O dinossauro, a minha t-shirt, o direito do autor & os livros

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Cruzámos olhares no hall do Novotel da avenida Abdoulaye Fadiga, em Dakar, numa pluviosa manhã de Agosto, acabadinho de me instalar naquela unidade hoteleira da mais capitalina e emblemática cidade cultural do continente berço.

O pequeno dinossauro -elegante, sério, concentrado, tranquilo, mas portador de olhos esbugalhados, expedindo um doce olhar felino-, trajava três nobres peças da alta-costura tradicional africana. Circulava por dentro do seu magnífico boubou, rodeado de uma entourage visivelmente descontraída mas aparentando uma competência laboral em torno de questões culturais.

Eu, como habitualmente, de lafinesse muito bem vincada à moda antiga, com uma t-shirt e soquinhas cariocas, mantendo por cima o costume de costume: "A bas le costume".

Um abacos... de traçado europeu por cima da camisola. Andava só e triste em razão da solidão que a distância propunha. Eu, pelos corredores do Novotel em missão da defesa dos interesses dos autores angolanos no continente e no mundo.

O objetivo era o da nossa participação em mais uma reunião do Comité Africano, CAF, da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores, CISAC, instituição da qual a Sociedade Angolana do Direito do Autor, SADIA, é membro de pleno direito faz alguns anos.

Chegada a hora da abertura do eetting, Robert Hoojer, diretor para os assuntos africanos da confederação, tocou o apito e convidou os participantes vindos das mais distintas paragens do continente, e não só, a tomarem assento na acolhedora sala de conferências, para em minutos urgentes (como disse) dar-se início aos trabalhos.

Então eis que reaparece o pequeno dinossauro, enquanto, como é da praxe, todo o mundo se levanta e ele se dirige à mesa para presidir, dissertando sobre os direitos de autor naquele que é o mais importante e o mais concorrido palco de defesa dos autores africanos, que anualmente acontece sob os auspícios da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, OMPI.

Tudo começou com o pedido de observação de um minuto de silêncio, que bem contadinhos foram simplesmente dezanove segundos, em memória das vítimas das catastróficas chuvas que assolavam Dakar e os seus arredores. Na verdade, inúmeras vítimas mortais e muito mais de cem mil desalojados na região é justamente o mesmo que estar diante de um pão cujo trigo o velho diabo amassou. Tudo, naturalmente, sobrando para o Estado.

Grand-Yoff, Ouest Foiré, Khar Yalle e até mesmo o grande mercado HLM foram as zonas mais afectadas pois alí, como todos os bons africanos, os senés... construíram também por cima das condutas e valas de escoamento de águas residuais.

Zonas de imenso e visível risco cuja construção foi acontecendo mediante a cumplicidade assombrada e o silêncio arrasador dos deuses do poder capital que imperam por ali. O Sandagá, conhecidíssimo parente próximo do nosso falecido velho Roque..., resiste são e salvo devido a sua privilegiada localização.

Este situa-se bem no centro de Dakar, quase a meio da não menos conhecida avenida Lamine Gueyé. Mas, porque as chuvas já lá vão, retomo à vaca quente, pois o carneiro ja vem frio...

Aquele pequeno grande dinossauro, ali e em poucos minutos, demonstrou todo o seu interesse e algum conhecimento real da problemática dos direitos dos autores africanos.

Dos residentes e dos das diásporas, bem como das vicissitudes, mudanças que acontecem e coisas que se sucedem, eventualidades, variações e este ou mesmo outro revés por que passam os órgãos de gestão coletiva de direitos entre nós.

Entretanto, preocupava-me a insistente direção dos seus olhares, cujo foco era mesmo a minha figura. Assim foi até ao final, quando os discursos deram lugar aos cumprimentos, beijos e abraços de muita aparente satisfação.

Todos na busca de uma foto com abraço ou beijos do Ser que parecia um estranho deus vivo naquela sala. Impávido e sereno, curtia o espetáculo. Na verdade, depois de um meio século de vida magnificamente bem vivida, ou sem grandes motivos de queixas, já pouco tempo sobra, e não há mesmo paciência para andar aqui, ali ou acolá e quiçá acocá... pousando para a fotografia ao lado deste ou daquele (seja lá quem for...), para depois publicamente exibir retratos com gente da pior ou mesmo da melhor estirpe como se de nossos amigos se tratassem.

Em boa verdade, amigos temos sempre muito poucos, mas os que temos são os melhores que as andanças nos reservam.

Bem ao lado chegou a hora do banquete, quando em cima dos comeretes e beberetes alguém, algo tímido mas simpático, convidou-me para dar um saltinho até uma sala ao lado, para um encontro privado com Sua Excelência o Senhor Ministro da Cultura e do Turismo a pedido deste.

Não perdemos tempo, e chegados ao local lá estava já sentadinho, o pequeno grande dinossauro da cultura senegalesa, africana e mundial.

Aquela Excelência wolof começou por felicitar-me pela enorme dimensão do país que temos, afirmado que um dos seus maiores sonhos era um dia fazer um grande show no estádio do MARACANÁ. Quedei-me espantado quando alegremente me estava falando das lindas morenas que pensei serem as «balabinas» cá da banda.

Tomávamos chá quente, quando a meio de um esquisito ambiente de conversa perguntou-me o que estava fazendo um brasileiro (que supunha ser eu) alí numa reunião do comité africano da CISAC. Seria eu um convidado especial?! Tomava-me por brasileiro e então chegou a confirmação de que a nossa indumentária também fala.

E no caso, a minha falou bem alto. É que eu levava por baixo do abacos uma tshirt com a imagem dos maravilhosos Arcos da Lapa e com a inscrição na frente: Rio de Janeiro-Brasil. Era o que atentamente reparavam quando, na sala, direcionava o seu olhar insistentemente para mim. Com certeza!

Logo, e sem mais delongas, apresentei-me puro mangolê e profissionalmente aprendiz de poeta. E porque nestas circunstâncias tenho andado sempre armado, saquei de imediato, e ao mesmo tempo, duas das nossas armas poéticas: MARCAS DA GUERRA... e LEX & CAL DOUTRINA.

Foi então aí que o nosso simpático dinossauro caiu redondinho para o chão, reconhecendo Angola como um verdadeiro país de poetas, pois já disso sabia mas somente Neto que, segundo palavras suas, «foi um poeta libertador, não só do seu povo mas também de todo o continente africano.

Um sonhador negro e grande Homem da cultura africana, ao contrário do serérè senegalês que não lutou para a libertação de nada nem de ninguém e, até aos seus últimos dias, bajulou a França e os senhores franceses».

Terminado estava o encontro, então tiramos as fotos que o testemunharão para a posteridade. Abraçou-me e garantiu que, com a ajuda de um amigo cabo-verdiano ali residente há muitos anos, trataria de apreciar aqueles livros de poesia. Pediu que lho enviasse livros de outros escritores angolanos. «Mesmo em português!»

Pelo que ví, vivi, e sentí, goza de incomensurável admiração e prestígio nacional este pequeno grande dinossauro da cultura africana. Assim tinha que ser pois este muçulmano da Medina em Dakar é afilhado de monstros de renome como Peter Gabriel, Paul Simone e do camaronês Manu Dibango. Ambicioso, anda sempre engajado em superiores causas políticas e sociais. Em 1985 responsabilizou-se, em Dakar, pela organização de um concerto pela libertação de Nelsom Mandela, no Estádio da Amizade.

Organizou muitos outros em benefícios da Aministia Internacional. É embaixador de boa vontade para as Nações Unidas e para o UNICEF, bem como embaixador da Organização Internacional do Trabalho. Agora mesmo, e em razão das recentes chuvas, atuou num grande concerto de beneficência no Grande Teatro Nacional da sua cidade. Sempre fiel às suas raízes, reside ali o seu grande orgulho.

É proprietário de estúdios de gravações, televisão, rádio e discotecas muito populares. E não será motivo de grande espanto se nos dez próximos anos aquele país elege-lo, um exímio tocador de tambores, admirado bailador de danças wolof e dotado de um poder de canto que contagia quem quer que seja em qualquer parte do planeta, para a presidência do Senegal, aquele que, por enquanto, é somente o ministro da cultura e do turismo e que atende simplesmente pelo nome de: YOUSSOU NDOUR!

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