O discurso pós-colonial com novo enquadramento histórico-cultural

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Num momento muito particular de viragem na história politica e económica de Angola, acaba de ser lançado, dia 27 de Novembro, no Camões – Centro Cultural Português, em Luanda, o projecto editorial TRONCOS DA LITERATURA ANGOLANA, para colocar no mercado obras inéditas de autores angolanos que têm contribuído para a modernização do mosaico literário nacional.

Num momento muito particular de viragem na história politica e económica de Angola, acaba de ser lançado, dia 27 de Novembro, no Camões – Centro Cultural Português, em Luanda, o projecto editorial TRONCOS DA LITERATURA ANGOLANA, para colocar no mercado obras inéditas de autores angolanos que têm contribuído para a modernização do mosaico literário nacional.
Os TRONCOS DA LITERATURA ANGOLANA, resultantes de uma parceria entre a Editora Acácias, o Movimento Lev’Arte e o Camões, surgem no panorama da Literatura angolana pós-colonial como o discurso de uma nova era, saída das eleições de Agosto de 2017, perante uma há muito esperada abertura democrática.
A obra inaugural do projecto intitula-se ANGOLA, ME DIZ AINDA, do poeta José Luís Mendonça. Trata-se de um discurso poético, composto numa linguagem muito particular da Angolanidade, que valoriza o português de Angola e alguma expressividade do quimbundo, dentro daquela concepção do discurso que o ensaísta Mário António chamou, em 1958, de Poesia Negra de Expressão Portuguesacomosendo “a afirmação de uma posição em face de um problema”.
Esta classificação metodológica, segundo José Mendonça, continua válida para os dias de hoje. No seu vector ideológico, a poesia de Agostinho Neto é poesia Negra de expressão portuguesa dada a sua afirmação de uma posição (de rejeição e condenação) em face de um problema (de opressão colonial do homem negro). No seu vector estético-formala classificação de poesia Negra é aferida do carácter identitário da obra de Agostinho Neto, sobretudo os recursos estético-formais e o hibridismo linguístico inaugurado pelo Poeta.
Que relação existirá entre a Sagrada Esperança, de Agostinho Neto, e Angola me Diz Ainda, que inaugurou a colecção Troncos da Literatura Angolana?
A primeira similitude é o diferimento da sua publicação. Tal como a Sagrada Esperança, embora contenha versos já editados na Itália, no tempo da luta armada, apenas saiu quinze anos depois em Luanda, também a poesia de Angola, me Diz Ainda esteve guardada na gaveta desde os anos 80.
A segunda nota de entrosamento com a poesia de Agostinho Neto é que,tal como a poesia de Neto, Angola, me Diz Ainda é uma epopeia do percurso histórico do povo angolano, desde a independência até aos dias de hoje.
“As palavras têm ouvidos”, explicou o autor, “elas vão por esse mundo escutando vozes, escutando coisas que nós não ouvimos de ouvir claro. Por isso, no fundo, no fundo, não fui eu quem escreveu este livro. Apenas me submeti às falas de todo um conjunto muito vasto de pessoas que não vivenciou o que é uma verdadeira independência, tirando a bandeira e o bilhete de identidade, que muitos até nem possuem”, rematou Mendonça.
Esta iniciativa visa valorizar o trabalho dos escritores angolanos e proporcionar um encontro intelectual entre os “troncos da literatura angolana” e a nova geração de escritores e leitores, bem como promover uma maior competência linguística do português no seio da camada juvenil.
Seguindo o critério da qualidade intelectual e estética das suas obras inéditas, depois de Mendonça, seguir-se-ão Luís Kandjimbo, António Gonçalves e Cristóvão Neto.

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