O acordo ortográfico

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De volta a Angola nas palavras que ela me ensinou a escrever

 

 

O acordo ortográfico
Missionário capuchinho rumo ao Reino do Kongo com a sua comitiva Fotografia: Arquivo

Não sendo especialista na matéria, valer-me-ei de linguagem simples, mas tanto quanto possível suficiente para que o meu ponto de vista sobre o assunto possa ser partilhado e compreendido.
Independentemente de quem tenha sido o ideólogo de tão baixa ousadia e de quem tão “sabiamente” se debruçou sobre o modo de a transformar em realidade, a verdade é que, na minha modesta opinião, tal Acordo padece de falta de justificação, sendo mesmo contraditório quanto ao que para os seus obreiros possa fazer sentido.
Tal “feito” não terá acontecido em louvor da Língua Lusa nem por acaso. Ele (como outros de diferentes géneros) foi levado a cabo devido a razões várias, sobretudo de ordem política com vista à consecução de objectivos que só quem esteve e está por detrás de tal aberração conhece. Por um lado, o interesse de alguns brasileiros em difundir o seu falar, pouco se importando que a Língua-Mãe, que talvez nem conheçam, não seja preservada. Por outro lado, a incapacidade dos governantes portugueses (que parecem não entender o que representa a Língua de Camões no âmbito do conceito de Pátria) agirem como seria de esperar, justamente no sentido de credibilizar a língua que falam, infundindo-a no contexto alargado da globalização, em vez de desacreditarem o que crianças, jovens, professores e população em geral de Portugal foram obrigados a aprender e a ensinar, e imporem às criancinhas o Inglês e até já estarem a pensar no Mandarim. Pensam, certamente, que promover a Língua Portuguesa é brincar aos acordos. Daí o absurdo da questão, que continua na ordem do dia.
O Português, como língua viva, veio sofrendo, naturalmente, ao longo dos séculos, alterações. E se a Semântica se deixou, em certos casos, contaminar, com o tempo (que resolve sempre tanta coisa) a confiar-lhe o crédito de que os linguistas e outros estudiosos se servem, e a sua ortografia se veio depurando, tornando-o moderno, primeiro, e actual, depois, a Etimologia, por seu turno, continua fundamental como suporte, a vários níveis, das palavras de que nos servimos para comunicar.
Ora, o que o injustificado Acordo promove de grave é a extinção de palavras correntes, com sentido preciso, e a criação de palavras novas sem significado.
No Guia para a Nova Ortografia, editado pelo Governo Português, através do Ministério da Educação, é afirmado que «apenas a ortografia é alterada, continuando a pronúncia e o uso das palavras a serem os mesmos».
Tal afirmação reflecte algo que nem sei qualificar. Mas não parece difícil concluir que a alteração ortográfica implica desvios da pronúncia. E quanto ao uso das palavras, depende das palavras a verbalizar, pois não se prevê que alguém, empenhado na correcção linguística, tenha usado ou venha a usar palavras que dificultem ou mesmo impeçam a comunicação.
Não pretendendo ser demasiado maçador, anoto, no entanto, três dos exemplos de alteração que originam confusão ou distúrbio lexical. Vejamos:
Na acentuação, surgem situações em que a sua eliminação é susceptível de transformar palavras homógrafas em homónimas ou, continuando homógrafas, de lhes retirar o sentido.
No caso das consoantes mudas a omitir, surgirão vocábulos homófonos dos anteriores, mas sem a mesma grafia. Em certos casos, a falta dessas consoantes poderá até implicar novas palavras, sem significado por rejeição do seu étimo.
Quanto à omissão do hífen, algumas vezes isso obriga a alterações gráficas, ao dobrar a consoante inicial de palavras que se revestem de significado autónomo. E mesmo que a pronúncia não sofra alteração, a dupla consoante contraria a ortografia correcta dessas palavras.
É a estas situações que o Acordo Ortográfico conduz, podendo-se afirmar que, neste caso, «é bem pior a emenda do que o soneto». É ao que levam os interesses de ordem política e outros de dúbios objectivos, como já alvitrei. Mas a política, sempre hábil a fazer acordos, mesmo que mal feitos, como é habitual, em linguística é ignorante, analfabeta. Este Acordo Ortográfico confirma isso.
A importância da Língua Lusa é maior do que pensa quem nela quis mexer e teima em descaracterizá-la, como têm feito em relação a tudo que a Portugal diga respeito. Completa, bem estruturada, com uma Sinonímia que, em vez de a tornar complicada, só a enriquece, é a mais bela língua do planeta.
A língua, qualquer língua, não é um fenómeno que tenha de se sujeitar sobretudo a vontades políticas ou a directivas institucionais. É também, e ainda mais, parte integrante da pátria que a fale, neste caso da Pátria dos portugueses, como elemento fundamental da sua cultura, como testemunho do que Portugal foi e fez ao longo dos séculos e da sua afirmação no mundo, independentemente de se ter de admitir que nem toda a sua história esteja emoldurada a oiro e diamantes.
Assim sendo, a que pretexto quiseram tocar-lhe? Porque a acentuação, as consoantes mudas e, em certos casos, a utilização do hífen constituíam e constituem algum estorvo? Um impedimento à sua uniformização ortográfica? Não, não constituem! Essa uniformização pode ser feita, não pela Língua-Mãe, mas pelos povos que a queiram seguir, se isso lhes convier, pois não são obrigados.
Tudo não passa de uma falsa questão, tanto mais que nenhum falante da Língua Lusa (europeu ou de qualquer outro continente) com dificuldade de ler ou de escrever passará, só por consequência do Acordo, a fazê-lo correctamente.
De resto, se os exemplos tidos em conta pelo Acordo são, mesmo que de modo forçado, justificação para o que fizeram e teimam em confirmar, que dizer, então, dos dialectos, como o Barranquenho ou o Mirandês? Ou será que os dialectos estão conforme ao Acordo?
Não se trata de desvalorizar e muito menos de contestar os dialectos. Esta brevíssima referência a tais variantes da língua padrão serve apenas para ajudar a ilustrar a “treta” que é o tão propalado Acordo Ortográfico.
Aliás, as diferenças nos falares, adentro de um mesmo país, como é o caso dos exemplos referidos, são também património valioso que não pode ser posto em causa. Porque faz sentido que seja assim, de igual modo é legítimo que os países que adoptaram o Português como língua oficial tenham, em paralelo, os seus falares diferentes do falar adoptado.
No caso de Angola – como, aliás, no dos restantes países que se decidiram pela Língua de Camões –, que tem o Português como idioma oficial, compreende-se que, dada a diversidade de línguas nativas, a opção pela Língua Lusa tenha sido a solução mais viável. Se, por um lado, ela permitiu, logo à partida, a comunicação com o exterior, como veículo fácil de manobrar, quer em termos políticos quer comerciais e diplomáticos, por outro lado se conservou como meio de agregação, de união entre etnias, contribuindo para a compreensão de que, apesar das diferentes origens das gentes angolanas, elas constituem o mesmo Estado, um só país, não obstante a sua dimensão territorial.
Outro aspecto que os angolanos não porão de lado, tem que ver com o facto de o Português, sendo a língua daquela que foi a “potência” colonizadora,poder interferir, positiva e negativamente, na sua história.
Todavia, independentemente da importância, maior ou menor, do aproveitamento da língua portuguesa como língua oficial, é de esperar que os angolanos saibam valorizar os seus falares primitivos que indiscutivelmente são parte integrante do seu património imaterial, tal como os crioulos resultantes da “miscigenação” linguísticaque os séculos proporcionaram.
E não será de estranhar nem haverá prejuízo se alguns dos seus vocábulos acabarem por integrar a língua adoptada. Se a Língua Lusa falada e escrita em Portugal vai aceitando, e cada vez com mais frequência, os mais diversos “estrangeirismos”, qualquer que seja a sua origem, parecendo até, para alguns, um sinal de evolução, embora se tenha de reconhecer tal facto como aproveitamentos de mau gosto, mais legítimo é que os povos que a adoptaram nela incorporem palavras, palavrinhas e palavrões originários dos seus ancestrais idiomas.Essas palavras, palavrinhas e palavrões têm, necessariamente, significado e referente, ou não existiriam. Daí serem um acrescento vocabular à vertente dos sinónimos, mas não, seguramente, foco de perturbação relativamente à estabilidade da Língua Lusa.
Não serão esses acrescentos que a descaracterizarão. O mesmo não se poderá dizer dos acordos como o que suscitou este comentário.
Sérgio Sá

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