“O Lugar do Nome”, de Cristóvão Neto Da arqueologia da palavra à reinvenção do signo

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“...a obra somente é obra quando ela se converte
na intimidade aberta de alguém que a escreveu
e de alguém que a leu, o espaço violentamente
desvendado pela contestação mútua
do poder de dizer e do poder de ouvir.”
Maurice Blanchot

Cristóvão Neto

I – Introdução

Há, no meio do actual caos que nos amordaça, uma pergunta que não se quer calar: -a poesia ainda se faz necessária nos dias de hoje?
A resposta a esta pergunta aparentemente inocente não é e nem pode ser tão linear, como à primeira vista pode parecer. Ainda assim, não relutamos em responder pela positiva: - a poesia é necessária e far-se-á sempre necessária, porquanto ela humaniza o Homem e torna o mundo mais suportável. Esse é um facto e contra factos qualquer argumento torna-se estéril.
De qualquer modo, esse é um campo aberto à discussão e sobre o qual não nos cumpre aqui e agora reflectir, pois far-nos-ia gastar rios de tinta. Por conseguinte, basta-nos referir, na esteira de Alfredo Bosi, que “durante milénios e certamente muito antes da invenção da escrita, a poesia habitou entre os homens para seu encantamento e consolo.” Mais adiante, o mesmo Bosi assevera que “identificando-se com a linguagem dos primeiros homens, a poesia lhes deu o abrigo da memória, os tons e as modulações do afecto, o jogo da imaginação e o estímulo para reflectir, às vezes agir.”
E nós acrescentamos: a poesia é necessária, porque o mundo em que vivemos está atravancado de coisas erradas, milhões de informações supérfluas e profundamente emaranhado em sons, palavras, silêncios, etc., que o tornam ininteligível.
De facto, no mundo hodierno literalmente invadido por uma infinidade de ruídos na comunicação, assolado pela frivolidade no pensar e no agir, ergue-se altaneira, com toda a sua carga simbólica, a asserção de William Shakespeare: “Muchadoaboutnothing” (Tanto alvoroço ou barulho por nada).
E o que os poetas fazem é, a partir desse caos, reencontrar sentido para as coisas; do barulho e dos vultos disformes, construir silêncios e dar forma aos vultos, restabelecendo com isso os necessários equilíbrios e dando, portanto, sentido à vida, irrompendo o fenómeno da expressão.
Pelo que antes ficou exposto, reafirmamos que ainda é necessária a poesia.

II - Sobre a antologia

É consabido que em África a antroponímia está muito ligada à zoonímia e à toponímia. Daqui se pode inferir que o lugar, qualquer lugar, tem nome e o nome está ligado ao lugar, estabelecendo-se uma espécie de “ontogénese”, que estuda o processo evolutivo do lugar e do nome.
Nesse processo, as fronteiras entre o lugar e o nome são ténues. Daqui a pertinência que atribuímos à antologia de Cristóvão Neto, na medida em que a poesia, enquanto um não-lugar, surge para (re)definir “O Lugar do Nome”.
Para começar e desde já impõe-se uma primeira e óbvia indagação: - quem é Cristóvão Neto?
Cristóvão Neto, ou Cristóvão Luís Neto, de seu nome completo, é um poeta que pertence ao mundo, e que nasceu em Malanje, há já algum tempo; fará este ano meio século de vida.
Este engenheiro de formação, é poeta de mão cheia, várias vezes premiado; tem 6 (seis) livros publicados e também publicou vários textos em revistas e jornais, dentro e fora do país.
De referir igualmente que muitos dos seus poemas constam de antologias, das quais destacamos Todos os Sonhos, de Adriano Botelho de Vasconcelos, (Angola) Entre a Lua, o Caos e o Silêncio, a Flor, de Irene Guerra Marques e Carlos Ferreira, (Angola) e Ovi-Sungo, Treze Poetas de Angola, de Cláudio Daniel (S. Paulo/Brasil). Além do mais os seus textos poéticos constam dos manuais de estudo em escolas em Angola.
A antologia poética O Lugar do Nome, de Cristóvão Neto, de facto, é um aturado e apurado exercício com a palavra, onde emerge o belo; é um profundo monólogo, nalguns casos transmutado em diálogo, onde é notório um perfeito equilíbrio entre o conteúdo e a forma, numa relação esteticamente bem conseguida.
Em boa verdade, perpassa todo o livro aquilo que Kant designou por “livre jogo de imaginação”, porquanto Cristóvão Neto, no seu processo de construção poética, faz dialogar nos seus textos a “actividade” e o “sentimento fundamental de compaixão”. Essa relação dialógica é uma trave-mestra da sua já referida construção poética.
A antologia tem 208 páginas, com 148 poemas, distribuídos pelos livros/cadernos: Sinos D’Alma (Depoimentos - 8, O Amor é Navegar - 10); Pausa (Palavras Sem Sol – 10, Poemas Quase de Amor – 2, (Entre Parêntesis) – 5); Anoiteço – 34; Catarse – 25; Delirium, Marcha Lenta (Primeira Parte – O Lugar do Nome – 18; Segunda Parte – Amanhã também sou Triste? – 10; Terceira Parte – E Tudo Porque a Tristeza Anoitece em mim – 14; Quarta Parte – No Natal das Minhas Lágrimas Assombradas – 12).
A antologia traz ainda um breve mas significativo texto do autor, com o título sugestivo: Entre a Luz e a Sombra – O Crepúsculo, bem como um texto introdutório, que é na verdade uma entrevista feita ao autor pelo jurista e jornalista Aguinaldo Cristóvão.
Muitos dos textos poéticos inseridos na antologia reflectem profundos rasgos de meditação filosófica, como são os casos dos poemas Sinos D’Alma I e Sinos D’Alma II, a título exemplificativo, a páginas 31 e 32, Diálogos em imagens – Eu e a Sombra (pág. 134), Diálogos em imagens – Eu e a Palmeira (pág. 135), Diálogos em imagens – Eu e o Sol (pág. 136) respectivamente.
Por outro lado, uma das características que sobressai em vários poemas é o inelutável desejo de dar voz aos que não têm voz, protestando contra as injustiças, mas sempre com a esperança num futuro melhor.
VideDepoimento III (pág. 35), onde se pode ler: Adoro-te / Ó rufar ardente de tambores clamoros no sertão / Prenhe de almas penadas de negreiros e escravos cativos / Chorando ainda a mesma servidão de séculos que não passam. // Ó sonho aturdido de viagens ao passado e ao porvir / Meu habitat de poeta / Irresistível força da minha esperança / Estufa de meus cantares e silêncios!
Mas o autor de O Lugar do Nome é um poeta com bastantes recursos, que vão desde o lírico, passando pelo épico e pelo dramático, explorando de modo magistral as técnicas de construção desses tipos de poesia.
Por exemplo, desde o ponto de vista das formas linguísticas, há inclusive poemas onde Cristóvão Neto trabalha muito bem e de modo particular a sonoridade (por exemplo, a assonância – pág. 63 e 127, a aliteração – pág. 192, e a rima – pág. 118), o estrato da palavra (por exemplo a supressão dos artigos), o uso de figuras de retórica, etc., vincando assim os traços estilísticos que caracterizam de modo inelutável o seu próprio estilo.
E em se tratando de poesia lírica, vale a pena ler poemas como: Ode ao teu Amor (pág. 41), À Poesia dos teus Olhos (pág. 44), Hino de Saudade (pág. 47) e Já não Cheiro os Livros (pág. 132) (estes poemas associam o lirismo a uma força telúrica arrebatadora); na sequência é imperioso, diga-se, ler o belo poema de amor, que o autor dedica à sua filha, a páginas 125, com o título Borboleta Azul. Poema belo, mas igualmente dolente. Enfim!
Neste mesmo sentido pode-se ler Pausa (pág. 57), A Voz Transcendente da Voz (pág. 58), Dói-me a Liberdade da Árvore (pág. 118), de entre outros poemas igualmente belos.
Poemas como Julgar é um Jogo de Deus (pág. 126), Ontem Matei o Céu Azul (pág. 127), O Chão da Lágrima, este último evocando a sua mãe, (pág. 130), Pus Flores no Horto desta Língua (pág. 141), e todos os poemas do caderno O Lugar do Nome ( pág.s 149 a 166), e ainda os poemas das págs 176 e 178, são bem exemplos de profundas meditações, implosões da alma do poeta, que fazem fluir o verbo e a palavra, explodindo a quietude das nossas consciências.
E o que Cristóvão Neto, enquanto poeta, fez e faz no seu árduo e cirúrgico labor, é identificar nas silhuetas disformes que erram pelas ruas do mundo, figuras humanas, i. é, ele identifica em tais silhuetas pessoas apenas com corpo e dá-lhes alma; identifica vidas insípidas e descoloridas, lugares translúcidos, e atribui-lhes matizes vivas, concebe-lhes os contornos e concede-lhes o perfume das flores. Além de tudo isso, o poeta dá-lhes também voz.
O poeta, tal como ocorre com qualquer cultor da arte, sabe que a sua obra é sempre infinita, “é o que torna visíveis ou presentes sua natureza e sua matéria, a glorificação de sua realidade: o ritmo verbal no poema, o som na música, a luz convertida em cor na pintura, o espaço feito pedra na casa.” (M. Blanchot).
Para nós, tal como uma bela estátua glorifica o mármore, o poema glorifica a palavra, o verbo. E os poemas de C. Neto glorificam a palavra.

III.- À guisa de conclusão

Cristóvão Neto é daqueles jovens que sabe deixar amadurecer o verbo, a palavra. Burila o verbo e a palavra com o rigor dos bons ourives; depura-a com paciência chinesa, estudando com afinco, lendo e escrevendo com sofreguidão, observando muito, sopesando razão e coração e, sobretudo, sabe ser humilde.
Ele sabe, tal como acontece com qualquer poeta (evitamos o risco de dizer “bom poeta”, pois para nós ou se é poeta ou não se é!), dizíamos, ele sabe que é a solidão do livro que nos desvenda a mais profunda e a mais essencial solidão, uma vez que “escrever é entregar-se ao fascínio da ausência de tempo”, e “entrar na afirmação da solidão onde o fascínio ameaça”, como afirma o já citado M. Blanchot.
É caso para dizer, como diríam os latinistas: Chiva piano va sano! Chiva sano valontano!
Quem tem ouvidos, ouça! (BOSI)
Este livro de Cristóvão Neto, apesar de sofrido, magoado, introspectivo, é sobretudo uma exaltação ao amor, um verdadeiro canto de esperança, um hino à vida. É assim que o vemos. Recusamo-nos a vê-lo de outro modo.
Mesmo sendo um livro muito profundo, o poeta teve o condão de utilizar uma linguagem magistralmente simples, apesar de conotativa, pelo que qualquer leitor poderá fruir de uma boa e enriquecedora leitura. Por conseguinte, não necessita de mobilizar quaisquer competências específicas, típicas da crítica e análise literárias.
Como muito bem ensina DominiqueMaingueneau, em a Pragmática para o Discurso Literário, bastará que o leitor comum tenha alguns gabaritos, que lhe permitam, ao menos, perceber a estruturação das relações intra-textuais, ou seja, perceber a “gramática do texto”, para além de entender minimamente a gramática da língua, como é óbvio.
Como disse o lituano CzeslawMilosz, poeta, romancista, ensaísta e Prémio Nobel da Literatura de 1980, e tu, Cristóvão Neto, citaste-o bem na tua antologia, “feliz o povo que possui poetas e em seus tormentos não caminha calado.”

Luanda, 11 de Abril de 2014

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