Nossas tertúlias & outras experiências

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Temos tido dificuldades em encontrar pessoas novas com quem conversar. Conforme nos aumenta a idade aumentam as dificuldades neste capítulo porque, falar por falar, falamos todos os dias e falamos com muito boas e também muito más pessoas. Falámos com gente da pior espécie, mesmo quando letrados. Acreditem!

Volta e meia refugiamo-nos nas redes sociais fazendo, naturalmente, recurso às tecnologias de informação e... nada! Por ali as coisas vão de mal para pior pois, para além das péssimas falas, a escrita é horrível e nos objetivos e temas de conversa nunca ou raras vezes acontece a necessária coincidência , harmonia e sintonia entre a nossa linguagem e a dos nossos interlocutores.

Felizmente, agora, no espaço em que ocasional e temporariamente nos encontramos, temos conversado bastante e com muito boa gente, apesar de acontecerem também algumas falas da boca para fora.

Salva-nos a consciência de que no nosso habitat acabaremos por remeter-nos a encontros e almoços restritos, regrados e regados com algum tinteiro de qualidade e muito boa conversa, com certeza , com uns poucos integrantes da nossa geração mais uns poucos das anteriores com quem muito conversámos e aprendemos nos fidos de 80. 

Juntar-se-ão, certamente, alguns dos novíssimos com quem ainda se pode conversar por demonstrarem humilde e modestamente vontade de ouvir e aprender.

Refletindo, isso remete-nos às makas e tertúlias entre nós abundantes em tempos que já lá vão. Mas, como o que lá vai , lá vai..., importa aqui referenciar as que por cá frequentámos para ouvir e aprender contribuindo com o nosso modesto ritmo de conversação.

Entretanto, não posso deixar de voltar e relembrar a BIKER, cervejaria/tertúlia onde há vinte, vinte e cinco e trinta anos conversávamos juntos e misturados. Escritores, jornalistas, fotógrafos, editores, artistas (músicos e pintores), atores, professores e estudantes universitários, políticos atentos e até o mais simples boémio como o Mankangras tinha assento cativo e tinha a tácita obrigação de assinar o ponto diariamente, assim mesmo no Partido do Trabalho que então era o Único. Tertúlia amplamente democrática. Quem viveu , conviveu e não se lembra mãe dele é mubika!

Na tertúlia do BRITISH BAR, mais artístico-literária do que as demais, é onde geralmente se apresentam livros onde se discutem literaturas e fundamentalmente onde se fala de artes dramáticas e ouve-se declamar boa poesia.

Inúmeras vezes cruzamos ali com imensos e grandes poetas portugueses, e não só..., tal como o meu grande, velho amigo e homónimo João Rui de Sousa ou mesmo a encantadora e também poeta Marta de Aguillar que fuma cachimbo e aprecia alguns puros habaneros, sempre engrandecidamente acompanhada com a sua botelha de Havana-Club e escreve (ou teçe?) alguns dos mais tensos e profundos versos eróticos dentre tantos que temos lido de há uns tempos para cá, enquanto cultor da espécie.

Outra é a da VELHA GUARDA que acontece todas as quartas na Cocheira Alentejana da baixa de Lisboa, já com 100 anos de existência, tradição e muita História, onde as senhoras -tal como no antigamente- não têm assento até hoje. Coisas das tradições!...

Foi aqui onde, numa tarde de Maio com sol, chuva e vento -sem senhoras!-, o Manuel Rodrigues Vaz introduzindo o debate contou a insólita e verídica história da mulher-homem de nome Antónia Custódia das Neves, que nos fidos de mil oitocentos e tal havia sido presa pelo facto de que até àquele momento se tinha apresentado sempre como um homem (o António) e assim mesmo a conheciam.

Entretanto, como ela não tinha cometido crime nenhum, saiu a sociedade em sua defesa e toda a boa gente testemunhava o seu bom comportamento social ao que foi libertada no dia seguinte, tendo acabado por casar com o filho do patrão pelo que só muito mais tarde se ouviria falar dela, por ter sido uma das vítimas dum incêndio que deflagrou num teatro então situado na que é hoje a rua 31 de Janeiro no Porto.

Segundo o orador, Antónia Custódia das Neves , foi mesmo criada como um rapaz e sua mãe foi fundadora de uma seita que deu muitas dores de cabeça às autoridades da região onde residiam. Na verdade, a mãe da mulher homem era uma feminista «avant-la letrre».

Feminista e analfabeta , sempre preocupada com os grupos sociais mais desfavorecidos. Com todos os desvalidos. Uma mulher que vestia as suas filhas sempre como homens «para que não padecessem os descalabros das mulheres na época» e, conforme nos foi dito ,«soube aproveitar os ensinamentos do livro dos Mórmons que o irmão Basílio tinha trazido depois de cumprir tropa no Regimento de Lançeiros, Lisboa, no ano de 1840, e em breve lideraria uma seita, que congregava algumas centenas de seguidores que participavam, muito à maneira dos hippies, mas mais de cem anos antes, em missas celebradas na sua casa, que denominava como Arca da Aliança, em que se apresentavam despidos e engrinaldados de flores, sob a regência do seu irmão António Custódio, também conhecido como Sacramento, que se autodenominava Galo Galarim e, todo nu, aparelhava-se com asas brancas, que utilizava para dar o sinal para os fieis se dispersarem , bastava batê-las».

Foi mesmo assunto para acalorado debate de tertúlia em razão da existência de um livro trazido da cidade para a aldeia revelando-se como motivo central da alteração de toda a conduta social da região.

Pão, tinto e presunto de porco preto na circunstância não falharam e foram mesmo os primeiros presentes, anunciando a chegada de um calulú à moda angolana onde o funge cedeu o seu lugar a abóbora cozida, para o maior dos espantos do Nok no seu assento.

Finalmente, aqui fica também o registo da MARGEM. Uma tertúlia que há mais de quatro anos frequentámos à beira do rio Tejo no Cais do Sodré mas que presentemente, por razões operacionais reside no PESSOA (restaurante com o nome do poeta) situado na rua dos Douradores bem perto do Rossio. Esta é frequentada e animada maioritariamente por naturais de Angola do Miconge ao Dirico.

Camaradas e compatriotas cujo destino os relegou para a Pátria dos Lusíadas e hoje mais do que nunca , todos ou quase todos esperam uma oportunidade de voltar a pisar o solo sagrado. Uns partiram de Angola há mais tempo do que outros.

Outros mesmo tendo nascido além fronteiras passaram no sul , no norte e no centro de Angola a sua infância e os áureos anos da juventude. Todos com vontade de regressar e contribuir também param a reconstrução e o desenvolvimento de Angola. Nesta tertúlia é de referência a militância do Virgílio Lapin, editor e agente cultural de primeira água, sempre que por Lisboa passa.

Com o exemplar contributo do Arruda, do Firmino e principalmente do Rodrigues Vaz que sendo português vê Angola como sua Pátria, fala-se , conversa-se e debate-se de tudo um pouco e, vezes sem conta sobre Angola. Do passado de guerra, do presente de paz e do futuro que se adivinha próspero e incomparável.

Aqui, conversando, fala-se democraticamente de artes, literatura, religião, e ciências (sociais, biológicas, matemáticas, físicas, químicas e...sei lá?!), mas é, fundamentalmente, e de maneira doçe e arejada, com a amiga e ilustre Prof. Maria Helena Carvalho Santos que se conversa sobre História.

Finalmente, em determinada ocasião ouvimos dissertar o nosso contertuliano Eduardo Pereira Marques, psicólogo especializado em assiciativismo que magistralmente introduziu-nos o tema dos conhecimentos que a ciência não pode conhecer. Alto sofismo na mesa deixando-nos atónitos em razão ­segundo ele- da negação que a igreja católica acaba hoje fazendo ao próprio cristianismo. São makas para outras tertúlias, aliás, para próximas escritas!

Odivelas, Maio de 2012

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