"O olhar sobre o verbo evoluiu no país"

Envie este artigo por email

Carmo Neto, secretário-geral da União dos Escritores Angolanos

Acerca de nove meses do término do seu primeiro mandato como secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, Carmo Neto faz uma avaliação do panorama literário nacional, debruça-se sobre o papel da associação mais antiga de Angola independente e fala dos projectos editoriais e imobiliários que visam expandir as obras autores nacionais e garantir a autonomia financeira da instituição.

O autor de "Degravata" diz da sua condição de escritor e reafirma a razão da sua predileção pelo cultivo do género Conto. "O conto exige, da mesma forma que o romance, um cuidado e um apuro especiais", defende, contra o que ele considera "menosprezo" por aquele género literário.

Jornal Cultura ­ Está como secretário-geral da União dos Escritores Angolanos faz quase três anos, uma posição com uma vista privilegiada sobre o panorama literário do país. O que se lhe oferece dizer a respeito?
Carmo Neto ­ Faltam oito ou nove meses para completar os três anos de mandato, mas isso não faz com que não tenha um olhar profundo sobre o que se faz em termos literários no nosso contexto. Creio que na vertente editorial há mais livros, o que não é, necessariamente, sinónimo de qualidade proporcional. Há qualidade nalguns autores mas há outros que, através de edições de autor ou de editoras menos exigentes, fazem sair obras imaturas. Também é notório que nalguns concursos
literários há falta de nomeação de vencedores por inexistência de qualidade literária.

JC ­ A não atribuição de prémios na últimas edições dos principais concursos literários não terá mais a ver com um maior rigor e exigência dos júris?
CN ­ Hoje no país já existem várias instituições ligadas ao estudo das letras, particularmente da literatura, e têm sido membros de júris alguns estudiosos e diplomados em literatura. Naturalmente o olhar sobre o verbo, de forma artística, evoluiu de forma acentuada. Por outro lado, o nível de leitura e de exercício da língua portuguesa é bastante sofrível. Embora se tenha o imaginário e o talento, se não se tiver o domínio de o exercitar com a subtileza que qualquer obra de arte exige, a consequência será a insuficiência e a mediocridade e, por conseguinte, o indeferimento nos concursos.

JC ­ Sente que a UEA continua a ser uma entidade respeitada no contexto institucional do país?
CN ­ A UEA é uma associação de artistas da palavra que nasceu um mês depois da independência do país. Ela surgiu, inicialmente, para afirmar a existência da literatura angolana. Hoje compete-lhe dar continuidade ao desenvolvimento da literatura angolana. Não nos esqueçamos que enquanto associação a UEA complementa as atribuições do Ministério da Cultura. Somos artistas da palavra, conhecedores dos problemas específicos dos confrades e com melhor capacidade de contribuir para a solução desses problemas, que são, fundamentalmente, a promoção e a divulgação das suas obras. Nesse contexto justifica-se a existência da UEA. Questionar-se-á, hoje, que antes havia mais promoção e os livros eram produzidos em maior número de exemplares. Antes o papel do Governo em relação às associações, particularmente em relação à UEA, era mais forte. O Governo atribuía à UEA o que ela necessitava para desempenhar as suas funções. Hoje a UEA é uma associação de utilidade pública que não tem tanto assim em termos de receitas para o desempenho das suas actividades. Temos tido um apoio anual que não chega para editar três ou quatro bons livros, até porque a edição no país é extremamente cara. Daí o nosso recurso ao mecenato e ao abraço de alguns empresários nacionais e estrangeiros, que suportam os custos de transporte e até mesmo de edição.

JC ­ A maioria dos títulos da UEA  continuam a ser impressos no estrangeiro?
CN ­ Sim, chega a ser economicamente mais vantajoso.Com o valor com que se tira um livro em Angola pode-se tirar dois ou três fora do país. Daí que seja bem vinda a aprovação, pela Assembleia Nacional, da Lei do Mecenato, que queremos que seja implementada, para permitir que mais empresários se envolvam nas áreas editorial, da imprensa e da indústria de papel, para que o livro chegue mais barato ao leitor. Essa é apenas uma parte do problema. É preciso, para que o livro seja ainda mais barato, que se faça uma promoção institucional, que os órgão de comunicação social promovam não só a dança e a música, mas também o gosto pela leitura.

JC ­ Considera que há um défice de promoção do livro e da literatura na comunicação social?
CN ­ Desafiava-o a fazer um inquérito a uma faixa etária de cidadãos entre os 18 e os 60 anos, incluindo professores de língua portuguesa, para ver quem conhece António Jacinto. Seria um desastre. Temos professores de língua portuguesa que escrevem mal e cujos alunos têm a ousadia de serem candidatos aos concursos literários. Mas também acontecem milagres, aparecem pessoas a escreverem laboriosamente
bem, o que ainda tem de ser estudado.

JC ­ Aí há alguns anos cogitava-se a possibilidade da UEA transformar-se numa Academia de Letras. Isso ainda está na ordem de cogitações?
CN ­ Os associados, de acordo com o que é legal, podem transformar a UEA naquilo que acharem melhor e conveniente. Mas não nos esqueçamos que os requisitos para se ser membro de uma academia não são os mesmos para se pertencer a uma associação. Essa transformação levaria algum tempo, obrigaria à profissionalização dos associados e cada um teria de mostrar o que é capaz de fazer. Mas também tem de haver consumo do livro. E há ainda a questão de ter que se definir o que é ser membro de uma academia de letras ou de uma associação. Os critérios de admissão para uma Academia de Letras são muito mais exigentes. Veja-se que os seus membros são figuras de alto gabarito, figuras que já tenham dado o seu melhor no mundo das letras. Veja-se, por exemplo, que a Academia Brasileira de Letras é uma sociedade literária sem fins comerciais criada no final do século XIX por um grupo de 40 escritores e poetas inspirados pela Academia Francesa. A Academia Brasileira de Letras é, segundo os seus estatutos, a autoridade sobre a língua nacional do Brasil (o português). É constituída por 40 membros, conhecidos como "imortais", escolhidos entre os cidadãos do Brasil que tenham publicado obras reconhecidas ou livros de alto valor literário. Mas esta Academia tem uma situação financeira confortável que permite pagar uma espécie de "incentivo monetário" para cada membro. É muito precoce estar aqui a abordar essa questão, que depende inteiramente da Assembleia Geral da UEA.

JC ­ A UEA tem relações institucionais com Universidades angolanas?
CN ­ Temos, mas ainda pouco férteis e fluentes. No âmbito da redinamização das "Makas à quartafeira" vamos trabalhar com Universidades e outras instituições de carácter cultural. JC ­ Esse trabalho vai consistir precisamente em quê? CN ­ Vamos trabalhar no sentido de elevar o debate sobre as obras dos nossos membros, fazer conferências com professores e estudantes de literatura e trazer o melhor conhecimento do texto literário e da língua portuguesa. Prevemos, para breve, um debate com uma professora brasileira renomada, em colaboração com a Casa da Cultura do Brasil, a propósito do texto de literatura infantil. Traremos ao país académicos e escritores africanos, à semelhança do que já fizemos com uma escritora nigeriana. Através da editora Présence Africaine vamos editar uma antologia de literatura angolana em prosa, em francês, em Paris. Com essa antologia incrementaremos o intercâmbio com as literaturas francófonas. Já temos uma CN ­ Essas bolsas visam dar garantia de desenvolvimento natural do talento adormecido nalguns dos nossos escritores. Para criar não basta ter motivação e a fertilidade genética. É preciso trabalhar o talento. E para isso é preciso o silêncio, o repouso e o retiro. E há que ter a necessária compensação em termos de convivência social e de receitas de sobrevivência. Para que os nossos escritores possam trazer a lume o que vive adormecido no interior da sua capacidade, temos de ter condições financeiras. O exíguo valor financeiro que nos é dado pelo Estado, através do Ministério da Cultura, serve fundamentalmente para salários e gastos administrativos. Das receitas de alguns bens que a UEA possui temos editado livros, subsidiado custos relacionados com a saúde dos membros e premiado escritores que nos dão a garantia de que podem criar mais se tiverem incentivos. Se tivéssemos mais transformaríamos os nossos escritores em bolseiros, mas não é possível.

JC ­ Em que estado se encontra o grande projeto imobiliário para rentabilização do espaço físico da UEA?
CN ­ Atendendo à forma como as negociações decorrem estou em crer que este mês de Setembro estaremos em condições de anunciar um acordo com um prestigiado parceiro.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos