O ensino da poesia no II ciclo

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Com base numa reflexão à volta do poema “Criar”, de Agostinho Neto, propõe-se a  afectividade dos processos “transmissão” e “assimilação”. Para o efeito, professores e alunos devem trabalhar com muita estética e ética. O professor do ensino secundário tem de estar  preparado para transformar a sala de aulas num verdadeiro espaço de apredizagem.

O ensino da poesia no II ciclo

O professor do ensino secundário tem de estar preparado para transformar a sala de aulas num verdadeiro espaço de aprendizagem, sobretudo quando o objectivo é ensinar as características do texto poético. Nessa etapa de formação, os alunos precisam de conciliar a prática com a teoria, pois eles trazem muitas experiências da família, das classes anteriores, etc. Freire (2010:30) defende que “ensinar exige respeito aos saberes dos educandos”. O professor que deseja ensinar no/o ensino secundário deve, inquestionavelmente, utilizar uma didáctica de muita qualidade, porquanto os alunos não são tábuas rasas.
Por conseguinte, o professor deve ser capaz de desenvolver, no aluno, competência linguística – falar, ler e escrever correctamente; competência transdisciplinar – interpretar e dominar as outras áreas do saber; competência sócio-afectiva – amar o próximo e o património público. Para o aperfeiçoamento destas competências, o professor tem de fazer que o aluno se sinta parte do processo de ensino-aprendizagem; porquanto, se assim não for, todo o processo de ensino falha.

ANÁLISE DE TEXTO POÉTICO
A nossa reflexão foi feita à volta do texto poético “Criar”, poema de Agostinho Neto. Para que os processos“transmissão” e “assimilação” se efectivem, professores e alunos devem trabalhar com muita estética e ética. Comecemos (professores e alunos) por recordar os conceitos básicos sobre a versificação: verso, estrofe, tipos de estrofe, tipos de rima, classificação da rima quanto à riqueza e à disposição; para tal, podemos consultar Álvaro Gomes (2007), Borregana (2003), Castro Pinto (2007), Olga Azeredo et ali (2013). Depois de se confirmar que os dois dos vários intervenientes do processo de ensino-aprendizagem dominam os conceitos da versificação, pedagogicamente, o professor medeia a aula. O docente não pode apoderar-se da mesma, ou seja, não deve ser o centro das atenções.
Eis a nossa estratégia:

1.º Passo →Disponibilizar o texto  

CRIAR

Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com olhos secos

Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com olhos secos

Criar criar
gargalhadas sobre oescárnioda palmatória
coragem nas pontas das botas dos roceiros
força  no esfrangalhado das portas violentas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com olhos secos

Criar criar
Estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar com olhos secos

Criar criar
liberdades nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em força simuladas

Criar
criar amor com os olhos secos.

2.º Passo → ler o texto (declamar) – individualmente, depois de o professor o ter feito.
3.º Passo → chamar atenção aos discentes que, na análise do texto poético, segundo a Nova Enciclopédia Temática – Literatura e arte (Sd:26), devemos considerar a forma, o conteúdo e a expressividade da linguagem.
Forma
Como está composto o poema?
Como se classificam as estrofes quanto ao numero de sílabas?
Classifique os versos quanto à sílaba métrica (É aconselhável trabalhar, inicialmente, com uma só estrofe).
R: O poema em análise está composto por seis estrofes, com número de versos irregulares. A primeira e a quinta estrofes contêm cinco versos, denominam-se quintilha; a segunda possui seis, recebe o nome de sextilha; a terceira e a quarta estão constituídas por sete versos, chamam-se sétima e na sexta, por sinal, a última, há dois versos – dístico.
No poema, os versos são longos e curtos. Alguns rimam, porém a rima é melódica.
Ex.:
Cri/ar/ cri/ar
cri/ar/ no es/pí/ri/to/ cri/ar/ no/ mús/cu/lo/ cri/ar/ no/ ner/vo
cri/ar/ no/ ho/mem/ cri/ar /na/ ma/ssa
cri/ar
cri/ar/ com/ os o/lhos/ se/cos

Esta estrofe, quanto à sílaba métrica, é irregular, ou seja, é assimétrica, porque os versos não têm os mesmos números de sílabas métricas. Por exemplo, o primeiro verso contém três sílabas métricas, enquanto o segundo tem 16 ­sílabas métricas...
Conteúdo
No texto, constata-se que o sujeito poético repete, muitas vezes, a palavra criar, tentando mostrar que a luta contra a dominação e exploração colonial é dinâmica e faseada.   

“Criar criar
criar no espírito
criar no músculo criar no nervo
(…)”
    
O sujeito poético pede aos seus companheiros, para que acreditem na luta e que o sofrimento não os possa entristecer, pois se deve transformar a dor em alegria.
“Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
(…)”

Expressividade da linguagem
A pouca pontuação imprime bastante ritmo ao poema, permitindo uma leitura mais emotiva, própria de cidadãos ávidos pela liberdade. A figura de estilo anáfora reforça a ideia de inovar, lutar para um mundo melhor.

Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com olhos secos.

A repetição propositada do verso “Criar com os olhos secos” nas três primeiras estrofes realça à vontade de lutar contra a exploração e dominação colonial, transmitindo, energicamente, que a luta tinha de ser já, mas com muita cautela e sem xenofobia.
4.º Passo →o professor debate as repostas com os alunos e propõe outro texto do mesmo autor “CERTEZA”, para os alunos analisarem em casa.
SCOTH KAMBOLO|

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