O locus dialógico da poesia de Amélia Dalomba

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A articulação da palavra para a poesia, em Noites Ditas à Chuva, de Amélia Dalomba, se acha “Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança” e coisas doces e de prazer se fundem e a figura “Foi ficando pela orla do corpo”, como “Nasce o poeta do cravo a rosa a maresia no olho do mar”.

Amélia Dalomba

A colonização encerra em si uma rede dialógica e pontilhada pela costura das ideias que tendem a enaltecer um quadro clínico de essência obscura. Se construindo a obscuridade a presença da cor.

Em que a cor negra é vista como de Satanás, ignorante, a do homem sem coração. Nessa negatividade conceptual e como reflexo da obscuridade que se pretende evocar, é a cor negra que por dentro da realidade não passa senão de manobras e paradoxos para uma melhor governação, maltratando assim o autóctone negro, de sua própria terra, sobre o quadro energético do tribalismo, regionalismo, etc.

Tudo para uma obscuridade sentida que se projeta na violência e no catolicismo (sem violência) ao serviço do poder político vigente, da era.

A poetisa convoca para o poético os rostos negros associados à fome, ao infortúnio, à morte, à magia, enfim:

Rostos negros conjugam fome com vontade de morrer
A ira aos pés do infortúnio
História vadia das terras sem volta
E montes de luto endeusados pelas casas de feitiço e banhos e fumaça de ossos de bichos
escalam o Tchizo[2]

Me parece que da temática do amor a mulher construtora de poesia tende a escrever de um modo característico em desdobrado prazer, sobretudo no sonho de afetos e sensações emotivas, que se centram para a ardência e amostra de momentos singulares de paixão.

A paixão que se direciona suave e proporcionalmente para um universo masculino, que, com medo de apontar energeticamente os seus afetos e vivências, buscam profundamente encontros e reencontros, bebidas e proclamações que tangem as “Pálpebras do Passado”.

Do poema Doce Saudade se remete a hiperbólica configuração para enaltecer sonho e doçura das sensações perante o cosmos utópico de Dalomba, que sente da transfiguração das sementes, da plantação do cafezal, e também da doce sombra onde os pássaros chilreiam, e tornam doce a paisagem, o canavial.

A mágoa também doce repousa no coração pela simbologia romântica que se traduz de um foco de ternura pela “saudade do mato”, e pela glória simbólica e memorial das “costas no chão na contemplação do zénite”, onde fogo e tensas propostas resvalam.

A pensar no cheiro da saudade como o “Moinho de pedra dribla o grão/ Plantações de café à sombra de passarinhos”, alargam a beleza paisagística da realidade “Cana brava a florescer cristais de açúcar” para depois se convocar a “a doce saudade no coração magoado/ saudade do mato”, das “Costas no chão na contemplação do zénite”, para resgatar belezas perdidas que se contratam com “A memória na revolta presente de uma tragédia”, “Quem estrangula o meu mar”.

A invencibilidade de um povo destemido da guerra civil, que em Angola parecia não ter Rim, passa do crivo da poesia de Amélia Dalomba com todas as mínguas o povo do Kuito Cidade em Fumo clama e proclama-se vencedor mesmo quando os “Olhos de pluma vagueiam bondade na cidade em fumo/ Morte ressuscita cada despertar”.

Dolorosamente os velhos, crianças e mulher grávida na “Inocência indaga bala nas fachadas dos passeios”, daí se anuncia esperança a gesticular preces ao generoso.

É o fumo da guerra que se faz leve nuvem pela credibilidade, “Dos cultos ancestrais que nos dão vida/ A história pelo mastro”, como bandeira “A que chamam flor”.

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