O intercâmbio de bibliotecas: do produtransmissor à biblioteca municipal

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A língua é o sistema específico de signos duplamente articulados que servem para transmitir mensagens.

O intercâmbio de bibliotecas: do produtransmissor à biblioteca municipal
Livros garantem o desenvolvimento

4. O que lê?

4.1. A língua e a fala.

É certo que desde Saussure que nos posicionamos perante a Língua percebendo que lidamos com duas entidades distintas, a língua e a fala. A língua é o sistema específico de signos duplamente articulados que servem para transmitir mensagens humanas e a fala é a realização desse sistema por um utilizador particular. O ser humano aos quatro anos de idade domina inteiramente esse sistema que lhe permite comunicar. A sua vida social vai tornando-o cada vez mais eficiente como falante de uma língua, quer dizer, o convívio em casa, na rua e mais tarde na escola é tanto mais exitoso quanto melhor for o seu domínio da língua cujo conceito é melhor entendido quando o vemos como um código, o código verbal.
A criança não se torna eficiente no uso de um qualquer código verbal aprendendo regras gramaticais mas sim quando o exercita.
A criança fala e é suficientemente eficiente nesse particular para conseguir apropriar-se do mundo que se vai desvendando à sua frente porque a fala é muito mais que um sistema de signos articulados de uma determinada maneira – Sistema esse que de resto é património genético de cada ser humano e que se chama gramática implícita. A fala é o produto imperfeito, porque inacabado, sempre em renovação, dum código, cuja eficiência está a ser posta em causa permanentemente e também por isso constantemente ajustado às necessidades de comunicação do dia-a-dia.
Como se pode ensinar uma língua na base de um compêndio de gramática normativa quando o conhecimento de regras por grosso e atacado não tem nenhuma serventia fora das actividades de comunicação, isto é, fora da escrita e da leitura? O ensino da língua como matéria escolar deve ter como missão dar ao usuário condições de falar, ouvir e escrever, ser compreendido e compreender, mesmo em presença de diversas variantes .
O “falar e ouvir”, isto é, o ler em voz alta e o ouvir activo são, pois, práticas que se devem tornar familiares no ensino da língua. Portanto a biblioteca surge como material didáctico imprescindível para o ensino de uma língua. Mas o que é uma biblioteca?
4. 2 O que é uma biblioteca?

O que é uma biblioteca? Quando me faço esta pergunta vêm-me à memória A Biblioteca de Alexandria, Os Jardins Suspensos da Babilónia, e todas as Sete Maravilhas do Mundo Antigo numa resposta reactiva que acciona o mecanismo de estímulo resposta mapeando o meu conhecimento arquivado no arquivo cultura pop ocidental. E a resposta sugerida por este mecanismo de defesa do meu proselitismo cultural faz-me ir ao encontro de um espaço reservado com muitos livros e documentos onde o código verbal escrito está arquivado em vários tipos de suportes, mas fundamentalmente em papel.

4.3 Os livros: letras embaladas.

Com mais ou menos variantes, a biblioteca, o conceito comum de biblioteca, leva-nos a pilhas de livros catalogados, arrumados, fichados e guardados para usufruto dos leitores. Lembro-me do personagem de O Inverno do Nosso Descontentamento – Título de um dos últimos romances de John Steinbeck, editado em Portugal em 1962 pela editora Europa-América. O livro relata-nos a história do jovem Ethan Hawley, descendente de uma família muito rica mas que ficou na ruina financeira e que trabalhava como balconista – que mantinha a pilha de latas e embalagens dos artigos de mercearia religiosamente arrumados nas suas prateleiras com um respeito total pelas suas posições relativas percebendo que qualquer desatenção da sua parte criaria o caos: que desconforto não sentiriam as latas de ervilhas ao lado das embalagens de esparguete? De certeza que o universo se desmoronaria. Assim também vejo os livros numa biblioteca, catalogados e arrumados, como se estivessem armazenados e prontos para uso rápido, se o “cliente” os desejar consumir, sob o olhar atento dos bibliotecários que, tal como o jovem Ethan, conscienciosamente se assumem zelosos guardadores desses tesouros e, também como ele, tão ciosos e conscientes da reviravolta que o mundo levaria se o consumo fosse incorrecto – Estou a lembrar-me da Biblioteca do Vaticano.
Mas será que os livros podem ser equiparados a embalagens de letras para consumo como se se tratasse de produtos da cesta básica?

4.4 Os livros, ou a libertação
da voz encarcerada?

Os livros surgem-nos primeiro como bens de prestígio. Ter em casa uma bonita estante cheia de livros com encadernações de carneira é o desejo secreto de quem vive na fronteira entre a cultura escrita e a cultura oral.
A cultura escrita sacraliza o livro, O LIVRO, que por sua vez exerce a sua tiraniazinha sobre o homem moderno. Para o homem moderno, modelado pela cultura judaico-cristã, um livro é um bem de prestígio de grande força simbólica. Ter livros é possuir potencialmente uma riqueza imensurável. Ter livros numa estante adequada e estrategicamente exibida convida a que se ajuíze o seu feliz possuidor como alguém que usufrui dessa riqueza tornando-o não só material como também imaterialmente rico.
Por outro lado a cultura oral tão mal tratada e secundarizada, digamos sem pudor, tão perseguida pela colonização, venera a palavra. É a palavra registada na memória, a palavra com som, viva, que ancora milhões de africanos – Não só africanos bantu mas também muitos outros povos por esse mundo fora – às suas origens, ao seu passado, à sua cultura. É o valor da palavra que torna um mais velho um sábio. É o valor da palavra, aliada à memória e ao tempo, que levou Hampaté Bá dizer que entre os bantu a morte de um mais velho significa que uma biblioteca ardeu.
O forte proselitismo da cultura judaico-cristã tem feito passar a ideia da subalternização da cultura oral perante a cultura escrita como caminho seguro para sobrevalorizar as sociedades de escrita antiga, ditas civilizadas, face às sociedades do oral, ditas selvagens.
Mas é mal avisado quem enverede pelo caminho que coteja civilizações e culturas.
O que nos interessa mesmo é que reparemos que o que dá substância ao livro é a palavra, escrita sim, mas a palavra.
E a utilidade do livro, e, por maioria de razão, da biblioteca, só se revela no momento em que ela, a palavra, se solta, se liberta e passa a fazer parte do património de cada um.

5. O produtransmissor

“A grande maioria dos maus leitores é-o devido a factores culturais que operam desde a mais pequena infância e que contribuem para o estabelecimento de diferenças cada vez mais dramáticas entre as crianças com contactos diferenciados com a cultura escrita.“

5.1 Ler como quem
conta uma estória

O primeiro passo da aprendizagem da leitura é a aprendizagem da escuta, quer isto dizer que ao termos uma biblioteca como instrumento de trabalho para potenciar a leitura, não será sensato pensar que basta fazer um regulamento que discipline o seu uso, mas, antes pelo contrário, deve pensar-se seriamente em criar mecanismos que sejam capazes de desencarcerar os textos e torná-los disponíveis. Porque ler é complexo e pode ser repulsivo. Se não acautelarmos este pequeno senão teremos a biblioteca equiparada àquela nossa estante cheiinha de livros que só servem para accionar, mais uma vez, o voyeurismo aliado aos bens de prestígio.
Temos então de encontrar o leitor eficiente e pô-lo ao serviço dessa libertação (ler é uma libertação, não de quem lê mas da coisa escrita, da palavra encarcerada).
O leitor eficiente é aquele leitor que é capaz de recriar e devolver ao texto a sua voz (sua do texto, não do leitor), mas, como vimos, a aquisição desta competência não só é demorada, complexa, como marcada por factores culturais aleatórios.
Um leitor eficiente será um agente da leitura em voz alta com competências que o tornará um animador da biblioteca de modo a poder presentificar o texto liberto do livro, e oferecê-lo aos futuros leitores, de tal maneira que o primeiro contacto destes com o livro seja suficientemente apelativo por não terem de ser confrontados com o conflito castrador dum texto que oferece resistência à sua “apropriação e integração”.
5.2. O leitor em voz alta.
Propomos então como primeiro leitor eficiente o narrador das tradições orais, o produtransmissor no dizer de Pinto-Correia, que se deve tornar uma peça imprescindível das bibliotecas, ele próprio uma biblioteca.
Dizemos o primeiro leitor eficiente como força de expressão pois, por definição, o produtransmissor é um contador de estórias que as presentifica recorrendo ao registo da sua memória (liberta a palavra, já não encarcerada no frio texto escrito mas guardada no aconchego da sua memória). Além do mais é um agente cultural que nos repõe perante a cultura oral com a força de demonstrar a sua paridade perante a cultura escrita. Queremos trazer o contador de estórias à Biblioteca como um intercâmbio de bibliotecas. A paridade destas bibliotecas servirá para demonstrar ou mostrar a beleza da palavra e situá-la ao mesmo nível quer esteja escrita quer esteja gravada na memória.
O ouvir desenvolve a escuta, e saber escutar possibilita o desenvolvimento das habilidades cognitivas mais complexas no mecanismo da apropriação dum texto. O desenvolvimento destas habilidades vence pouco a pouco o desconforto que se instala na aprendizagem da leitura pela resistência à passagem do, relativamente fácil, primeiro estágio ao estágio final que possibilita a apropriação do texto pois o saber ler recorre basicamente às mesmas habilidades do domínio cognitivo do saber escutar.
Vencido assim o primeiro conflito, responsável pela inapetência pela leitura, mais fácil se torna criar leitores e, por acréscimo, eficientes utilizadores da língua, o que facilitará o desenvolvimento de outras competências a ela associada.
Mas a criação de leitores eficientes e independentes não é uma tarefa nem fácil nem rápida. Convém não esquecer o ensinamento do sensato Quintiliano: nada de pressas, nem de avaliações extemporâneas e castradoras.
Passemos pelo ensino da escuta ouvindo o tradicional contador de estórias até que tenhamos entre os nossos frequentadores da biblioteca um leitor eficiente que passará a ser, também ele, animador cultural como leitor em voz alta.
Este leitor em voz alta, animador cultural, tornará o salão da biblioteca num espaço de sociabilização e transacção cultural.
Mas, mais do que isso, será um mediador daquela biblioteca com o bairro, com a mbala, primeiro a dos arredores e depois a cada vez mais distante, até que as diferentes bibliotecas se cruzem e o escrito e o oral se completem servindo aquele como instrumento deste.

     Pedro Ângelo Pereira

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