Neto e as gerações literárias do pós-independência

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Foi em Setembro que nasceu e morreu o poeta Agostinho Neto. Primeiro presidente de Angola e o maior exemplo intelectual para as gerações literárias angolanas do pós-independência.

Neto e as gerações literárias do pós-independência
Cordeiro da Mata, outro patriota desse período escreveu romances e poesia e compilou o primeiro dicionário de Quimbundo- Português, o que só por sí constituiu um ato de rebelião dado que os colonialistas portugueses reprimiam implacavelmente as manifestações literárias das línguas autóctones". Os textos de alguns autores deste grupo de escritores, foram compilados e publicados num livro intitulado " A VOZ DE ANGOLA CLAMANDO NO DESERTO". Obra de homens cultos e de grande talento cujo propósito confesso era o de «vingar a verdade ultrajada».

Num país em que reinava a escravidão, acusava A VOZ DE ANGOLA; «não pode haver nem trabalho, nem civilização nem progresso». Salienta que o trabalho do negro constituía a base de todo o crescimento económico da colónia, este livro punha em causa o regime colonial através de uma violenta acusação formal. «Este foi o ato de nascença da literatura Angolana...» segundo palavras de Mario Pinto de Andrade.

Sendo a literatura angolana um todo indubitável, quero dizer que apesar de algumas ruturas estético-literárias compreensíveis a geração 80 viu-se influenciada, e de que maneira fundamentalmente por Neto, mas também por autores de outras gerações cujo lastro vem desde os fídos de 40.

Neto é, por conseguinte, um mestre da nossa própria família de poetas, na esteira do pensamento critico de Harold Bloom, que em seu livro intitulado A ANGÚSTIA| DAS INFLUÊNCIAS diz-nos citando outro autor: «o coração de qualquer jovem é um cemitério em que se inscrevem os nomes de mil artistas mortos mas cujos únicos residentes são uns poucos que pautamos poderosos. (... )o poeta é assombrado por uma voz com a qual as palavras se têm de harmonizar».

Em arte, e como tal na arte literária, todo aquele que está disposto a progredir, assumindo-se artista como tal, dá à luz os seus próprios pais. Neto não só foi e será o pai das futuras gerações literárias de Angola e não só. Ele é mesmo o mais alto expoente dos integrantes da nossa família de poetas. Refiro-me a nossa família ética e estético-literária.

Convêm finalmente realçar, para governo das futuras gerações de escribas entre nós, que tudo isso implica necessariamente um requintado autodidatismo, formação, trabalho, entrega e muita leitura pois, Neto tal como outros... assim o fizeram no seu tempo.

Fizeram intensas e imensas leituras. Sobre esse período, conta Antero Abreu, advogado e então colega de Agostinho Neto, que liam os " Cadernos Verdes" das Editions Sociales, as " Noções Elementares de Filosofia" de Politzer, o " Le Marxisme" de Henri Leféve, o "Cogniet" e ainda livros de circunstâncias que deixaram marca indélevel como " Estes dias Tumultosos" do jornalista belga Van Passen, " Os dez dias que Abalaram o Mundo" e também livros de ficção e poesia como " A Mãe" de Maximo Gorki, "O Don Tranquilo" de Cholokov, toda a obra de Jorge Amado publicada até então, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Veríssimo, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, da "Rosa do Povo"... Da Espanha, Lorca e António Machado; de Portugal os neo-realistas como Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Fernando Namora, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado e Fernando Pessoa.

Deu-se o aprofundamento da descoberta dos grandes poetas da negritude, Aimé Césaire, Leon Damas, Senghor, e dos poetas negros americanos, Langston Hugles e Count Cullen, dos brasileiros Jorge de Lima e Solano Trindade, dos franceses Éluard, Aragon, Jacques Prévert, do soviético Vladimir Maiakovsky, dos americanos John dos Passos, Steinbeck, Caldwell, Ernest Hemingway, dos latinos-americanos Nicolas Guilmen e Pablo Neruda.

Só assim podemos entender que Neto tenha dado uma dimensão ética, humanista e universal -consciente do seu papel-, à toda sua poesia. Uma vida e poesia para a liberdade e para a paz, em África e no mundo. Eis o caminho!

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