Noites de vigília e a obra Romanesca de Boa Ventura Cardoso

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Breves notas sobre

Noites de vigília e aobra romanesca de Boa Ventura Cardoso
Boaventura Cardoso

Com a publicação deste novo romance, a obra de Boaventura Cardosoganha mais robustez, comportando agora sete livros, sendo três de contos e quatro romances, nomeadamente: Dizanga dia Muenhu(conto, 1979), O Fogo da Fala(conto, 1980), A Morte do VelhoKipacaça (conto, 1987) e O Sino do Fogo (romance, 1992), Maio, Mês de Maria (romance, 1997), Mãe, Materno Mar(romance, 2001) que mereceu o Prémio Nacional de Cultura e Artes (Literatura) de 2001 e Noites de Vigília (romance, 2014).
Noites de Vigília é uma narrativa fragmentária que se afasta da estrutura linear comum, evitando o tempo cronológico dos acontecimentos, privilegia o tempo psicológico das personagens. O leitor alcança a coerência da história através da leituraintegral doromance, na medida em que as suas células narrativas articulam-se progressivamente por forçada rentabilização dos expedientes técnico-compositivos a que o autor recorre, entre os quais se destacama psicologia autobiográfica das personagens e as anacronias:prolepses e analepses ou flash-backs.Por essa razão o autor adverte-nos acerca da sua estratégia de escrita narrativa quando na parte final no capítulo VI, escreve:

«Semanas depois daquele acontecimento fatídico, talvez por isso mesmo mais inspirado, dei por concluído o romance cujo título passou a ser Noites de Vigília. Contra a minha vontade, os personagens foram ganhando autonomia, começaram a falar por si mesmos, de modo que desisti de lhes forçar a seguir aquilo que eu achava ser o melhor percurso da narrativa, e assim as estórias foram se entrelaçando, se baralhando, sem ordem cronológica nos contecimentos, enfim, se envolteando no decurso de as correntes águas. Porque o que eu tinha planeado era centrar a minha atenção no período que vai do vinte e cinco de Abril de setenta e quatro ao onze de Novembro de setenta e cinco. Mas depois tudo acabou assim, os braços dos rios se misturando nas águas oceânicas.
Eu, Narratário, sem que o Autor e Narrador se apecebessem, li o romance por atencipação. Testemunho o esforço que os dois fizeram para parecerem isentos. Confesso que eles desconseguiram semelhar a distância neutral, pois cada um tinha seu caminho pré-escolhido, que eu percebi intuído».
Com esta incursão teórica sobre as categorias da narrrativa literária, o autor textual, que funciona no interior do próprio texto, pretende confundir-se com o narratário, instância a que corresponde o lugar ocupado pelo destinatário. Na verdade, a omnisciência do autor textual é esmagadora. Por isso diz que leu o romance por antecipação. Mas vai sendo controlado pelos impulsos dos próprios narradores que são personagens. No entanto, o saber enciclopédico do autor textual anónimo é-lhe emprestado pelo autor empírico, Boaventura Cardoso, que terá intencionalmente pretendido alcançar os efeitos que as revelações autobiográficas das personagens, as anacronias e o texto fragmentário produzem.
A história gravita à volta das narrativas autobiográficas de dois amigos de infância, ex-militares, cujo reencontro ocorre em 2003 no mercado do Roque Santeiro de Luanda, após a separação em 1976. Só casualmente na sucessão de eventos emergem outras personagens que, assumindo a sua própria fala, não alteram a proeminência de Quinito e Sauindo, mas sobretudo do primeiro.
Ora, é através da referida estrutura fragmentária que os narradores-personagens alternam os papéisquando debitam o fluxo dos acontecimentos. O autor textual, e por que não dizer o autor emprírico, propõe-nos uma reflexão sobre a relação entre a memória individual e a memória coletiva denunciando a fragilidade humana que se manifesta através da impotência irresistível perante as urgências do instante. A guerra é uma orgia de tais manifestações. Em Noites de Vigília trata-se da guerra que eclodiu em Angola no período que se seguiu ao ano de 1974. A necessidade de melhor compreender essa guerra atravessa o romance e leva-nos a mergulhar nas profundezas da alma humana, das mulheres e dos homens que habitavam e habitam o território angolano. Para o efeito o autor textual elege personagens que representam tipos de indivíduos cujas caraterísticas psicológicas se revelam efetivamente adequadas quando a tarefa é encontrar respostas que permitam explicar o grau elevado de violência desse momento catastrófico.
Quinito e Sauindo são os personagens-narradores. Com eles percorremos as suas memórias individuais e temos a sorte de apreciar a narrativa cinematográfica de acontecimentos que o jornalista polaco Ryszard Kapuscinski não pôde relatar no seu livro Mais Um Dia de Vida.Angola 1975que cobre alguns fatos ocorridos durante os três meses vividos no hotel Tivoli em Luanda, durante os dias que precedem a proclamação da independência.
Quinito e Sauindo são ex-militares, tendo cada um integrado, respetivamente, as fileiras do braço armado do MPLA e das forças de guerrilha da UNITA. Pertencem a duas das diferentes comunidades étnicas angolanas, a de língua Kimbundu e a de língua Umbunduque, na geografia de Angola, situam-se noNordeste e no Centro-Sul. Neste sentido polarizam o momento dialético na duração da História de Angola, representando assim um movimento negativo que se revela inicialmente à consciência, assumindooutra forma no momento da autoconsciência. As recorrentes metáforas e alegorias ao rio, no fundo, propõem a dialética como tema filosófico que impregna o romance enquanto determinação das coisas, das relações e processos que modelam a realidade das sociedades humanas. A reconciliação é um dos momentos dessa dialética que encontra na paz a sua expressão mais acabada.
Quinito e Sauindo têm várias identidades, uma das quais é partilhada por ambos, a qualidade de membros da Associação dos Mutilados de Guerra de Luanda cujo processo de criação revela o compromisso de transpor as limitações de um sentimento gregário confinado à comunidade étnica. Disso têm consciência os dois narradores, mas especialmente Sauindo. À constituição da Associação subjaz o projeto de construir a nação, enquanto expressão de uma identidade coletiva mais ampla.
Do ponto de vista estritamente literário, isto é, no que diz respeito à linguagem literária, reitero o que tenho vindo escrever sobre Boaventura Cardoso. É neste plano que alcança resultados que o inscrevem por direito próprio na galeria dos autores mais representativos da sua geração e da literatura angolana pelo labor estilísticoem que determinadas construções sintácticas confirmam a existência de sujeitos de discursos que justificama exploração do sistema linguístico, especialmente asvirtualidades da oralidade. No plano sociolinguístico, as estratégias de Boaventura Cardoso, inspiramo reconhecimento das clivagens e variações do funcionamento da língua portuguesa em Angola.
Deixo apenas um esboço do convite à aventura de percorrer esse mundo ficcional enraizado na história contemporânea de Angola. No entanto, a melhor interpretação do novo romance de Boaventura Cardoso requer o conhecimento e a leitura dos seus três romances anteriores. Se O Signo do Fogo é um romance que se inscreve no contexto temporal anterior à independência,ou seja, no período colonial, já em Maio, Mês de Maria temos um típico romance do pós-independência, em que se incorporam elementos do imaginário religioso perante as crises que fracturam o tecido social no centro do qual está uma personagem chamada JoãoSegunda.
Maio, Mês de Maria é a encenação da crise vivida, no imediato pós-independência, por indivíduos que constituíam aquilo a que alguns sociólogos designariam por pequena burguesia autóctone. O imaginário religioso e sagrado é vazado através das relações que João Segunda estabelece com um animal doméstico, a cabra Tulumba, em cujo comportamento se podem interpretar os sinais premonitórios e reprobatórios das peripécias doprotagonista. João Segunda é o protagonista. Vê-se transformado em vítima deum sistema social e económico que se implanta e lhe vem quebrar as expectativas de prosperidade e mobilidade social para os filhos.Começa por abandonar Dala Kaxibo, a localidade onde viveu toda a vida.Fixa-se em Luanda. Passa a testemunhar a sua própria decadência.A morte da mulher eas peripécias da privação material generalizada e a degradaçãodos valores que são andam associados à privação, traduzem-se na sua personalidade em patologias de foro psiquiátrico. Na sua vida privada, tal patologia exprime-se através deuma relaçãode cariz sagrado que estabelece com Tulumba, uma cabra domesticada.
Boaventura Cardoso retoma, o tema do sagrado e da religião deum modo geral,em Mãe, Materno Mar, uma narrativa que não é linear na sua estrutura superficial, comporta a história de uma viagemde comboio feita em 15 anos.Tal é a duração do tempo da história.Dividido em três partes, nomeadamente A Terra, O Fogo e AÁgua, é um texto que apresentapelo menos duas histórias secundárias enxertadas na narrativa primária. A velocidade queo narrador imprime dá uma configuração formaldispersiva e caóticaa taishistórias. Além de apresentarem características de conto, pelas incidências queocorrem sobre a obsessão das personagens, no caso de Manecas, e o passado pessoal, no caso do Homem de Fato Preto.Estas duas personagens estãomarcadas por obsessões que representam casos clínicos de natureza psicanalítica.Mas o seu estudo implicaria o exercício de um discurso psicanalítico não ortodoxo que teria de incorporar elementos da ciência do Kimbanda, já que as obsessões de Manecas decorrem do facto de ser kianda, menino-das-águas ou menino-feminino, de acordo com a cosmogonia Kimbundu.
A alusão à velocidade temalguma pertinência, pois o comboio e as contingências que afetam a sua função, enquanto meio de transporte, constituem fatores que desencadeiam os comportamentos mais relevantesdas personagens da história.
Como símbolo de movimento, encurtandoo tempo e o espaço, o comboionão desempenha exclusivamente a função de meio de transporte.Pelo contrário, transforma-se em espaço habitacional e simboliza, por outrolado, oespaço da desordem e do caos. É o caos que afeta o movimentoe avelocidade do comboio. A história deMãe, Materno Mar introduz na literatura angolana um novo tema ou, dito por outras palavras, arrasta consigo um novo modo de abordar o tema do tempo no imaginário angolano articulado ao sagrado e à religião, englobando questões teológicas. É uma reflexão realizada no plano da ficção literária que se inscreve perfeitamente no debate filosófico atual sobre a falência do discurso hegemónico do mundo ocidental, circunscrito aos espaços geográficos da Europa e dos Estados Unidos da América.
Finalmente, o testemunho do autor sobre a sua arte em excertos de uma entrevista realizada há quinze anos no programa Leituras difundido pela televisão angolana de 2000 a 2001.

Boaventura Cardoso – Certamente eu tenho como preocupação, fundamentalmente, oralizar a língua portuguesa.É uma forma de apropriação da língua enquanto escritor e nesse empenho há todo um trabalho de recriação da forma como o nosso povo se expressa. É evidente que eu não pretendo de uma forma realística empregar os mesmos termos, a mesma linguagem, pois que há todo um trabalho de recriação, de reinvenção da língua portuguesa. Portanto este é, no fundo, o meu propósito.

Luís Kandjimbo – E há como que uma progressiva estruturação da sua obra neste domínio. Verifica-se que a partir de Dizanga dia Muenhu passando peloFogo daFala e indo depois A morte do velho Kipacaça, esse projecto de oralizar a linguagem vai subindo, digamos, quer em estrutura, quer em elaboração.

Boaventura Cardoso – Bom… É evidente que o escritor de hoje é muito mais maduro. Há todo um trabalho, um esforço que foi desenvolvido. E procuro elaborar de uma forma mais profunda todo esse trabalho de recriação da língua. Mas eu gostaria de dizer que– e devo aqui fazer uma homenagem ao meu grande camarada Luandino Vieira, porque foi a partir dele que eu ganhei consciência do problema da língua, a partir das leituras que eu fiz das obras de Luandino Vieira – comecei a aperceber-me então que o fenómeno linguístico era um problema bastante complexo, não obstante a formação académica que todos nós temos, nós temos uma rítmica diferente, no falar. Empregamos termos novos. Embora a língua portuguesa permaneça mesmo na sua estrutura, temos de concordar que ela tem marcas, que são próprias já. São características da língua portuguesa.

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