto social. O seu autor pensa que actua, individualmente, numa independência estética, à procura de um outro mundo.
Porém, não consegue libertar-se facilmente do ambiente que o cerca, pois quantas vezes fica coarctado pelo poder político ou simplesmente pelos códigos da sociedade em que foi educado?
O texto literário tornou-se, nos últimos tempos, o novo espaço de diálogo privilegiado com a sociedade. Pretende buscar um mundo histórico, simbólico e cultural, recheado de sonhos, dramas e tristezas.
O autor cria personagens que fazem tudo acontecer na dimensão transcendental. Na verdade, sem essa dimensão, o texto literário perder-se-ia, facilmente, na memória do tempo.
Tal como um escultor ou pintor, o escritor coloca o seu texto nas estrelas, embora viva no turbilhão de tempestades na vida quotidiana.
O texto literário encontrará, assim, a sua última dimensão no campo das artes à volta das quais, surgem e ressurgem outras dimensões que envolvem o escritor, enquanto principal actor do mundo em busca do humanismo ou da Humanidade.
O texto literário estará, indubitavelmente, próximo de uma escultura ou de uma pintura codificada, obrigando o leitor a descodificar questões de ordem filosófica que encerra.
Como obra de arte, liberta-se ou pretende libertar-se dos outros textos produzidos no mundo intelectual.
O texto literário será a obra de arte que estará mais perto de julgar a natureza humana.
Oscilando entre a vida e a morte, sem destino ou resposta determinada, o texto literário escrito ou oral pretende ir ao encontro de um mundo melhor, sendo este, em última análise, o objectivo de um artista.
Encontramos, assim, que os escritores laureados com o prémio Nobel da Literatura, nos últimos tempos, têm sido aqueles cuja temática incide em como um povo enfrenta as atrocidades da vida, luta e sonha para alcançar um mundo melhor.

O texto literário angolano
Seguindo a lógica do que acima ficou dito, o texto literário angolano, nasceu também no seio das primeiras comunidades que habitaram o nosso país. Pois, surgiu também do texto oral, antes de atingir o nível escrito que conhecemos hoje.
Esta afirmação obriga o escritor angolano a recuar, investigar e sonhar, a partir do mundo antigo, para ir ao encontro daquilo que, em palavras simples, denominamos de ancestralidade.
Sabemos que as populações angolanas conheceram, desde tempos recuados, dissabores que advieram do encontro e do desencontro com a cultura lusitana que pretendeu introduzir, à força, no território que viria a ser Angola, o seu modo de vida e de pensamento.
Na rejeição do elemento cultural externo, surgiram lágrimas, derramou-se sangue que se espalhou no solo pátrio por longos séculos, escorrendo pelos vales e rios, acabando por transbordar para o outro lado do Atlântico.
O texto literário angolano tem, assim, um espaço enorme por onde deverá caminhar. Memórias, ansiedades e sonhos ficaram transcritas nas canções, adágios, provérbios, transmitidos pelos textos orais poéticos.
Urge, assim, a necessidade imperiosa de afirmação do estudo das línguas nacionais em busca do texto literário oral angolano que foi expresso, exclusiva e expressamente, naquelas línguas.
Pois, são estas línguas que nos reportam as emoções do povo. O autor Alioune Diop, perguntava-se : “O que é que existe de mais emocionante, que não seja o espectáculo do desespero?”

O texto literário angolano
em busca da nação
Levamos séculos para, entre nós, acontecer o que teve lugar também noutras paragens do mundo: o surgimento do texto literário escrito em substituição do discurso oral.
Navegando neste longo percurso, detectamos que foram os escritores que fizeram surgir nações, sendo o mesmo que aconteceu no nosso país.
E até aos nossos dias, o fenómeno continua, as nações nascem ou são reivindicadas, muitas vezes sedimentadas pelo mito do texto literário escrito em línguas locais.
Aconteceu, também, entre nós. Os escritores do fim do século XIX, perpassando pelos da Mensagem, avivaram as ansiedades, empurrando o povo para a liberdade.
O texto literário escrito ficcionado ou, e de uma forma poética, ao cantar a rua, ao lamentar a condição da viúva, discorreu inevitavelmente do imaginário para o realismo, colocando em conflito directo o murmúrio das águas do Kuanza contra as águas do longínquo Tejo.
O texto literário angolano continua a ser, assim, uma temática que requer ser retomada, estudada para ser enquadrada no seu contexto histórico, pois associou-se às correntes literárias do mundo que lançaram os povos para a libertação.
E, na literatura angolana, a poesia sobressaiu, ao ponto de António Jacinto ter afirmado, em determinada altura que, durante o longo caminho para a liberdade, “tudo começara com a poesia.”
Mesmo, assim, parece-nos que o texto literário angolano apresenta certo déficit por não ter feito, ainda, uma profunda incursão nas línguas locais que alicerçam o munctu, conjunto de pensamentos e de aspirações do mundo bantu que pretende dar resposta aos fenómenos que ocorrem entre a vida e a morte.
Segundo o filósofo Tempels, a vida e a morte condicionam o comportamento humano entre os povos bantu que procuram e encontram soluções práticas, quando invocam os antepassados.

O texto literário angolano
em tempos do conflito armado
O texto literário angolano mergulhou também no turbilhão de suspiros vulcânicos dos tempos de conflito armado que caracterizaram os momentos de transição para a independência e para o dia da paz.
No período do pós independência, o texto literário angolano aparece, em alguns casos, confuso, pouco conseguido ou contraditório por não se ter libertado das amarras ideológicas que lhe serviram de fonte.
Notamos, assim, certa estagnação. Parece ter havido desencanto no seio dos seus autores, confrontados também com a problemática dos frutos amargos da libertação.
Por conseguinte, naquele período, o texto literário angolano não evoluiu, os seus autores afastaram-se da beleza da natureza, ficaram hirtos diante dos homens que desencantavam. Pois, as ansiedades nutridas no tempo da libertação, diluíram-se diante de um sonho de sangue e dor.
Contudo, em nosso entender, seja qual for a situação social ou política que vive, o escritor deverá evitar colocar-se à direita ou à esquerda dos acontecimentos, muito menos, situar-se no centro.
Pensamos que um texto literário, para produzir os efeitos desejados na sociedade a que pertence, deverá colocar-se um pouco mais acima dos acontecimentos, a fim de servir de lanterna ou de bússola dos homens.
Assim, podemos concluir que durante o período do longo conflito armado, o texto literário angolano colocou-se acima dos acontecimentos para cumprir a sua missão de forjador das almas.

O texto literário angolano
em tempos de paz
Conquistada a paz, poderíamos pensar que o texto literário angolano deveria libertar-se das amarras do seu contexto habitual e aproximar-se da temática da tradição africana.
Verifica-se, contudo, que os escritores angolanos não conseguiram, ainda, desprender-se das ideologias em que estiveram envolvidos.
Com poucas excepções, o texto literário angolano toca timidamente na temática cosmopolita do mundo bantu ao qual geográfica e historicamente pertence.
Poderíamos pensar que esta posição seja própria dos países em vias de desenvolvimento como Angola, onde o modelo político oscila e não transmite, ainda, a inspiração consistente dos criadores dos textos literários.
Encontrámo-nos, pois, na situação em que o sonho secular pela liberdade entrou num ciclo repetitivo do qual não tem conseguido libertar-se. Portanto, o texto literário angolano, não tem conseguido dar um salto, em pleno, na sociedade que pretende ser democrática.
Temos que confessar que o texto literário angolano deverá ter o pé assente na sua realidade social, antes de pretender voar para a universalidade.
Deve mergulhar no percurso secular das populações angolanas, onde encontrará a fonte suficiente, singular e inesgotável para a inspiração dos escritores e poetas.
Basta fazermos uma incursão para as duas realidades sociais onde assenta a fonte inspiradora geradora da angolanidade literária:
Por um lado, a ancestralidade que realça o munctu, conjunto de pensamentos inesgotáveis que repousam nos provérbios, adágios e advinhas, envolvidos no tirintar do batuque das noites escuras dos kazumbis dançantes.
Por outro lado, os modelos novos, mas também seculares, dos extractos sociais suburbanos que, ao longo dos tempos, continuam a influenciar a especificidade da angolanidade vindos dos continentes europeu e sul americano, através de Lisboa e Rio.
Será, certamente, através destas duas realidades sociais que o escritor angolano deverá reter a sua atenção, no sentido de lançar o seu talento para a universalidade.

Finalmente, como identificar
o texto literário angolano?
Definir, adjectivar ou destrinçar o conceito do texto literário angolano dos outros textos redigidos também em Angola ou no resto do mundo sobre Angola é uma proposta para uma reflexão dos fazedores da literatura.
Pois foi, em parte, tema de reflexão dos membros da Comissão de Redacção da História da Literatura Angolana no período acima referido.
Dos seus protagonistas, encontra-se eternamente ausente o escritor e crítico literário Jorge Macedo a quem dedico o presente texto de reflexão.
A pergunta continua: o que identifica o texto literário angolano?
Como foi atrás dito, o texto literário angolano, oral e escrito ficou, também, envolvido com os vários momentos políticos que marcaram a vida do povo angolano, durante séculos, cumprindo a sua missão.
Contudo, o autor do texto literário angolano produzido durante a luta de libertação nacional, conseguida a independência, a paz e, finalmente, a liberdade, confrontou-se com o contraditório e ficou preso no tempo tenebroso que, involuntariamente, atravessou.
A sua linha de pensamento ficou bloqueada pelos desencantos do conflito armado.
As tempestades amainaram, mas o texto literário angolano, acorda lentamente.
Convirá, assim, rebuscar ou recuperar o tempo perdido, a fim de o alinhar com os outros textos africanos e não só.
Apresentar o percurso histórico do texto literário angolano, continua a ser, assim, uma tarefa que deverá ser retomada.
Pois, no país, está sendo desenhada, agora, uma linha de pensamento político que influenciará a inspiração do escritor.
Porém, a questão em análise continua. Haverá, por certo, um texto puramente, angolano, que não tenha impurezas ou purezas de outras realidades sociais?
Os escritores laureados com o Prémio Nobel de Literatura terão atingido esse patamar por terem cantado só as ansiedades dos seus povos ou por se terem atrevido a cantar as perplexidades do mundo inteiro?
A resposta estará, certamente, nas várias dimensões do pensamento literário. O texto literário angolano encontra a sua âncora nas ansiedades do povo angolano, facto que faz do seu autor, o forjador da angolanidade.
Logo, todo o escritor que se envolva com as aspirações do povo angolano poderá produzir um texto literário angolano. Ficamos, assim, com a ideia empírica de que o nascer em Angola não nos habilita, naturalmente, a ser autor de um texto literário angolano.
Para o merecermos, repetimos, será necessário, sermos intérpretes das ansiedades, perplexidades simbólicas e culturais das populações de Angola, facto que nos arrasta para o conhecimento profundo dos seus hábitos, costumes e línguas.
Como as ansiedades, aspirações, vontades e desejos, de qualquer povo são iguais ou aproximados entre os povos do mundo, cantar ou chorar em Angola aproximar-nos-á, também, do cantar e chorar em qualquer parte do mundo.
Assim, podemos universalizar o texto literário angolano. Porém, a fonte do caminho está nos nossos pés.

NOTA CONCLUSIVA
Será necessário reter, como afirma o investigador Todorov, que não existirá denominador comum para todas as produções literárias.
Haverá, sim, acrescenta o mesmo autor, inviabilidade de se estabelecer um conceito referencial e uma definição real de literatura.
Olhando para o longo percurso histórico das sociedades angolanas, sua diversidade social, cultural, climática e extensão territorial.
Atendendo ao facto de sermos, ainda, um país com um modelo de desenvolvimento em afirmação e, por conseguinte, enfrentarmos um projecto de construção de Nação.
É motivo suficiente para concluirmos que o texto literário angolano, apresenta, ainda, um déficit que requer analisar como atrás ficou dito.
Vamos, finalmente, terminar a nossa reflexão com a seguinte citação do investigador Victor Manuel de Aguiar e Silva que nos lembra o seguinte:
“Se a ideia de literatura não é defensável como ideia essencialista, se o conceito de literariedade não se pode fundamentar em específicas propriedades textuais,
Se a expressão “objecto literário” é apenas uma metáfora espacial a que não corresponde um estatuto ontológico peculiar, ter-se-á de procurar nos sujeitos leitores, o fundamento do conceito da literatura.” Termina a citação.
Isto quererá dizer que somos nós mesmos (A. Neto) os leitores ou os fazedores do texto literário, a quem caberá definir as dimensões cognitivas do texto literário angolano.
E, se, apenas com o conhecimento do passado podemos melhorar o presente e augurar um futuro feliz, então, justifica-se plenamente esta aventura que aponta para o estudo da Natureza do Texto Literário Angolano e seu Percurso Histórico.
(Adaptação da Oração de Sapiência proferida pelo Académico Cornélio Caley, no ritual de tomada de posse como Membro Efectivo da Academia Angolana de Letras, no passado dia 29 de Outubro, no Memorial Agostinho Neto)

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